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Os Deuses devem estar loucos: popular hoje, insustentável amanhã

Num país em que as pensões representam uma das maiores parcelas da despesa pública, decisões desta natureza exigem mais do que boa intenção

Miguel Teixeira Coelho
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A discussão sobre a redução da idade da reforma regressou ao centro do debate público com uma força rara, alimentada pela perceção de desgaste do mercado de trabalho, pela evolução da esperança de vida saudável e por eventuais preocupações sociais.

Contudo, a intensidade do debate contrasta com a fragilidade do seu enquadramento técnico: discute‑se muito, mede‑se pouco.

Num país em que as pensões representam uma das maiores parcelas da despesa pública e em que a demografia exerce uma pressão crescente sobre a sustentabilidade da Segurança Social, decisões desta natureza exigem mais do que boa intenção ou consenso popular momentâneo. Exigem números, pressupostos claros e estudos de impacto económico e orçamental que permitam perceber quem paga, quando e por quanto tempo.

Não pretendo discutir neste artigo a dignidade do trabalho nem ignoro a dureza de muitas carreiras contributivas longas.

Na realidade, o que se discute é o risco de confundir popularidade com sustentabilidade e de tratar como moeda de negociação política aquilo que deveria ser uma âncora de previsibilidade intergeracional.

Reduzir a idade da reforma pode ser popular hoje mas ignorar os seus custos pode torná‑la insustentável amanhã.

Decidir no escuro?

Em julho de 2025 o atual governo apresentou uma proposta de reforma “profunda” da legislação laboral, designada Trabalho XXI – Flexibilizar para valorizar e crescer, a qual se encontra em fase final de negociação.

Pelo que julgo saber, e apesar da discussão durar há quase um ano, ainda não existe um estudo publicado de impacto económico, quantitativo e independente sobre este pacote laboral.

Neste contexto, o debate assenta sobretudo em argumentos qualitativos, análises jurídicas e evidência internacional genérica, o que ajuda a explicar a forte polarização política e social em torno da proposta.

E isto não deveria acontecer.

Na realidade, quando um projeto de lei (e já não um anteprojeto) entra em concertação social, ele deixa de ser um simples documento de orientação política e passa a ser uma base concreta de negociação e decisão.

E nesse momento, três coisas mudam. Em primeiro lugar, as opções deixam de ser meramente exploratórias. Em segundo lugar, os custos e benefícios deixam de ser abstratos. Por fim, os parceiros sociais são chamados a negociar as “consequências reais” para trabalhadores e empregadores.

Discutir um projeto de lei sem qualquer estudo económico de impacto coloca os parceiros sociais numa posição frágil na medida em que os sindicatos não sabem o impacto no emprego e na segmentação laboral, os empregadores não sabem o efeito nos custos e no investimento e o Estado não sabe o efeito na base contributiva, produtividade ou crescimento.

E tudo isto empobrece a concertação e transforma-a, em parte, num exercício retórico em que o debate faz‑se por slogans (“flexibiliza”, “protege”, “valoriza”), os argumentos tornam‑se incomensuráveis e cada parte projeta os seus receios ou esperanças no texto.

Mas não só. Esta abordagem viola um princípio básico de boa governação, consagrado em múltiplas boas práticas internacionais: Quanto mais perto se está da decisão, maior tem de ser o grau de evidência.

Então por que razão isto aconteceu?

Terá sido a pressão política de calendário? O receio de que os resultados não confirmem a narrativa? Ou a ideia errada de que a concertação “substitui” a análise económica?

Nenhum destes argumentos é particularmente bom e nenhum deles resiste a escrutínio sério.

Quid pro quo!

Após ser discutida em sede de Concertação Social, o denominado pacote laboral deverá ser sujeito ao escrutínio do parlamento.

E antecipando esse debate, os partidos posicionaram-se em três campos distintos.

Os que vão votar a favor. Os que vão votar contra. E os que disseram quid pro quo! (em tradução livre “toma lá dá cá”).

E a troca é simples: uma reforma laboral apelidada de “má” a troco de uma redução na idade de reforma apelidada de “remédio”.

Contudo, dizer que se discorda da reforma laboral mas aceitá‑la em troca de baixar a idade da reforma é confundir dois problemas distintos e transformar uma decisão estrutural numa simples moeda de troca política.

Na realidade, enquanto a reforma laboral trata de regras de contratação, despedimento e tempos de trabalho, a idade da reforma está ligada à demografia, esperança de vida e sustentabilidade da Segurança Social.

Este tipo de abordagem parece revelar um claro desnorte político: problemas estruturais, de natureza distinta, são misturados numa lógica de curto prazo em que tudo se torna negociável. Na realidade, se hoje se troca reforma laboral por idade da reforma, amanhã trocam‑se pensões por salários mínimos e depois impostos por prestações.

A reforma laboral passa a ser tratada como moeda de troca e a idade da reforma como instrumento de compensação eleitoral, numa contabilidade simplista do “deve e do haver”.

Quando decisões que exigem visão de longo prazo são subordinadas a cálculos imediatos de conveniência política, os meios multiplicam‑se para maximizar ganhos eleitorais, mesmo que isso comprometa a coerência das políticas públicas e a sustentabilidade das escolhas feitas.

Um ano a menos, milhões a mais.

Propor a redução da idade da reforma ignora fatores essenciais como a evolução demográfica, o aumento da esperança média de vida e a sustentabilidade financeira da Segurança Social.

Na realidade, reduzir a idade da reforma surge ao arrepio das tendências demográficas conhecidas e das projeções oficiais, que apontam para um agravamento muito significativo do rácio de dependência em Portugal (próximo de 63% em 2050, segundo estimativas da Comissão Europeia).

Num país em que o número de pensionistas cresce muito mais depressa do que a população ativa, em que a esperança média de vida aos 65 anos é de 20 anos (15 anos em 1980), dos quais cerca de 9 anos com saúde (5 anos em 2004), e em que se considerarmos o perímetro consolidado da Segurança Social e da Caixa Geral de Aposentações, o sistema apresenta um défice crónico, baixar a idade da reforma pode ser popular, mas sem medir impactos nas contas públicas e nas gerações futuras, transforma‑se num gesto politicamente fácil e economicamente irresponsável.

Um exemplo simples ajuda a perceber o impacto orçamental de uma eventual redução em 1 ano na idade da reforma.

Em Portugal são atribuídas, em média, cerca de 100 mil novas pensões de velhice por ano. Admitindo que cada novo reformado deixa de contribuir com um salário médio de 1.000 euros por mês (valor conservador face a uma remuneração média mensal de 1.600 euros dos trabalhadores no ativo), pagos em 14 meses, e considerando a taxa contributiva global de 34,75%, a Segurança Social perde cerca de 486,5 milhões de euros anuais em quotizações e contribuições.

Em sentido inverso, a atribuição dessas 100 mil pensões implica uma despesa adicional próxima de 840 milhões de euros por ano, assumindo uma pensão média de 600 euros mensais (valor conservador face a uma pensão média mensal de 645 euros da segurança social), também paga 14 vezes.

No total, o impacto líquido (mais despesa e menos receita) traduz‑se num agravamento no saldo do Sistema de Segurança Social de cerca de 1.326 milhões de euros por ano. Num país com um PIB em torno dos 300 mil milhões de euros, este valor corresponde a cerca de 0,45% do PIB.

Ou seja, uma decisão que à primeira vista pode parecer apenas social ou política tem, na prática, um peso macroeconómico muito significativo, levantando questões de sustentabilidade financeira que não podem ser ignoradas no debate público.

Corolário

Há propostas políticas que parecem cair do céu: simples, populares, quase indiscutíveis.

Soam a resposta imediata para problemas reais e dispensam o incómodo das contas difíceis.

Fazem me lembrar o filme “Os Deuses Devem Estar Loucos”: uma garrafa de Coca-Cola surge no meio do nada e, por um momento, parece uma dádiva.

Só mais tarde se percebe que aquilo que parecia um presente gera conflito, desorganização e desigualdade.

Reduzir a idade da reforma encaixa facilmente nessa lógica.

À primeira vista, é irresistível: quem não quer trabalhar menos anos e reformar-se mais cedo?

Mas é aqui que começa a política séria, precisamente na pergunta que raramente é respondida: quem paga a conta, quando e por quanto tempo?

Reformar mais cedo significa contribuir menos anos, receber durante mais tempo e transferir encargos para gerações futuras que não participaram na decisão.

Sistemas de pensões não vivem de boas intenções nem de maiorias momentâneas: vivem de demografia, produtividade, crescimento económico e equilíbrio atuarial.

Tal como no filme, o problema não está na intenção, mas sim na recusa, consciente ou não, de olhar para as consequências intertemporais das escolhas de hoje.

Quando a política ignora esta dimensão, não cria justiça social, apenas adia o problema, com juros.

Na realidade, nem tudo o que parece uma dádiva é sustentável.

P.S. Em nome da equidade, talvez fizesse sentido que qualquer redução da idade da reforma fosse compulsivamente aplicável aos decisores políticos que a aprovam. O país, muito provavelmente, agradecia.