Esta é a mais política e controversa Bienal de Veneza das últimas décadas. A poucas horas de abrir portas ao público, a 61.ª edição do maior evento de arte contemporânea do mundo está já marcada por vários episódios que poderão ainda condicionar o seu desenrolar. Esta sexta-feira, dia 8, último dia de pré-inauguração da bienal – que decorre de 9 de maio a 22 de novembro –, a polémica em torno da participação da Rússia e de Israel culmina numa greve mobilizada pelo coletivo ANGA – Art Not Genocide Alliance, em parceria com trabalhadores da cultura em Itália, associações do setor e sindicatos como a Associazione Difesa Lavoratori, a Unione Sindacale di Base e a Confederazione Unitaria di Base.
Num documento informativo distribuído durante os dias de pré-inauguração, a ANGA inclui também Portugal entre os países que considera cúmplices do atual contexto de guerra no Médio Oriente, apontando a utilização da Base das Lajes pelas forças militares norte-americanas.
A ação de greve decorre depois da entrega ao presidente e ao conselho de administração da Bienal de Veneza de uma carta que apela à exclusão de Israel, assinada por 219 artistas, curadores e profissionais das artes envolvidos nesta edição. Um dos subscritores foi Alexandre Estrela, o artista que representa Portugal na presente edição com o projeto RedSkyFalls. Num depoimento escrito ao Observador, o artista português explica que, por uma questão de coerência, é solidário com a iniciativa, acrescentando que não se trata de uma posição isolada, estando outros artistas “alinhados com a greve”.
“Após reflexão com a equipa artística — Ana Baliza, Ricardo Nicolau e Marco Bene — comunico que, durante o dia 8 de maio, das 10h às 22h, a obra operará numa configuração específica. Estará em pleno funcionamento físico — não há encerramento, retirada ou cancelamento —, mas haverá alterações: as animações serão suspensas, mantendo-se as placas iluminadas com a gravura à vista; o sistema operativo continuará em funcionamento, com o desktop e a paisagem de fundo a responder, como habitualmente, à atividade sísmica”, explica na mesma nota.
O artista diz ainda que considera a decisão “coerente tanto com a lógica interna de RedSkyFalls — que tem a atividade sísmica do planeta e o comportamento de freezing (congelamento) como matéria primária — como com o tema da 61.ª Exposição Internacional, In Minor Keys, e com a posição pública que assumi ao subscrever a carta da ANGA”. Acrescenta-se ainda que a inauguração oficial decorrerá normalmente: “tanto a equipa como eu estaremos presentes, e a obra estará ativa durante todo o dia”.

Ao Observador, Ana Baliza, co-curadora do projeto juntamente com Ricardo Nicolau, explica que o gesto pretende usar a visibilidade da bienal como tomada de posição pública: “É um sítio onde temos muita exposição e podemos tentar fazer o que está ao nosso alcance para que essa presença signifique algo maior do que apenas uma linha no currículo. É também por isso que entendemos a demissão do júri como algo relevante. Se fosse feita de forma uníssona entre artistas e pavilhões teria um impacto ainda maior”.
“Independentemente do que se passa, as pessoas farão arte, mas é um momento estranho para fazer esta bienal e apresentar estas peças. É uma espécie de suspensão, mas também por isso questionamos o sentido de ter uma representação nacional de um país repressivo. É um paradoxo, e o contexto da bienal agudiza-o porque é altamente permeável a essa dimensão da representação nacional”, acrescenta a curadora.
Acrescente-se que a esta greve se juntou outra mobilização, em março deste ano, quando 74 artistas e curadores presentes na Exposição Internacional enviaram uma carta ao presidente da bienal, Pietrangelo Buttafuoco, apelando à exclusão de Israel, da Rússia e dos Estados Unidos, assinalando ainda “a ausência continuada” de um Pavilhão da Palestina. Até ao momento, está também prevista para junho uma greve nacional em Itália dos profissionais da cultura, em consonância com este movimento de boicote.
Um tremor entre tremores
Mas nem só de polémicas se conta a história desta edição. Portugal apresenta-se em Veneza com um projeto que transforma a instabilidade do planeta em imagem e som. É nesse contexto que surge RedSkyFalls, de Alexandre Estrela, com curadoria já mencionada de Ana Baliza e Ricardo Nicolau. A partir de uma obra homónima de 2019, parcialmente apresentada na Culturgest, em Lisboa, o artista desenvolveu uma nova instalação que funciona agora como um sistema operativo para novos seres digitais, dialogando com o tema da bienal.
Trata-se de um sistema cibernético que reage em tempo real à atividade sísmica planetária, convertendo-a em imagem e som. A obra revisita anomalias naturais e seres que anteveem instabilidades geológicas, como o peixe-gato Namazu da mitologia japonesa. Ao mesmo tempo, estabelece um paralelo entre a fratura aberta pelo terramoto de 1755 no pensamento ocidental — reforçando a ciência e as reflexões de Voltaire — e a erosão contemporânea da confiança no conhecimento científico, substituída por uma crença cega na tecnologia.
“Desde sempre houve observação humana dos sinais que nos rodeiam”, começa por realçar Ana Baliza. Para a curadora, trata-se de um dispositivo paracientífico. “A peça relaciona-se com o facto de vivermos permanentemente sob essa ameaça. Muitos dos grandes avanços da sismologia aconteceram durante a Guerra Fria, como forma de testar a possibilidade de conflito nuclear. E hoje voltamos a viver sob ameaças semelhantes”.

“Em vez de ilustrar catástrofes, RedSkyFalls atua como amplificador de empatia, deslocando o olhar da grande narrativa para sinais mínimos e vibrações quase impercetíveis, propondo uma ‘ciência das singularidades’ e uma atenção aos pequenos seres, naturais e artificiais — que, regidos por leis de interdependência e cooperação, sobrevivem contra a corrente”, lê-se na apresentação do projeto, escolhido por júri num concurso onde também constavam os projetos do português Pedro Barateiro e do greco-britânico Mikhail Karikis, sediado em Lisboa.
Neste contexto, a curadora explica que a peça não tem um cunho pedagógico. “É uma experiência sensorial que testa a perceção. Pode ser analisada de muitas formas, mas não exige um conhecimento a priori. Ele testa aqui um mecanismo de perceção do ambiente em que intuitivamente percebemos o que está a acontecer, porque reconhecemos os animais, os movimentos organizados, a noção de perigo — e nós somos parte disso. Aprende-se a estar atento, acredito, e a antever alguns destes fenómenos, porque este dispositivo reage com aceleração antes deles acontecerem, ainda que continuemos à mercê dessas forças”.
Para Veneza, RedSkyFalls será reativada através de dados obtidos a partir de fontes congéneres europeias, ganhando uma nova função como motor das peças-satélite espalhadas pelo espaço expositivo. A instalação transformará o pavilhão numa máquina ressonante das convulsões tectónicas, síncrona com eventos geofísicos distantes, posicionando o visitante numa ecologia global.
A energia sísmica liga RedSkyFalls a outras geografias através de uma rede internacional de Réplicas, instaladas em instituições parceiras como o Wattis Institute for Contemporary Arts, o REDCAT – Roy and Edna Disney CalArts Theater, o Museo de Arte de Lima (MALI), o Museo Universitario Arte Contemporáneo (MUAC) da UNAM e a Galeria Zé dos Bois, em Lisboa, onde a peça poderá ser vista entre 23 de maio e 22 de novembro.
“É sempre curioso perceber o que acontece quando se aumenta a escala da peça e se ela resiste ao teste do utilitarismo que, por vezes, atravessa a arte contemporânea. Mas esta obra tem uma relação de sincronicidade com a vibração sísmica e dá sinais que podemos observar e interpretar. Em lugares onde essa atividade é mais intensa, é possível viver essa experiência física de forma mais evidente. Daí o facto de existirem réplicas em várias partes do globo”, explica Ana Baliza.

Paralelamente, durante os sete meses de exposição em Veneza, a instalação é ampliada pelo programa Survey On An S Wave, concebido por Marco Bene. Uma série de eventos – conversas, concertos, happenings, projeções – propõem uma leitura reverberante da peça. Nas suas visitas performativas, Bene traz também consigo um Arquivo Sísmico Portátil, que introduz temporariamente outras obras e artistas, abrindo e fechando fendas em RedSkyFalls.
Mas a presença portuguesa em Veneza não se esgota no pavilhão oficial. Este ano participam também a pintora Ilda David, integrada no Pavilhão do Vaticano — uma vez mais comissariado pelo cardeal português José Tolentino de Mendonça — e a cantora Carminho, convidada para integrar a oração sonora e o programa do mesmo espaço, ao lado de artistas como Brian Eno e Patti Smith. Embora fora da representação oficial portuguesa, Pedro Cabrita Reis regressa igualmente a Veneza — depois de ter representado Portugal em 2003 — com “XIV STEPS”, um ciclo de 14 dípticos de grandes dimensões inspirado nas estações da Via Sacra.
Entre tomadas de posição e argumentações
Tudo indica que esta será uma bienal atravessada por tensões até ao fim. Sem júri, após a demissão do coletivo de jurados liderado pela brasileira Solange Oliveira Farkas, a 30 de abril, acumulam-se os sinais de fricção institucional e política. Certo é que a polémica em torno da participação da Rússia e de Israel promete continuar a fazer correr tinta.
Já esta quarta-feira, uma manifestação do grupo ativista Pussy Riot forçou o pavilhão russo na Bienal de Veneza a fechar temporariamente as portas. Segundo o The Guardian, o grupo com cerca de 40 elementos, com as cabeças cobertas por balaclavas cor-de-rosa, tentou entrar no pavilhão, mas foi impedido de o fazer pela polícia. Ainda nestes dias, o Irão anunciou a sua retirada desta edição da bienal, numa altura de receios de novo conflito no Médio Oriente.
O presidente da bienal, Pietrangelo Buttafuoco (ex-jornalista, nomeado por Giorgia Meloni, militou na Frente da Juventude do Movimento Social Italiano e na Aliança Nacional) manteve a defesa da presença russa, reiterando a ideia de uma bienal como espaço neutro e livre de censura. Uma posição assumida mesmo depois da União Europeia recordar que as sanções impostas à Rússia tornariam incompatível a existência de um pavilhão nacional do país.

A Rússia regressa assim à bienal pela primeira vez desde a invasão da Ucrânia, em 2022. O seu pavilhão estará acessível apenas durante os quatro dias inaugurais, reservados a imprensa e críticos, passando depois a limitar-se à exibição de vídeos na fachada. A controvérsia adensa-se com a revelação, pela Reuters, de minutas de uma reunião de emergência realizada em abril entre membros do Governo italiano, nas quais um representante da Biennale sustenta que a Rússia não foi formalmente convidada, mas que detém o direito de participar por ser proprietária do seu pavilhão nos Giardini.
Também a África do Sul fica de fora desta edição. Em janeiro, o Governo cancelou a apresentação de Elegy, instalação-vídeo de Gabrielle Goliath inicialmente selecionada por um comité independente. A obra evocava as mulheres dos povos Herero e Nama — vítimas de genocídio durante o período colonial alemão —, bem como mulheres sujeitas a violência sexual na África do Sul contemporânea e a poeta palestiniana Hiba Abu Nada, morta num ataque aéreo israelita.
Apesar de o cancelamento ter sido amplamente associado à referência à Palestina e ao posicionamento pró-Israel do ministro da Cultura sul-africano, o projeto será apresentado em Veneza, na Chiesa di Sant’Antonin, fora do circuito oficial da bienal, graças a uma rede alargada de apoios.
O que acontece com a entrega de prémios este ano?
Face à contestação, à saída do júri e ao debate em torno da eventual exclusão de representações nacionais, a organização esclareceu que “todas as Participações Nacionais incluídas na 61.ª Exposição” permanecem elegíveis para o “Leão dos Visitantes”, distinção que substitui, a título excecional, os habituais Leões de Ouro e de Prata.
“Reconhecemos a complexa relação entre a prática artística e a representação do Estado-nação, um eixo central da Bienal de Veneza, em particular a forma como essa relação vincula o trabalho dos artistas às ações do Estado que representam”, escreveu o júri numa declaração de intenções a 22 de Abril. Já após a demissão, a organização reiterou que, num contexto global marcado por conflitos ativos, “a bienal procura ser — e deve permanecer — um lugar de trégua em nome da arte, da cultura e da liberdade artística”. Entretanto, o artista Anish Kapoor manifestou apoio à decisão do júri, lamentando apenas que os Estados Unidos não tenham sido igualmente incluídos nas críticas.

Esta semana, o presidente da Fundação Bienal de Veneza voltou a rejeitar “posições de exclusão” de participações nacionais na 61.ª exposição internacional, sustentando que aquele organismo italiano “não é um tribunal”, mas “um lugar de encontro e debate”. “Não ignoramos o que se passa no mundo, não somos cegos, mas a Bienal [de Veneza] não é um tribunal, é um local de encontro e de debate”, afirmou Pietrangelo Buttafuoco, referindo-se à polémica desencadeada após a demissão do júri internacional nomeado inicialmente pela curadora-geral Koyo Kouoh, falecida inesperadamente em maio de 2025.
Para já sabe-se apenas que a cerimónia de entrega dos prémios foi adiada de maio para novembro e que serão mesmo os visitantes a poderem votar nos seus artistas favoritos. Mantém-se, contudo, a incerteza sobre se os artistas de Israel e da Rússia voltarão a estar elegíveis. Controvérsias e incertezas à parte, no entender da curadora Ana Baliza, é um alívio não haver prémios neste ambiente, devolvendo-se o poder de escolha aos visitantes. “Acho isso fantástico e neste caso só esperemos que julguem bem”, diz.
Um histórico marcado pela política
No histórico recente não há memória de uma bienal com tamanha carga política e atravessada por tantas polémicas. Ainda assim, esta dimensão nunca foi alheia à sua história. Durante o período fascista, sob o regime de Benito Mussolini, a bienal foi instrumentalizada como ferramenta de propaganda cultural, alinhando-se com a política externa e a construção de uma imagem de poder e modernidade do Estado italiano.
Em 1968, ano dos movimentos estudantis na Europa e noutras geografias, os protestos levaram ao cancelamento dessa edição do Festival de Cinema de Cannes e provocaram forte disrupção na Bienal de Arte de Veneza. Registaram-se manifestações, detenções e ocupação de pavilhões, com obras deliberadamente ocultadas ao público como forma de contestação. Poucos anos depois, em 1974, a bienal não se realizou, num gesto de solidariedade com o povo chileno após o golpe militar de Augusto Pinochet, e perante os relatos de repressão que chegavam à Europa.
Mais recentemente, a dimensão política voltou a impor-se com particular visibilidade. Em 2022, na sequência da invasão da Ucrânia, o pavilhão da Rússia permaneceu encerrado, depois de os artistas e curadores se terem retirado do projeto, numa decisão amplamente interpretada como posição de protesto face ao regime de Vladimir Putin.
Mais de um século depois da sua fundação, a Bienal de Veneza continua a funcionar como um espelho das fraturas do seu tempo. Entre guerras, boicotes, protestos e disputas diplomáticas, a edição deste ano confirma que, mesmo quando insiste em apresentar-se como território neutro, a arte dificilmente consegue escapar à política. Até novembro, os conflitos do mundo também habitarão o Arsenale e os Giardini.