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As redes sociais não nos mudaram. Desregularam-nos

As redes sociais não criaram o julgamento moral, a exposição pública, o ataque reputacional ou o interesse obsessivo pela vida dos outros, mas deram-lhes um novo ambiente.

Paulo Finuras
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O julgamento social sempre existiu. Só que agora tornou-se global, instantâneo e de baixo custo.

Sim, as redes sociais não inventaram o mexerico nem a maledicência. Mantiveram a função. Alteraram a escala. E eliminaram os travões.

Há uma narrativa confortável que parece dominar o debate público sobre as redes sociais, segundo a qual, estas criaram novas formas de comportamento, novas patologias sociais, novas expressões de agressividade e conflito.

Mas essa narrativa está, no essencial, errada.

Porquê? Porque as redes sociais não criaram o julgamento moral, a exposição pública, o ataque reputacional ou o interesse obsessivo pela vida dos outros. Esses mecanismos são muito anteriores à tecnologia digital. Estão inscritos na arquitetura psicológica humana.

Como mostrou Robin Dunbar, aquilo a que chamamos “mexerico” (“gossip”), sempre desempenhou uma função central nas sociedades humanas. Não era um ruído social irrelevante. Era um instrumento funcional de regulação social. Através dele, os indivíduos monitorizavam reputações, transmitiam informação sobre comportamentos desviantes, reforçavam normas e calibravam decisões de cooperação.

Numa espécie profundamente dependente da cooperação, como a humana, saber “quem é quem” não é um luxo nem uma simples curiosidade. É uma necessidade adaptativa. O mexerico era, nesse sentido, uma tecnologia social informal, porque permitia reduzir incerteza, antecipar comportamentos e gerir riscos nas interações.

Só que essa tecnologia operava dentro de uma ecologia muito específica porque, é bom lembrar, durante a maior parte da nossa história evolutiva, as interações eram locais, repetidas e inseridas em redes sociais densas. Nestes ambientes, a reputação construía-se ao longo do tempo e estava ancorada na memória coletiva do grupo. Havia custos claros para quem difamava, exagerava ou mentia. E, sobretudo, havia limites naturais à difusão da informação, porque a audiência era pequena e, assim, esses constrangimentos funcionavam como travões.

O mexerico podia ser imperfeito, enviesado ou até injusto, mas estava, em grande medida, calibrado por um sistema de feedback relativamente estável.

As redes sociais alteraram radicalmente essa ecologia.

Hoje, a comunicação ocorre em ambientes de audiência potencialmente massiva, frequentemente anónimos, com custos reputacionais reduzidos e mecanismos de amplificação algorítmica que privilegiam conteúdos emocionalmente carregados, controversos ou polarizadores.

A reputação deixou de ser apenas um produto de interações repetidas ao longo do tempo para passar a ser também um indicador quantificado, volátil e altamente sensível a picos momentâneos de atenção. O julgamento deixou de ser local e contextualizado para se tornar global e descontextualizado.

O que temos, portanto, não é um novo comportamento.

É um mecanismo muito antigo colocado num ambiente para o qual não foi calibrado.

E é aqui que surge o problema.

Sem os travões tradicionais, o mexerico transforma-se facilmente em maledicência amplificada. A função de regulação social dá lugar a dinâmicas de exposição excessiva, punição desproporcional e competição por visibilidade. O que antes ajudava a estabilizar grupos pode agora contribuir para a sua fragmentação.

Não porque os indivíduos tenham mudado, mas porque os incentivos mudaram.

Num ambiente onde a atenção é um recurso escasso e altamente disputado, a sinalização de indignação moral, a denúncia pública e a participação em ciclos de julgamento coletivo tornam-se estratégias eficazes de obtenção de visibilidade e estatuto.

A psicologia é a mesma. A ecologia é diferente.

E quando a ecologia muda, como sabemos, o comportamento segue.

Este ponto é frequentemente ignorado no debate contemporâneo. Prefere-se uma explicação moralizante, centrada em falhas individuais, a uma análise estrutural das condições que tornam certos comportamentos mais prováveis.

Mas essa abordagem é limitada. O comportamento humano não pode ser compreendido fora do contexto em que ocorre. Mecanismos como o mexerico, a vigilância reputacional ou o julgamento moral não são bons nem maus em si mesmos. São ferramentas. O seu impacto depende do ambiente em que operam.

O desafio das sociedades modernas não é eliminar esses mecanismos, o que seria impossível, mas compreender como são ativados, amplificados e distorcidos por novas condições tecnológicas e sociais.

Ignorar isso é insistir num diagnóstico errado.

E diagnósticos errados produzem soluções erradas.

O mundo mudou.

A natureza humana não.