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(A) :: A Guerra

A Guerra

O racional da guerra é que o Irão teocrático tem uma assumida missão na terra que é liquidar o Pequeno Satã, primeiro, e o Grande Satã, depois, e portanto a guerra foi declarada há muito pelo Irão.

José Meireles Graça
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Quem viu a eleição de Trump com simpatia foi-se habituando a rezar a todos os santos para que uma fralda facial acolhesse providencialmente a permanente incontinência verbal do homem, que não o faz ganhar nada, e aos seus apoiantes perder muito.

Todos os dias, às vezes várias vezes no mesmo dia, tomamos conhecimento das suas últimas expectorações, incluindo na rede social que lhe pertence, tais e tantas que só não se aventa a hipótese de ter ao seu serviço um esquadrão de escritores-fantasma porque, se existissem, decerto lhe escreveriam melhor os posts e os discursos que infelizmente improvisa.

Isto é bar aberto para quem (e o “quem” são muitos nos EUA, inúmeros na Europa e quase todos entre nós) queria um líder inspirador de sociedades inclusivas como Obama ou de meias tintas internacionalistas como Biden. E daqui que se queira usar o ridículo do homem para com ele cobrir também às suas políticas.

Erro fatal. Porque os “deploráveis” que elegeram Trump fizeram-no não apenas por acreditarem na sua retórica do “América primeiro” e do “fazer a América grande de novo”, ou por apreciarem as bravatas e grosserias com que se distingue, mas também por desconfiança do elitismo internacionalista supostamente iluminado que faz dos EUA, externamente, o garante da manutenção de uma ordem que não é a que mais lhes convém e, na interna, o progressivo (“progressista” na língua de pau dos engenheiros sociais) deslizar para uma sociedade multicultural que deve cada vez menos à matriz que os pais fundadores pensaram e ao quadro cultural cristão, e cada vez mais a culturas alienígenas importadas às costas de vagas sucessivas de imigrantes, sem esquecer as universidades onde hoje se acolhe não a divergência sadia de opiniões mas o unanimismo radical.

Daí as promessas de um travão à imigração; de reindustrialização; de reduções de impostos; do fim das quotas por sexos e por etnias na administração pública, nas empresas e no ensino; de entraves à produção industrial e à extracção de minérios e hidrocarbonetos; de dinamitação do Estado intrusivo, presente sob a forma de agências governamentais em todas as esquinas da vida de forma cada vez mais minuciosa; de regulamentações e limitações de todo o tipo para combater as alterações climáticas e outros moinhos de vento; de trazer para casa vários poderes delegados a agências internacionais, com frequência hostis aos EUA porque a maioria dos países o é; e de forma geral tratar o wokismo, o bem-pensismo e o progressismo com doses salutares de repressão, negação e indiferença – consoante.

Isto e muito mais, no meio de grande atabalhoamento, com avanços e recuos e uma estridência que seria dispensável.

Sobretudo, e essa parte dói a nós, Europeus, dizendo alto e bom som o que já pelo menos os dois últimos presidentes vinham dizendo pé-ante-pé: a Europa que cuide da sua defesa que a Guerra Fria já acabou e portanto o antigo inimigo comum deixou de o ser (comum). A Europa que se rearme à sua custa que a nossa preocupação agora é a China e, num futuro distante, o Velho Continente poderá vir a ser necessário mas, de preferência, com a força que hoje não tem, nem virá a ter se não mudar de vida.

Que se tira desta moxinifada? Pessoas de direita em muitos países simpatizavam com não pouco do que Trump queria fazer, mesmo detestando a personagem e o seu estilo e mesmo não comprando algumas decisões e iniciativas (p. ex. a guerra das tarifas ou o excesso de zelo e violência do ICE). Mas vendo com bons olhos, sobretudo, uma ideia de retorno à nacionalidade e às fronteiras e a resistência às burocracias não eleitas que reclamam para si parcelas crescentes de autonomia e independência dos países. Sob uma forma quase cómica pela sua inoperância e vacuidade, como com a ONU e o patético Guterres, ou sob a forma de chantagem e abuso a que vários governos europeus, uns por umas razões e outros por outras, se têm vindo a submeter, irmanados que todos estão com o “ideal” da construção europeia e a teia de cumplicidades feitas de prebendas, subsídios, lugares e consensos, tudo sob a batuta da sinistra von der Leyen e de vultos menores como o expatriado Costa.

Nisto estávamos e em Fevereiro deste ano Israel e os EUA iniciaram a guerra com o Irão, inicialmente com grande sucesso e neste momento a arrastar os pés, a ver se o Irão sufoca sob o peso do bloqueio de Ormuz. Sobre a guerra em si toda a gente sabe quase tudo e certamente não vou acrescentar nada aos 234.984 artigos escritos sobre o assunto que, postos em papel, cobririam decerto parte razoável dos 149 milhões de km2 de terra firme; e, só de programas e debates nas televisões, estatísticas credíveis indicam que as horas de opiniões e debates, se transformadas em meses e anos, far-nos-iam chegar ao tempo dos Sumérios.

Coisa curiosa, porém: o racional da guerra é que o Irão teocrático tem uma assumida missão na terra, que é liquidar o Pequeno Satã, primeiro, e o Grande Satã, depois, e que portanto a guerra foi declarada há muito pelo Irão e o ataque israelo-americano é uma defesa preventiva de males maiores. Por muito que este conceito ofenda princípios do Direito Internacional, do qual eu e uma quantidade de ouvintes e leitores temos tirado um curso intensivo, a verdade é que esta inovação conceptual tem pernas para se afirmar na Academia. Ao serviço daquele nobre desiderato tem investido desde os tempos de Khomeini quantias imensas em equipamento militar e no desenvolvimento da bomba atómica – coisa que sempre foi negada e que agora até dirigentes da casta clerical regente reconhecem, e isto além do financiamento de grupos terroristas. O mais importante destes grupos tem sido o Hamas, que controla a faixa de Gaza e à qual se pretende quase universalmente reconhecer independência, a fim de um governo terrorista ter voto na ONU e praticar atentados na terra do vizinho com perfeita legitimidade.

Mas há Trump, que é de direita, autoritário, desbocado, errático, primário e muitas outras coisas negativas que não vou descrever porque de momento estou sem vagar. É tudo isso, mas acontece-lhe ter razão por vezes em matérias essenciais como esta é. E portanto optou pela guerra militar em vez da de palavras e acordos que não se cumprem, reuniões, cimeiras, encontros e desencontros em que o Irão se especializou há muito, levando o Ocidente pelo nariz – imagem que é particularmente adequada àquele país cujo dirigente, fértil em proclamações, ameaças e berreiros sobre a “grandeur de la France”, tem semelhante apêndice bastante proeminente.

Trump não previu as consequências desastrosas da guerra para a economia mundial; deixou-se levar pelo falcão Netanyahu; julgou que ia conseguir um levantamento da população; e foi surpreendido pela capacidade de resistência e quantidade e sofisticação do armamento do Irão.

Esta última acusação é curiosa porque o que a resistência prova é que o Irão há muito se preparava para a guerra, estranha pulsão para um país que só estava sob sanções porque financiava movimentos terroristas, atacava Israel e vários interesses americanos e tinha toda a sorte de relações inamistosas, por vezes violentas, com vários países da região, para não falar dos já longínquos tempos do ataque em 1979 à embaixada dos EUA, com tomada de reféns – um incidente que os EUA, com característico mau feitio, nunca digeriram completamente.

Quanto às outras acusações: consequências inesperadas do espoletar de guerras são a regra, não a excepção – julgava-se, no exemplo mais famoso, que a Grande Guerra ia durar apenas alguns meses; a ideia de que Netanyahu conseguiu com lisonjas persuadir Trump é um processo de intenção malevolente, este pode ser sensível à lisonja mas só desde que não lhe custe nada. Já que toda a gente parece julgar que conhece o homem intimamente eu fico-me por evidências, não palpites ilógicos; o levantamento da população, que aliás estava em curso, fortemente reprimido, não era completamente implausível. Se me tivesse sido perguntada a minha opinião, coisa a que nem as autoridades portuguesas se dão, com incompreensível descaso, ao trabalho, teria dito que numa sociedade fortissimamente policiada isso não acontece, a menos que a fissão venha de dentro das próprias forças armadas ou polícias. Mas, a ter existido, não era, como se apresenta, uma esperança completamente infundada; quanto ao impressionante equipamento militar, que sábios militares dizem na televisão só foi aniquilado numa parte menos importante do que o que se julgava, a guerra moderna é uma caixa de surpresas porque com relativamente poucos meios, bastante sofisticação, mobilidade e capacidade de esconder recursos militares quando o ataque não inclui botas no chão, a resistência pode arrastar-se.

De modo que não se sabe quando e de que forma a guerra vai acabar. Mas sabe-se que o que ali se joga não é apenas a vaidade de Trump, o prestígio dos EUA e de Israel, o destino de Netanyahu (a existência mesma do perigo de ser julgado e condenado é por si a prova da imensa superioridade democrática de Israel sobre qualquer dos vizinhos – que outro dirigente corre o risco de ser julgado por alegada corrupção?), o resultado das intercalares de Novembro e a tranquilidade preguiçosa e cobarde de uma Europa acomodada.

Se a reabertura do estreito for feita com o complemento de qualquer ganho significativo para o Irão, todos os países vizinhos de estrangulamentos geográficos naturais por onde circulem navios acharão que não têm menos direito a cobrar pelo privilégio de estarem onde estão – que se dane o Direito Internacional, que de todo o modo tem dias; o Irão pode regressar ao desenvolvimento da bomba, a solução definitiva para acabar com os Judeus em terra que muitos países muçulmanos (muito menos do que os que tinham essa posição quando Israel nasceu) acham que não lhes pertence; novas guerras virão, que são a consequência das mal resolvidas; e a mensagem para os terroristas de toda a pinta em toda a parte será a mesma – vale a pena.

Não pode valer. De modo que, pense-se o que se pensar de Trump, a guerra dele é de algum modo a nossa, por muito que os nossos políticos eleitos, o comentariado e os magistrados de opinião ajam como se liderar fosse a mesma coisa que correr atrás de opiniões públicas irritadas pelo preço da gasolina.

Há guerra. Nesta o soldado não critica em voz que o inimigo possa ouvir o comandante porque se levanta tarde, diz muitas asneiras e tem um penteado esquisito; nem diz para o camarada que tem a farda desapertada e as opiniões trocadas. Há nisto um nós e um eles.

Pena que isto, que é simples, seja difícil de entender. Acontece também com o óbvio.

  Nota editorial:  Os pontos de vista expressos pelos autores dos artigos publicados nesta coluna poderão não ser subscritos na íntegra pela totalidade dos membros da Oficina da Liberdade e não refletem necessariamente uma posição da Oficina da Liberdade sobre os temas tratados. Apesar de terem uma maneira comum de ver o Estado, que querem pequeno, e o mundo, que querem livre, os membros da Oficina da Liberdade e os seus autores convidados nem sempre concordam, porém, na melhor forma de lá chegar.