Foi um dos maiores escândalos a que o futebol internacional assistiu nos últimos anos. Nos Jogos Olímpicos, uma prova em que o fairplay, o respeito pelo adversário e o companheirismo costumam estar acima de tudo o resto, uma equipa espiou outra com recurso a um drone. No início, parecia uma notícia exagerada –– no fim, tornou-se um dado adquirido.
Passaram quase dois anos desde que Bev Priestman esteve no olho do furacão. Na altura, enquanto era a selecionadora da seleção feminina do Canadá que estava nos Jogos Olímpicos de Paris a defender a medalha de ouro conquistada em Tóquio, dois elementos da equipa técnica canadiana foram afastados depois de apanhados a pilotar um drone por cima do treino à porta fechada da Nova Zelândia — que o Canadá ia defrontar daí a poucos dias.
Dois dias depois, a própria Bev Priestman foi suspensa pela Federação Canadiana de Futebol. Três dias depois, a FIFA anunciou que tinha decidido suspender Bev Priestman por um ano devido a “comportamento ofensivo e violação dos princípios do ‘fairplay'”. Meses depois, a Federação Canadiana de Futebol revelou que a investigação que tinha conduzido concluiu que Bev Priestman, assim como a adjunta Jasmine Mander, pediram ao analista Joseph Lombardi para pilotar o drone por cima do treino da Nova Zelândia, rescindindo definitivamente o contrato dos três.
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Bev Priestman, naturalmente, cumpriu a pena. Esteve um ano inteiro afastada do futebol, dos relvados e dos balneários, até que em julho de 2025 assinou com o Wellington Phoenix — ironicamente, uma equipa da Nova Zelândia. O clube é o único profissional no país, o que significa que compete no principal escalão da Austrália, estando atualmente a disputar a final four de apuramento do campeão nacional depois de ter ficado no segundo lugar da fase regular, apenas atrás do Melbourne City.
“Tudo o que aconteceu em Paris, tudo o que aconteceu por detrás de Paris, todas as histórias que apareceram na comunicação social e que toda a gente sabe… Nem tudo é exatamente correto. Fiquei muito isolada muito, muito depressa, e num cargo que é sobre ser parte de uma equipa. E esse isolamento bateu-me com muita, muita força, assim como tudo o que estava a acontecer no domínio público. A maior alegria que tive neste ano foi regressar ao relvado, trabalhar com pessoas que querem ser melhores. Adorei isso”, contou a treinadora inglesa em entrevista ao jornal The Guardian.
Aos 40 anos, Bev Priestman está pela primeira vez a trabalhar num clube — pelo menos de forma efetiva, já que estagiou no Everton ainda no início da carreira. Natural de Consett, perto de Newcastle, chegou ao Canadá em 2013 e para orientar as Sub-17, subindo depois às Sub-20 antes de aceitar o convite para ser assistente técnica do selecionador John Herdman na equipa principal. Regressou a Inglaterra em 2018 e para treinar as Sub-17, mas depressa integrou a equipa técnica de Phil Neville na seleção A e como adjunta, participando no Campeonato do Mundo de 2019 em que as inglesas caíram nas meias-finais e contra os EUA, que acabaram por ser campeões mundiais ao vencer os Países Baixos na final.
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Assumiu o Canadá em 2020, conquistou a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Tóquio em 2021 e chegou à final do CONCACAF W Championship em 2022, perdendo para os EUA. Em 2024, em Paris e com espionagem à mistura, a aventura chegou ao fim. No Wellington Phoenix, porém, Bev Priestman reencontrou um local onde pode voltar a sentir-se feliz.
“Nos últimos três meses, sempre que vou à cidade parece que as pessoas sabem quem eu sou, conhecem a equipa, sabem o resultado do fim de semana. E isso é muito diferente do que acontecia quando cheguei a Wellington. Tornou-se mesmo uma comunidade de futebol feminino, existe esse ‘buzz’ na cidade. Mas acho que também tem a ver com o facto de sermos a única equipa da Nova Zelândia a competir na Austrália, é maior do que Wellington, e temos muitas internacionais”, explicou.
Ainda assim, a treinadora inglesa não esconde que “não se sentia segura” quando chegou à cidade, muito devido ao escândalo de espionagem precisamente contra a seleção da Nova Zelândia, e que nem o facto de ser casada com uma neozelandesa facilitou a integração. Atualmente, porém, tudo parece sanado. “É bom. Sentir que não falam sobre mim, pelo menos sobre o lado mais controverso, e voltar a fazer o que amo e aquilo em que sei que sou boa. É muito bom”, terminou.