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Sucesso de Portugal nas energias renováveis ainda não chegou aos transportes e aos edifícios

Portugal foi rápido na transição do setor elétrico. Transportes e edifícios estão atrasados. Agência Internacional de Energia propõe apoios à compra de elétricos usados e foco em famílias vulneráveis.

Ana Suspiro
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Portugal é apontado como exemplo internacional na forma como descarbonizou a produção de eletricidade. A Agência Internacional de Energia (AIE) valida essa visão, sublinhando que a “intensidade carbónica da produção de eletricidade em Portugal é das mais baixas entre os países membros”.

Mas o relatório que faz a revisão da política energética nacional identifica atrasos na descarbonização dos setores de uso final de energia.  Aponta para um parque edificado ineficiente e para apoios públicos que não estão a chegar a quem mais precisa. Nos transportes alerta para um parque automóvel velho e para a falta de apoios para incentivar o uso de carros elétricos por famílias de menores rendimentos.

Na avaliação independente divulgada esta sexta-feira, a AIE refere que depois do alcançar “nítidos progressos” na eletricidade, o país deve focar-se na eletrificação dos transportes, edifícios e indústrias. Estes três setores foram responsáveis por 82% das emissões de gases com efeito de estufa em 2024 .”A descarbonização da produção de eletricidade e valor foi rápida, ao passo que os setores de uso final ainda registam atrasos (2015-2024).”

Nos edifícios, a AIE identifica “progressos” na eletrificação e na instalação de mais bombas de calor, mas avisa que o “parque edificado continua ineficiente e apresenta baixas taxas de renovação”. É referida a existência de “obstáculos financeiros e administrativos na renovação” das casas e de programas de apoio público que “nem sempre chegam às famílias vulneráveis ou permitem renovações profundas”.

Não deixa de ser um reparo a programas como o E-Lar, lançado já por este executivo, ou o seu antecessor cujos apoios se destinaram a toda a gente, mas com um alcance limitado à substituição/instalação de alguns equipamentos — janelas térmicas ou troca de eletrodomésticos a gás por elétricos. Para a AIE, muitos programas de apoio não estão a chegar às pessoas mais carenciadas, apesar do país ter uma estratégia para combater a pobreza energética. O relatório dá especial atenção às famílias com rendimentos mais baixos porque estão mais vulneráveis aos custos da energia e podem levantar maior oposição à transição energética.

Carros usados importados dominam vendas em Portugal

Também no que toca à frota automóvel há sinais em sentido contrário. Por um lado, a agência vê progressos no crescimento nas vendas de carros elétricos, que em 2025 representaram 38% das vendas de novos veículos. Por outro lado, aponta para a baixa quota que os elétricos ainda têm — 6% — num parque automóvel que descreve como “envelhecido e ineficiente”. Para esta situação, contribui o facto de 80% dos automóveis ligeiros vendidos em Portugal serem usados e importados (e movidos a gasolina ou gasóleo). Este número é nove vezes mais alto do que a média registada entre os países membros da AIE.

A resposta passa por dar apoios”estratégicos” à compra de elétricos usados “que reflitam melhor o poder de compra limitado dos portugueses” e por reforçar as redes de carregamento nas zonas urbanas, uma medida também a dirigida a famílias de rendimentos mais baixos que não têm recursos para instalar carregadores em casa.

Os transportes são responsáveis por mais de metade das emissões de carbono e a forma mais eficaz de reduzir esta pegada é pela transferência modal, ou seja, mudar as pessoas dos automóveis para o transporte público. O relatório destaca como positiva a redução das tarifas do transporte público, mas defende que estes também têm de ser fiáveis. E apela a um planeamento que garanta o acesso equitativo a opções de mobilidade que incluam a futura rede de alta velocidade.

Na indústria, a Agência Internacional de Energia, conclui que as emissões estão no mesmo nível há uma década, não obstante o país ter metas climáticas mais ambiciosas. Reconhece que o setor enfrenta duas transições ao mesmo tempo — reduzir as emissões e manter-se competitivo com empresas que usam combustíveis fósseis. E vê ainda grandes assimetrias entre as empresas de grande dimensão e as PME (pequenas e médias empresas). O documento defende uma estratégia clara de descarbonização industrial e propõe o maior aproveitamento da eletricidade verde produzida pelo país.

https://observador.pt/2026/05/08/consumo-de-gas-em-portugal-caiu-para-niveis-so-esperados-em-2035-e-isso-cria-um-problema-nos-precos-e-no-terminal-de-sines/

A Agência Internacional de Energia conclui que Portugal está a entrar numa fase da transição energética na qual terá de gerir dois sistemas de energia que estão interligados e “a evoluir em direções opostas”. Ao lado dos resultados obtidos nas energias renováveis e na eletrificação dos consumos, persiste “um sistema antigo baseado em combustíveis fósseis que deve ser abandonado de forma ordenada a fim de evitar ativos irrecuperáveis e choques nos preços”. Um desses sistemas é o do gás natural para o qual AIE recomenda várias mudanças a nível de remuneração e gestão para acautelar a viabilidade do mercado e o funcionamento das infraestruturas durante o período de declínio do consumo.