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O Clima muda, e nós mudamos com ele?

A questão crítica deixa de ser apenas climática e passa a ser sistémica: qual é a capacidade de adaptação das nossas infraestruturas, territórios e modelos económicos a um novo regime de risco.

Ana Lagoa
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Os episódios recentes de tempestades intensas em Portugal não são eventos isolados, nem meras anomalias meteorológicas. São manifestações locais de alterações estruturais no sistema climático global, cuja evidência científica é hoje robusta e amplamente consensual.

Uma das alterações mais relevantes diz respeito à posição do anticiclone dos Açores, um sistema de alta pressão que historicamente funciona como uma espécie de “escudo” natural para a Península Ibérica, influenciando a estabilidade atmosférica e desviando depressões e frentes atlânticas. No entanto, tem-se observado que este anticiclone tem vindo a deslocar-se para sul com maior frequência e intensidade.

Esta mudança não é neutra. Quando o anticiclone se posiciona mais a sul, perde-se esse efeito de bloqueio, permitindo que tempestades vindas do Atlântico atinjam diretamente o território português com maior intensidade e frequência.

Este fenómeno está diretamente relacionado com alterações na circulação atmosférica de larga escala, incluindo variações no Jet Stream e no gradiente térmico entre o Ártico e as latitudes médias. O aquecimento mais acelerado do Ártico — conhecido como Arctic amplification — está a reduzir esse gradiente, contribuindo para um comportamento mais ondulatório e menos previsível das correntes de jato, o que favorece a ocorrência de eventos extremos persistentes.

Adicionalmente, o aumento da temperatura média global implica uma maior capacidade da atmosfera para reter vapor de água, o que intensifica os episódios de precipitação extrema.

O resultado é um sistema climático caracterizado por maior variabilidade, maior frequência de eventos extremos e maior incerteza. Em Portugal, isto traduz-se numa alternância mais acentuada entre períodos de seca prolongada e episódios de precipitação intensa, muitas vezes concentrados em curtos intervalos temporais, aumentando significativamente o risco de cheias rápidas e deslizamentos.

Perante este enquadramento, a questão crítica deixa de ser apenas climática e passa a ser sistémica: qual é a capacidade de adaptação das nossas infraestruturas, territórios e modelos económicos a este novo regime de risco?

A resposta, neste momento, revela fragilidades estruturais a vários níveis.

A ocupação do território em zonas de risco, a elevada impermeabilização dos solos urbanos, a degradação de sistemas naturais de drenagem e a incapacidade de infraestruturas críticas — como redes pluviais — amplificam os impactos destes eventos. Em muitos casos, o dano económico e social resulta tanto da exposição e vulnerabilidade como da intensidade do fenómeno climático.

É neste contexto que a adaptação climática deixa de ser uma opção e passa a ser uma necessidade estratégica. Ao contrário da mitigação, que atua sobre as causas das alterações climáticas, a adaptação incide sobre a gestão dos seus impactos, exigindo uma abordagem integrada entre ciência, planeamento territorial, engenharia e política pública.

No entanto, a adaptação enfrenta um desafio central: o financiamento.

Historicamente, o financiamento climático tem sido predominantemente orientado para a mitigação — energias renováveis, eficiência energética, descarbonização industrial. Embora estes investimentos continuem a ser essenciais, existe hoje um crescente reconhecimento da necessidade de canalizar capital para projetos de adaptação.

Neste domínio, instrumentos de financiamento verde — como green bonds, sustainability-linked loans e fundos europeus dedicados (e.g., Mecanismo de Recuperação e Resiliência, Fundo de Coesão) — desempenham um papel crítico. No entanto, a mobilização destes recursos continua a enfrentar obstáculos, nomeadamente: a dificuldade em quantificar retornos financeiros diretos de projetos de adaptação; desafios na mensuração de risco evitado; e ausência de métricas padronizadas para avaliação de impacto.

Paradoxalmente, é precisamente na adaptação que o custo da inação é mais evidente. Cada evento extremo traduz-se em perdas económicas diretas — danos em infraestruturas, interrupções de atividade, custos de resposta — e indiretas, como perda de produtividade, desvalorização de ativos e aumento de prémios de risco.

Neste sentido, integrar o risco climático nas decisões financeiras deixa de ser uma questão de sustentabilidade para se tornar uma questão de gestão prudencial de risco.

A transição que enfrentamos não é apenas energética. É também uma transição para um modelo económico capaz de operar num contexto de maior instabilidade climática.

E isso exige uma reconfiguração profunda da forma como planeamos, investimos e decidimos.

É precisamente neste ponto de interseção entre ciência climática, risco e financiamento que iniciativas como a Lisbon Sustainability Week 2026 ganham relevância. Num contexto em que a adaptação climática exige respostas coordenadas entre setor público, sistema financeiro e regulatório, empresas e academia, torna-se essencial criar espaços de diálogo estruturado e orientado à ação.

Mais do que discutir cenários, trata-se de acelerar soluções.

Porque a evidência científica é clara: o clima já mudou.

A única questão em aberto é se conseguimos ajustar os nossos sistemas — económicos, financeiros e territoriais — à mesma velocidade.