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(A) :: A nova lucidez é uma cegueira

A nova lucidez é uma cegueira

O mundo é muito mais diverso do que imaginamos. Não está dividido entre bons e maus, estamos cheios de contradições e complexidades irreconciliáveis.

P. João Basto
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Tenho contado muitas vezes esta história. Mas nunca o fiz aqui. Um dos meus avôs é comunista. O outro, embora já tenha morrido, dizia sem receio que o Estado Novo nunca lhe tinha feito mal nenhum. O primeiro combateu na guerra colonial. O segundo fugiu para França para “não combater numa guerra” que “não era sua”, onde aprendeu, ao travar amizade com um polaco, que nunca se devia confiar em comunistas. Infelizmente, os filhos estragaram-lhes os planos. O sortudo fui eu. Ainda para mais porque ambos eram do Sporting.

A partir dessa experiência, entendi que o mundo é muito mais diverso do que imaginamos. Que não está dividido entre bons e maus, que estamos cheios de contradições e complexidades irreconciliáveis. Que estar num determinado sítio não significa que concordemos com o que lá se passa. Que fugir desse mesmo sítio não significa, automaticamente, que seja do contra.

Imagino que seja muito mais tranquilo viver num mundo que não é assim. Creio que tive mais sorte. Discordo de quem diz que a violência política vem sempre da esquerda, como discordo de quem afirma que ela só tem origem na direita. Oponho-me à ideia de que as religiões são automaticamente boas, como nego a noção de que elas são, por natureza, más.

Desde que nasci, em 1996, ensinaram-me que o contrário era sinal de sectarismo. Passados 30 anos, querem-me convencer de que este é um modo de lucidez.

Todos concordamos que o universo e a vida são fenómenos extremamente improváveis. Mas, curiosamente, o lado dos bons é sempre o nosso. Ou seja, depois de todos os acasos da vida, tudo concorreu para que um determinado indivíduo seja virtuoso, justo, correto, leal e perspicaz, de tal modo que os restantes só possam ser ou lixo, ou imbecis. Claro, é normal que esse indivíduo tenha amigos, mas sempre tão virtuosos, justos, corretos, leais e perspicazes como ele. Sempre capazes de dizer as verdades que os outros têm medo de ouvir.

Todavia, após demorada observação e aturada reflexão, diante de espécimes deste tipo, quer em contexto de cativeiro, quer em modo safari, posso assegurar o seguinte: à medida que o tempo passa esse mesmo indivíduo tende a desiludir-se, começando a achar que os antigos companheiros se têm vindo a comprometer com agendas nocivas e clandestinas, não lhe restando solução, senão uma sacrificada solidão, que ele assume como martírio pela verdade.

Infelizmente, não me foi dada a graça de tamanha vocação. Não consigo “fazer ginástica pela manhã, ser pontual, ter imensos amigos, dar muitos jantares, ir a muitos jantares”. Tenho-me esforçado para que os outros me devolvam algo que eu não tenho, não sei ou não posso saber. Mesmo que, às vezes, fique arreliado com isso. Só não quero que a minha inteligência seja “feita da estupidez dos outros”.