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O Ouro do Abismo: quando a vontade de Albuquerque naufragou na matéria

A nau não naufragou por acaso, naufragou porque a "ideia" de império se tornou pesada demais para a "máquina" que a sustentava.

Nuno Nabais Freire
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A 20 de novembro de 1511, algures na costa de Samatra, o mar não engoliu apenas uma nau de 400 toneladas. Engoliu o maior tesouro alguma vez reunido pela expansão europeia. A Flor de la Mar, a nau preferida de Afonso de Albuquerque, partiu-se em duas sob o peso do saque de Malaca. Com ela, afundou-se a liquidez de um império.

O “Fundo Soberano” no Fundo do Mar

Para compreendermos a magnitude da perda, temos de abandonar a ideia romântica do “tesouro pirata” e olhar para a Flor de la Mar como um Fundo Soberano de Emergência.

Estudos sugerem que a nau transportava cerca de 60 toneladas de ouro, além de joias maciças e tributos de reinos asiáticos. Em termos comparativos, não estávamos perante o lucro de um ano, mas perante a capitalização de uma era. Se hoje tentássemos converter esse valor, estaríamos a falar de algo na ordem dos 3 mil milhões de euros em ouro puro, sem contar com o valor incalculável das peças de arte e pedras preciosas.
Economicamente, o naufrágio em Samatra foi o primeiro grande ‘cisne negro’ de Portugal. Contudo, com uma ironia cruel: ao contrário dos cisnes negros de Nassim Taleb, eventos imprevisíveis, este era um desastre anunciado. O estado deplorável do casco da nau, já condenado em Moçambique, tornava a perda não um azar estatístico, mas uma falha gritante de gestão de risco. A perda desta massa monetária impediu a consolidação financeira do Estado, obrigando a Coroa a recorrer a empréstimos em Antuérpia que, décadas mais tarde, alimentariam a nossa dependência externa. A Flor de la Mar era o capital que nos daria a autonomia que nunca chegámos a ter plenamente.

A Máquina que Falhou ao Método

Aplicando o rigor de René Descartes a este evento, encontramos uma falha crítica na Relação entre a Razão e a Matéria.

Descartes via o corpo (ou a máquina) como res extensa. A Flor de la Mar era uma máquina de guerra e transporte soberba, mas já obsoleta em 1511. O “Método” de Albuquerque, a res cogitans ou o pensamento estratégico, exigia que aquela máquina fizesse o impossível: transportar o peso de um reino conquistado num casco já podre e remendado em Moçambique.

Houve um erro de cálculo racional. Albuquerque, movido pela vontade (a parte infinita da alma, segundo Descartes), ignorou os limites da matéria física. A nau não naufragou por acaso, naufragou porque a “ideia” de império se tornou pesada demais para a “máquina” que a sustentava. É o exemplo perfeito do colapso do sistema quando a ambição intelectual perde o contacto com a realidade material.

O Império do Irreal

A Flor de la Mar define o que é ser português: vivemos assombrados pelo que está lá, mas não se vê.

Enquanto outras nações constroem a sua identidade sobre monumentos de pedra que resistem ao tempo, Portugal construiu a sua sobre tesouros que jazem no abismo. A carga de Samatra tornou-se uma entidade metafísica. Ela alimenta o nosso Sebastianismo: a ideia de que somos imensamente ricos, mas que essa riqueza está “temporariamente” inacessível, guardada pelo mar ou pelo nevoeiro.

A tese do “aprisionamento” ou do saque por nativos de Samatra apenas reforça esta angústia. Se o ouro foi saqueado na altura, a nossa perda deixa de ser um acidente da natureza para ser uma derrota política. Se o ouro ainda lá está, sob a lama de Timia Point, a nossa esperança mantém-se viva, mas estéril.

A Lição das Águas de Samatra

A Flor de la Mar é o lembrete de que Portugal dominou as rotas e ligou os continentes, mas foi constantemente traído pela sua própria audácia. Fomos os arquitetos de uma globalização que não conseguimos segurar nas mãos.

Hoje, a réplica da nau em Malaca é um museu para os outros, o original em Samatra é um túmulo para nós. Talvez a maior riqueza que possamos recuperar deste naufrágio não seja o ouro de Albuquerque, mas a consciência cartesiana de que nenhum império sobrevive se a sua vontade ignorar a fragilidade dos seus ativos. Portugal ‘só voltará a ser grande’ quando parar de procurar o tesouro no fundo do mar e começar a reconstruir a ‘máquina’ a nossa eficácia institucional e real capacidade de execução, que o permita, finalmente, chegar a porto seguro.