Ao longo do seu relato, Inês, ajuda-nos a compreender a complexidade deste papel, poucas vezes mencionado e, por isso, ainda muito encoberto pelo silêncio. O seu testemunho traz consigo uma reflexão importante sobre as famílias contemporâneas e as suas dinâmicas. Entre desafios, dúvidas e aprendizagens, destaca-se uma ideia essencial: a importância de dar voz a estas experiências de muitas madrastas com enteados em situação de alienação parental, reconhecendo a sua complexidade e legitimando quem as vive. Num contexto onde muitas histórias permanecem por contar, o relato de Inês, contribui para uma maior consciencialização, lembrando que, por detrás dos rótulos, existem relações, emoções e percursos que merecem ser escutados.
No início do seu testemunho, Inês acentuou a importância de trazer este tema para o espaço público: “acho que é um tema importante para falarmos até para permitir que outras pessoas vejam como é que este tema, se calhar, não precisa de ser escondido. Não precisa ser normalizado e banalizado, quase como se eu não pudesse falar sobre o assunto ou tivesse que aceitar tudo”. Estas suas palavras revelam uma necessidade clara de quebrar o silêncio. Enquanto madrasta, Inês não quer que estas experiências sejam invisíveis, mas também recusa que sejam banalizadas ou aceites como inevitáveis. Há, no seu discurso, uma afirmação de direito à voz, à possibilidade de falar, questionar e não apenas aceitar.
Depois de um já longo percurso como madrasta, Inês refletiu sobre o seu próprio papel: “aqui no papel de madrasta, ou ‘boadrasta, não sei bem… o meu enteado saberá dizê-lo melhor do que eu. Neste momento ele já tem 22 anos e, portanto, esta é uma relação que existe desde que ele era bebé, desde que o conheci, e ao longo do tempo fomos construindo aqui uma família, o que considero também algo muito importante”, assinalando a complexidade da construção de uma relação com o filho do seu companheiro, na condição de madrasta. Inês evidenciou que este é um papel que nem sempre é claramente definido, mas que se constrói na prática, no dia a dia. Mais do que um rótulo, destaca a relação construída ao longo dos anos, marcada por uma continuidade, presença e investimento emocional. A referência à ideia de “construir família” ganha aqui um significado profundo: não é algo dado por adquirido, mas construído, passo a passo.
Outro ponto central do seu testemunho é o do seu olhar atento sobre a criança. Inês, madrasta, chama a atenção para uma realidade muitas vezes esquecida: “do ponto de vista da criança, de repente, ela vê-se na necessidade de integrar duas famílias, de se adaptar a dois contextos diferentes e a pessoas diferentes, e acredito que isso seja um desafio enorme para gerir, mais do que, por vezes, nos centrarmos apenas nos desafios dos adultos e acabarmos por esquecer os desafios que a própria criança está a enfrentar”. Este olhar evidencia uma forte empatia e uma capacidade de sair da perspetiva adulta para compreender o impacto destas mudanças na vida da criança. A necessidade de adaptação constante, a convivência com diferentes contextos e figuras de referência, tudo isto representa um desafio emocional significativo, que nem sempre é devidamente reconhecido.
Inês partilhou-nos: “tenho a sorte de brincar com ele e dizer que é o meu filho emprestado, é assim que o vejo, como um filho meu. Costumo dizer que tenho três filhos e, muitas vezes, há quem nem saiba que sou madrasta, porque para mim são três. Também o conheço desde sempre, acompanhei todo o seu percurso. Ainda assim, sinto que é importante respeitar o espaço e perceber que não sou mãe, compreender qual é o meu papel, o que nem sempre é fácil. No início, foi bastante complicado. Eu não fazia ideia do que era a alienação parental, nem sequer usava esses termos. Fomos aceitando as coisas como eram, tentando lidar com elas da melhor forma. Hoje, felizmente, posso dizer que temos uma relação incrível e que conseguimos ultrapassar muitas dessas dificuldades”. Neste testemunho, Inês revela uma relação profundamente afetiva com o enteado, bem expressa na metáfora “filho emprestado”, que traduz proximidade emocional e sentimento de pertença, sem anular a consciência dos limites do seu papel. Ao afirmar que “tenho três filhos”, demonstra ainda uma integração plena deste vínculo no seu universo familiar, indo além das categorias tradicionais.
Contudo, esta proximidade é acompanhada por uma reflexão consciente sobre as fronteiras da sua relação com o enteado. Inês sublinha a importância de “respeitar o espaço” e reconhecer que “não sou mãe”, evidenciando a complexidade do papel da madrasta, que exige um equilíbrio constante entre envolvimento afetivo e o respeito pelos estatutos parentais. Esta consciência revela a sua maturidade emocional e capacidade de autorregulação relacional.
Com a sua referência às dificuldades iniciais e ao desconhecimento do fenómeno da alienação parental, Inês mostrou-nos que percorreu um percurso de aprendizagem, traduzido por um processo de adaptação progressiva, onde a experiência e a reflexão permitiram uma melhor compreensão das dinâmicas vividas.
Ao afirmar que a sua relação com o enteado é, hoje, “uma relação incrível”, Inês assinalou uma evolução positiva, marcada pela superação de desafios e pela construção de um vínculo sólido. O seu testemunho destaca, assim, a possibilidade de desenvolvimento de relações significativas e estáveis mesmo em contextos familiares complexos, reforçando a importância do tempo, do cuidado e da consciência na construção desses laços.
Inês assinalou ainda que o seu testemunho “é uma história que vos vou contar e que tem um final feliz. Também precisamos destas histórias, para que as pessoas não percam a coragem de continuar este percurso, que muitas vezes é uma verdadeira luta”, introduzindo no seu relato com uma nota de esperança e sublinhando a importância de partilhar histórias com desfechos positivos. Referir que “tem um final feliz”, posiciona o seu percurso não apenas como uma experiência pessoal, mas também como um exemplo que pode inspirar outros que enfrentam situações semelhantes. A ideia de que “precisamos destas histórias” revela uma consciência sobre o impacto coletivo do seu testemunho. Enquanto madrasta de um filho em situação de alienação parental, reconhece, hoje, que, em contextos marcados por dificuldades inerentes a esse processo, os relatos positivos podem funcionar como uma fonte de encorajamento e resistência emocional, evidenciando, com a referência a “uma verdadeira luta”, a exigência e a intensidade emocional deste tipo de vivências. No entanto, ao associar essa luta a um desfecho feliz, transmite uma mensagem de resiliência e a possibilidade de superação.
Inês, enquanto madrasta de um filho alienado, combina o realismo com a esperança, contribuindo para uma narrativa que valida as dificuldades, mas que também reforça a importância de persistir e acreditar na construção de relações positivas ao longo do tempo. O seu testemunho traz, assim, uma reflexão importante sobre as famílias contemporâneas e as suas dinâmicas. Entre desafios, dúvidas e aprendizagens, destaca-se uma ideia essencial: a importância de dar voz a estas experiências de muitas madrastas com enteados em situação de alienação parental, reconhecendo a sua complexidade e legitimando quem as vive. Num contexto onde muitas histórias permanecem por contar, o relato de Inês contribui para uma maior consciencialização, lembrando que, por detrás dos rótulos, existem relações, emoções e percursos que merecem ser escutados.