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(A) :: "Gary": precisávamos mesmo desta hora fora da cozinha de "The Bear"?

"Gary": precisávamos mesmo desta hora fora da cozinha de "The Bear"?

É uma espécie de prequela para justificar o comportamento de algumas personagens nos episódios que já vimos. Mas além de anunciar a estreia da última temporada a 25 de junho, acrescenta algo mais?

André Almeida Santos
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Gary, Indiana. São 35 minutos de viagem de carro entre Chicago e a cidade no estado vizinho onde se passa a maior parte da ação do episódio extra — ou secreto, como preferirem — de The Bear, que aterrou de surpresa esta semana na Disney+. Um especial de uma hora, que serviu também para anunciar a estreia da quinta e última temporada (está marcada para 25 de junho) e revelar o que aconteceu a uma das personagens entre o lote de episódios anterior e o próximo (é o que o final deste episódio indica). Gary, Indiana, é também o destino de uma viagem que foi mencionada, pelo menos, duas vezes em The Bear. Aliás, a quarta temporada termina com Richie (Ebon Moss-Bachrach) a recordar esse dia com Mikey (Jon Bernthal).

Gary, o episódio, não envolve comida, receitas ou restaurantes. É um flashback que carrega alguns vícios de The Bear e que, de certa forma, pode ter sabor de tempero a mais. É aquele prato, num jantar de grupo, que se pediu para a mesa com entusiasmo, quando toda a gente se começa a aperceber que não só está satisfeita, como está muito cheia. Seria mesmo necessário?

Foi escrito por Ebon e Jon e é um bom reflexo da química dos dois. A realização é de Christopher Storer, seguindo o jeito dos episódios longos de The Bear que, por melhores que alguns sejam, não se repetem com a melhor das elegâncias. Gary também surge num contexto muito específico: os dois atores contracenam em Dog Day Afternoon, peça que está em cena na Broadway, e este episódio a celebração de talento — o deles. Curiosamente, esta nova hora de TV caiu no streaming na terça-feira, no mesmo dia em que foram anunciadas as nomeações para os Tonys, os prémios americanos de teatro. Dog Day Afternoon não recebeu qualquer nomeação. O curioso é que The Bear tem feito questão de relembrar-nos que a vida é feita também de celebrações falhadas.

Este momento na narrativa que agora vemos, entre as personagens Richie e Mikey, faz parte das memórias especiais que o primeiro guarda do segundo. Serve também para reforçar a incompreensão de várias personagens sobre o que levou ao suicídio de Mikey. Richie gosta de se agarrar ao lado bom da viagem, o início, os 35 minutos entre Chicago e Gary, quando estão no carro a falar, quando ouvem uma mixtape que Richie fez e as interações fluem como só podem entre dois amigos.

Vão a Gary entregar um pacote para Jimmy (Oliver Platt, o tio que investiu no restaurante e que tem negócios duvidosos). Parece fácil, só que acabam por ter de ficar mais tempo em na cidade dos Jacksons (esses, os de Michael e restate família) do que o esperado. Richie fica preocupado, quer voltar a casa cedo porque Tiff (Gillian Jacobs) está muito grávida e a entrar em trabalho de parto a qualquer momento. Acresce uma superstição que a futura mãe tem: ela quere-o em casa antes das 17h15.

Gary começa bem. Há um tom de road movie nos primeiros 15/20 minutos com aquilo que Storer faz melhor: apanhar sensações e ideias do cinema norte-americano e colocá-las com utilidade no contexto de The Bear. O rolar na estrada está bem servido e a diferença na paisagem entre Chicago e Gary é imediatamente sentida e bem explorada pelas personagens (se leu O Contrário de Nada, de Tess Gunty, esta América esquecida irá ser muito familiar). O próprio “estar” em Gary, no início, chega-nos como uma bela brisa, sobretudo quando os dois se metem com uns miúdos que estão a jogar basquete, é uma cena que explora muito bem o “não acontece nada, mas acontece muito” dos road movies norte-americanos dos 1970s.

Depois, perde-se o momento. É também a partir daí que começam a desaparecer as boas memórias. Gary entra no território já pisado e repisado de The Bear e torna-se cansativo numa velocidade feroz. Apercebemo-nos até que já podemos estar fartos daquelas personagens. Particularmente difícil é a relação com o “velho” Richie, aquele que ainda não tínhamos visto, personagem que precisava de facto de ser muito insuportável para que a transformação pela qual passou na segunda temporada faça sentido.

Agradecemos sempre as prestações de Bernthal, aqui no papel de um Mikey que existe como alguém omnipresente em todos os momentos da série. A sua morte não só é um fantasma recorrente como a incompreensão face aos motivos atormenta as personagens principais e as respetivas dinâmicas. Apesar de Bernthal lhe dar um bom calorzinho, Mikey é melhor digerido como uma figura constante que não vemos do que quando aparece de facto, através dos flashbacks. Ou melhor dito: uma hora de Mikey é Mikey a mais.

Da mesma forma, a viagem de Gary existia melhor como memória do que como algo concreto. O não saber o que aconteceu, o não saber mais detalhes sobre a relação de ambas as personagens, adensava mais o drama. Gostar de uma série torna quase impossível recusar novos capítulos, mesmos que sejam paralelos. Mas não é preciso ver Gary para continuarmos a gostar de The Bear.