O homem a quem Deus confiou “a difícil mas honrosa missão de transformar Portugal”, deve ter, afinal, entendido mal o teor do encargo divino que lhe foi entregue.
O que se tem visto desde o início é um chorrilho de ideias, propostas e decisões parlamentares sempre em plano inclinado e no sentido oposto a qualquer ideia que possa aproximar-se de “transformar Portugal”. Pelo menos no sentido em que essa pretensão possa ser entendida quando se fala de uma pequena economia aberta, europeia e com ambição de proporcionar um melhor nível de vida aos seus cidadãos em pleno século XXI.
André Ventura vocifera contra o socialismo e vamos descobrindo porquê. Porque acha que temos Estado a mais e iniciativa privada a menos? Nada disso, antes pelo contrário. O camarada Andrei Venturov quer ultrapassar o socialismo pela esquerda. Quer o Estado dono e senhor de tudo, quer uma economia dirigida e dirigista, gerida por decreto, que promete tudo a todos na sua ilusão populista. De onde virão os recursos e o crescimento económico para pagar todos os delírios? É provável que Deus lhe tenha dado a receita no momento em que o designou para tão nobre função porque estamos no reino dos milagres.
Na verdade, o camarada Andrei Venturov é comunista. E dos antigos, daqueles que já não se fazem, da velha escola soviética.
Perante uma proposta de reforma das leis laborais que até pode ser considerada modesta e pouco ambiciosa na mudança que pretende introduzir, o camarada Venturov não hesita. Sobre a proposta em si, nada mais tem a dizer que a CGTP não tenha já dito. E coloca um preço em cima da mesa para ter que engolir o sapo: ou baixam a idade da reforma ou o Chega está fora.
Esta é uma proposta em que o camarada está acompanhado pelo PCP e o Bloco de Esquerda, os partidos que ainda vão acompanhando esta sua vontade, embora sem grande entusiasmo.
O PS não só não o defende como, há 20 anos, introduziu o factor de sustentabilidade que está a fazer, e bem, aumentar gradualmente a idade da reforma.
Quanto é que isto iria custar? Não façam essas perguntas ao camarada Andrei Venturov, porque os enviados divinos não sujam as mãos com esses detalhes sobre dinheiro.
As pensões são, aliás, um tema de particular empenho na visão económica e social do camarada. Ficou célebre a sua proposta de aumentar as pensões mais baixas para o nível do salário mínimo. Perante a óbvia incapacidade de financiar tal medida, apressou-se a esclarecer que isso podia ser pago com recurso a fundos europeus. Um esquema em que está bem acompanhado: Pedro Sanchez, aqui ao lado, está com um problema porque foi apanhado a fazer isso mesmo.
E as portagens? Na visão do líder Venturov é o Estado que tem que as suportar na íntegra. Todas. Para todos. Esse conceito de “utilizador-pagador” é um desvio capitalista e urge acabar com a pouca vergonha.
Já sobre a TAP, é contra a privatização da maioria do capital da empresa, defendendo que o Estado deve manter uma posição na administração da empresa que, como sabemos, tem dado muitas alegrias aos contribuintes. Até António Costa estava disposto a entregar a totalidade do capital da empresa.
O camarada também tem soluções para o mercado de trabalho. Os imigrantes seriam expulsos, já sabemos, e os empregos que neste momento ocupam seriam destinados a emigrantes portugueses regressados. Como atraí-los? Basta aumentar os salários, “pagar bem”. Uma solução que já não é nova. Paulo Raimundo, líder do PCP, já o disse muitas vezes: “para aumentar salários só é preciso uma coisa: aumentá-los”.
As receitas coletivistas do líder do Chega vão-se multiplicando: controlos administrativos de preços, regulação de margens de comercialização, impostos e taxas sobre lucros e outras receitas que tão bom resultado têm dado quando são postas em prática.
Não tardará até ouvirmos o camarada Andrei Venturov garantir um automóvel a cada português. Será um Trabant para entrega daqui a 15 anos e então tudo fará sentido.