Um protesto organizado pelo grupo punk russo Pussy Riot e pelas ativistas da organização feminista ucraniana Femen forçou o encerramento temporário do pavilhão russo na Bienal de Veneza, exposição internacional de arte realizada nesta cidade italiana desde 1895. O protesto, que teve lugar esta quarta-feira, segundo dia da semana de apresentação, tinha como objetivo contestar a participação da Rússia na exposição, após o regresso do país ao festival — uma decisão que levou mesmo à saída de cinco elementos do júri.
Com balaclavas rosas na cabeça e frases provocadoras escritas no torso nu, segundo relato do The Guardian, as manifestantes correram em direção ao pavilhão russo. Fumo rosa, azul e amarelo, bandeiras ucranianas e cânticos marcaram a cena, com gritos como “Sangue é a arte da Rússia” ou “A Rússia mata! A Bienal expõe!”. Os protestos ruidosos de mais de 50 pessoas, segundo dados do grupo russo, levaram a polícia a fechar as portas do pavilhão.
Ao jornal inglês, Nadya Tolokonnikova, fundadora das Pussy Riot, disse ter ficado horrorizada com as celebrações do primeiro dia, “marcadas por garrafas de Prosecco e música tecno”. “É estranho para mim que a Europa continue a dizer que a Ucrânia é um escudo para todo o continente europeu, mas abra as suas portas repetidamente à propaganda russa”, declarou ainda, pedindo a Pietrangelo Buttafuoco, presidente da Bienal, que “parasse de aceitar dinheiro russo” e conversasse com o grupo. As ativistas ofereceram-se para serem as curadoras do pavilhão russo na edição de 2028 da Bienal, prometendo usar obras de artistas que estão ou estiveram presos em penitenciárias russas.
Pietrangelo Buttafuoco reagiu, numa conferência na quarta-feira, dizendo que, “se a Bienal começasse a selecionar obras com base em passaportes, deixaria de ser o que sempre foi — o lugar onde o mundo se encontra”.
Os protestos continuaram esta quinta-feira, depois de as Pussy Riot publicarem nas redes sociais um Call for Action, com ponto de encontro às 11h em frente à Igreja Chiesa di San Moisè. Após o pedido para falar com o Presidente Buttafuoco não ter sido atendido, o grupo feminista reuniu com a ministra da cultura da Estónia, Heidy Purga, para discutir uma campanha conjunta contra o regresso da Rússia.
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Esta quinta também, a Comissão Europeia deu um prazo, que termina domingo, aos organizadores da Bienal exigindo que sejam esclarecidas dúvidas de Bruxelas sobre o regresso de Moscovo ao evento. Se a resposta não chegar, o apoio de dois milhões de euros pode ser suspenso ou mesmo cancelado.
Também o Reino Unido deixou a sua posição bem marcada. Na abertura oficial do pavilhão britânico de Lubaina Himid, nenhum ministro britânico compareceu como resposta à presença da Rússia, declarou um representante do embaixador. Um porta-voz do governo declarou a “forte oposição do Reino Unido à participação no Bienal de Veneza” e a solidariedade com o povo ucraniano.
“Chega de genocídio disfarçado de arte”. Grupo pró-Palestina manifesta-se contra participação de Israel
A participação da Rússia não foi a única a causar protestos. Também na quarta-feira, uma hora após as ações dos grupos russo e ucraniano, cerca de cem manifestantes pró-Palestina da Art Not Genocide Alliance (Anga) juntaram-se em frente ao pavilhão israelita, como frases como “Chega de genocídio disfarçado de arte” (No artwashing genocide) em cartazes, reportou o The Times of Israel.
Mais de 200 participantes do evento assinaram uma carta a exigir o cancelamento do pavilhão de Israel. O Ministério das Relações Exteriores de Israel condenou o grupo Anga, classificando as suas ações como “discriminação direta”. Segundo o The Guardian, está prevista uma outra manifestação do grupo para sexta-feira que, de acordo com os organizadores, contará com a participação de sindicatos italianos, curadores e artistas.
Dias antes do evento, os cinco membros do júri – responsáveis pela seleção dos vencedores do Prémio Leão de Ouro – anunciaram a sua desistência após declarar que não considerariam inscrições de países cujos líderes fossem alvo de mandados de prisão internacionais (o que levaria à exclusão de Rússia e Israel). O Ministério dos Negócios Estrangeiros israelita acusou a Bienal, numa publicação na rede social X, de ter transformado o evento “de um espaço artístico aberto e livre num espetáculo de falsa doutrinação política anti-Israel“.
*editado por Cátia Andrea Costa