A garantia foi deixada por vários especialistas assim que se soube do surto de hantavírus a bordo do cruzeiro MV Hondius: a transmissão entre humanos “é muito rara”. Até hoje, só se conhecia uma estirpe onde esse contágio acontecia entre humanos. No caso do navio ao largo das Canárias, onde está um português entre os mais de 150 passageiros, foi precisamente essa estirpe, a dos Andes, a ser detetada a bordo.
Apesar disso, a Organização Mundial da Saúde (OMS) apressou-se em afastar o “pânico” e o receio de uma potencial propagação global do vírus. “É uma epidemia limitada e confinada ao cruzeiro. A ideia de alarmar o mundo e criar pânico não é necessária”, disse Abdirahman Mahamud, chefe do departamento de Operações de Resposta a Emergências de Saúde.
Ouvidos pelo Observador, os peritos portugueses em doenças infecciosas acompanham esta ideia. Não há, para já, motivos para alarme. Mas, para que continue a ser assim, é preciso apostar na monitorização de todas as pessoas que estiveram em contacto com pessoas infetadas, mesmo as que não apresentam sintomas.
Quais as características da estirpe dos Andes?
Tal como a estirpe (ou espécie, já explicamos a diferença), também o hantavírus foi batizado com uma referência geográfica, aludindo ao rio Hantan, que cruza Pyongyang (na Coreia do Norte) para desaguar noutro rio, já na Coreia do Sul. As margens do Hantan foram um dos palcos da Guerra das Coreias, situação que potenciou a propagação de uma epidemia com 3.200 casos registados.
Anos mais tarde, a doença seria batizada. No entanto, nessa altura, a infeção resultava em febre hemorrágica e complicações renais — a estirpe americana atinge mais o pulmão e as estirpes euroasiáticas tem maior incidência sobre os rins. Mas este é apenas um dos dois grupos genéricos de hantavírus. O outro é o que foi agora detetado a bordo do cruzeiro com bandeira holandesa.
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É nesse grupo que se inclui esta estirpe, é mais comum na América do Sul, mais especificamente em zonas altas e frias — condições presentes no Sul dos Andes, na Argentina e no Chile.
Jaime Mina, infecciologista que há anos estuda e partilha conhecimentos sobre este tipo de vírus no Instituto de Higiene e Medicina Tropical de Lisboa, divide-se, desde logo, sobre a terminologia, destacando que a “distância genética” para os outros hantavírus é tão grande que até pode ser considerada “outra espécie”.
A principal característica da estirpe é “o reservatório”, isto é, “o animal onde habitualmente se dá o ciclo do vírus, onde ele se reproduz”. “São sempre roedores”, mas são algumas espécies específicas de ratos do campo que só existem na América do Sul (e, lá está, em zonas frias e altas).

Quais as diferenças desta para outras estirpes?
Os hantavírus englobam várias espécies ou estirpes, sendo que a dos Andes é a única em que é possível haver transmissão do vírus entre humanos (em vez de ser através do contacto com roedores). O Governo argentino acredita que a origem do contágio estará no casal holandês que foi fazer observação de pássaros num aterro sanitário em Ushuaia, onde terão tido contacto com roedores (urina, fezes ou saliva).
Os infetados poderiam ter sido contagiados por ratos já a bordo do cruzeiro, mas essa hipótese parece pouco provável. “Dizem-nos que não há roedores a bordo”, garantiu Maria Van Kerkhove, responsável da OMS para a prevenção e preparação de epidemias e pandemias. “[Os holandeses] embarcaram na Argentina. E com a incubação do hantavírus, que dura entre uma e seis semanas, supomos que se infetaram fora do barco”, acrescentou.
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“Esta estirpe é mais prevalente no continente sul-americano, todas as outras são transmitidas ao homem ou pelo contacto direto com roedores ou pela exposição aos excrementos secos desses roedores. Esta em particular parece ser uma estirpe que, ao contrário de outras, se transmite facilmente, ou mais facilmente, entre humanos”, detalha ao Observador o infecciologista Fernando Maltez.
Se, nos primeiros casos, detetados na Coreia, os doentes tinham complicações renais e acabavam, muitas vezes, por morrer, depois foi detetado um quadro, mais comum no Norte da Ásia e na Europa, que provoca “febre hemorrágica”. As estirpes verificadas nos continentes americanos afetam sobretudo o pulmão. “Há febre e pneumonia, e a maioria das mortes é por insuficiência respiratória”, refere Jaime Pina. Ainda assim, o especialista explica que estes sintomas variam muito entre as estirpes e que às vezes podem-se misturar.

É “raro”. Mas como se dá o contágio entre humanos?
É no contágio que se nota uma das principais diferenças da estirpe andina para as restantes. Das variantes conhecidas, é a única onde a transmissão pode ser feita diretamente entre humanos, como terá acontecido no cruzeiro Hondius. Ainda assim, os especialistas ouvidos pelo Observador estão em sintonia com a OMS ao defender que, mesmo nesta estirpe, este contágio não é assim tão frequente.
“Todas as outras estirpes são transmitidas ao homem ou pelo contacto direto com roedores ou pela exposição aos excrementos secos desses roedores. Esta em particular parece ser uma estirpe que, ao contrário de outras, se transmite mais facilmente entre humanos, coisa que não é característica dos hantavírus”, diz Fernando Maltez.
Além do homem holandês que terá embarcado já com o vírus, o segundo caso detetado foi o da sua mulher, que apresentou sintomas compatíveis com a estirpe dos Andes — e ambos acabaram por morrer. A OMS assume duas hipóteses: ou foram contagiados no mesmo momento, ou o marido infetou a mulher já durante a viagem. Certo é que, no dia em que a mulher apresentou sintomas, outro passageiro do cruzeiro dirigiu-se ao médico a bordo com os mesmos sintomas.
Antes de morrer, o primeiro portador do vírus a bordo tinha febre, dores de cabeça e alguma diarreia — tudo sintomas que começou a notar a 6 de abril, cinco dias depois de o barco ter iniciado a travessia Atlântica até Cabo Verde. Até ao momento, a OMS já registou três mortes e oito infetados (cinco confirmados e três ainda suspeitos de infeção).
Outra característica desta estirpe prende-se com a possibilidade de ser propagada a outras pessoas num período em que o portador está ainda assintomático. “Pode ser transmitida dois dias antes do aparecimento de sintomas, o que dificulta o controlo da transmissão. Porque há pessoas que estão assintomáticas e que podem estar a transmitir a infeção a outras sem o saber, porque não têm queixas”, acrescenta Fernando Maltez.
Se o contágio, com outras estirpes, ocorre através do contacto direto com roedores portadores do vírus ou pela inalação dos seus excrementos (urina, fezes, saliva), entre humanos costuma verificar-se através do contacto prolongado com outras pessoas infetadas — como terá acontecido entre o casal holandês. “Há casos em casais que vivem períodos prolongados em contactos próximos, não obrigatoriamente no sentido sexual. Pode haver contágio, por exemplo, entre mães que dormem com filhos, como acontece nos Andes, com temperaturas negativas durante a noite”, salienta Jaime Pina, que aponta a uma predominância desta propagação entre famílias mais pobres.
Não existe ainda informação suficientemente clara sobre de que forma o vírus é transmitido entre humanos — a única refere sistemática dos especialistas é a de que a transmissão, nesses casos, acontece através do “contacto prolongado”. No caso do SARS-CoV-2 (que dava origem à Covid-19), o vírus propagava-se essencialmente através de gotículas respiratórias e aerossóis. À National Geographic, o imunologista Steven Bradfute, investigadora deste vírus específico no Centro de Ciências de Saúde da Universidade do Novo México, explica que o mesmo não se verifica com a transmissão entre humanos do hantavírus. “Quando há pessoas a dormir na mesma cama, ou parceiros sexuais, ou pessoas a partilhar alimentos, nesses casos o vírus pode transmitir-se por essa via. Mas não se transmite a grandes grupos de pessoas”, refere apenas o especialista.
“Penso que, não por coincidência, uma das vítimas, neste caso do barco, foi o médico a bordo. Por dever profissional, teve que ter contactos muito próximos com os doentes. Fez uma série de manobras que podem implicar um certo risco”, acrescenta Jaime Pina, destacando que, mesmo assim, o contacto entre humanos “é muito raro”.
Que lições podem ser aprendidas com casos antigos?
Com os hantavírus, e mais especificamente a estirpe dos Andes, no foco mediático, o El País recuperou um caso de 2018 que parece contrariar a ideia que o contágio só é possível através de contactos próximos com uma pessoa infetada. Segundo um estudo científico citado pelo jornal espanhol, houve um surto nesse ano originado numa festa de aniversário que provocou 34 infetados e 11 mortos.
O artigo, publicado na prestigiada “New England Journal of Medicine”, reflete a possibilidade de haver contágio entre humanos sem ser através de contactos próximos, hospitalares ou sexuais, testemunhando a existência de “supercontagiadores” que podem elevar o número de reprodução do vírus para 2,12 (ou seja, uma pessoa transmite o vírus, em média, a 2,12 pessoas) — o coronavirus, por exemplo, tinha, na fase inicial da pandemia um “R” de 3.
Depois de ter sido detetado o caso em três pessoas com sintomas que tinham estado em eventos sociais (um funeral, um aniversário e uma consulta no médico), as autoridades começaram a isolar as pessoas infetadas (ou com possíveis contactos). A transmissão intensificou-se na festa de aniversário com cerca de 100 convidados, onde o paciente 1 marcou presença.
Só esteve no evento pouco mais de uma hora, até começar a sentir febre e sair. Cinco pessoas que estiveram perto dele começaram a sentir os mesmos sintomas entre 17 e 24 dias depois da festa. Houve ainda outro infetado que, apesar de não ter estado sentado ao lado deste grupo, cruzou-se com o paciente 1 na casa de banho.
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O segundo paciente terá sido a fonte de pelo menos mais seis pessoas, devido à sua intensa vida social. Acabou por morrer 16 dias depois de ter notado os sintomas e, no seu funeral, pelo menos mais dez pessoas terão sido contagiadas.
Na conferência de imprensa desta quinta-feira, o porta-voz da OMS comparou o surto nesta festa de anos com o ocorrido no barco, notando uma semelhança: “A concentração de pessoas num espaço fechado e os contactos próximos”. Aproveitando a comparação, enalteceu que mesmo em 2018, numa festa com cerca de 100 pessoas, foi possível conter os casos. “Podemos quebrar esta corrente de transmissão e isto não precisa de ser uma epidemia”, disse Abdirahman Mahamud.
Gustavo Palacios, coautor do artigo sobre o surto na festa de aniversário, concorda. “Temos que colocar tudo em contexto. Há menos de mil casos documentados deste vírus e a maioria não tem cadeias de transmissão secundárias”. Apesar de destacar a possibilidade de haver contágio sem contactos muito próximos, o estudo também deixa indicações esperançosas: quando as autoridades atuaram, isolando os possíveis contagiados, o “R” baixou para 0,96. “Noutros casos, o número de reprodução do vírus não baixa tão rapidamente”, assegura Palacios, citado pelo El País.
Há outros bons indicadores: “Nos hantavírus há um ‘dead end’, um ponto final na transmissão. Depois de três transmissões, é o máximo registado, não há mais contágios”, sendo mais comparável à mpox — “que se transmitia sete gerações e já dizíamos que era pouco” — do que à Covid-19.

Como se deve controlar este surto?
Tal como verificado neste exemplo, os especialistas consultados pelo Observador defendem que a monitorização dos contágios pode controlar com relativa facilidade este surto. “Tem que se fazer uma história epidemiológica muito bem feita. Ver quem está infetado e quem contactou com quem. Tem que ser tudo muito bem feito de modo a controlar a infeção”, reforça Fernando Maltez.
O facto de poder haver contágio antes de haver sintomas — a infeção tem um período de incubação longo (pode ir até quatro ou oito semanas), mais notado nesta estirpe — obriga a cuidados extra, adquirindo especial relevância o acompanhamento dos contactos entre as pessoas a bordo, além de garantir os “equipamentos” necessários aos profissionais de saúde, para que não sejam também eles infetados.
“As pessoas que estão infetadas dentro do barco devem sair com essas medidas de controlo e devem ser transportadas para locais onde possam ser devidamente tratadas. Todas as pessoas devem permanecer no barco até passar o período de incubação”. Mesmo as que já saíram, acrescenta Fernando Maltez, devem ser seguidas até ao fim do período de incubação, porque “podem vir a desenvolver a doença”.
Há um risco global semelhante ao da Covid-19?
Na conferência de imprensa desta quinta-feira, a OMS procurou deixar claro a grande distância entre este vírus e o que dava origem à Covid-19, que em 2020 parou o mundo. Agora, garante a organização, não parece haver risco de se repetir um fenómeno destes.
“Não é o início de uma epidemia. Não é o início de uma pandemia, mas é a ocasião ideal para recordar que os investimentos na investigação sobre agentes patogénicos como este são essenciais, pois os tratamentos, os testes de rastreio e as vacinas salvam vidas”, afirmou Maria Van Kerkhove. “É um vírus muito diferente, que já existe há bastante tempo, nós conhecemo-lo. Por isso, quero ser clara: isto não é o início de uma pandemia como a da Covid-19″.
Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, sublinhou que, “tendo em conta o período de incubação do vírus (da estirpe dos) Andes, que pode atingir seis semanas, é possível que sejam notificados mais casos”.
“Em princípio, não haverá um risco global, se for feita uma vigilância adequada. Tem que se perceber todos os contactados da pessoa que esteve no avião e monitorizar esses contactos para que, se desenvolverem sintomas, sejam imediatamente isolados. É uma pescadinha de rabo na boca, ou um puzzle”, conclui Fernando Maltez.
Jaime Pina acrescenta que, apesar de serem vírus perigosos, a taxa de letalidade é enganadora. “A taxa anda nos 50%, mas é preciso ter em consideração que só são diagnosticados os casos mais graves que vão para o hospital. Os casos ligeiros, em que a pessoa nem procura o médico, não são sinalizados”.