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(A) :: O Eros de Ramazzotti

O Eros de Ramazzotti

O italiano atuou ao vivo na Meo Arena e João Pedro Vala quis saber para quem canta hoje o romântico. Onde está o namoro com Itália que, desde os idos de 90, nunca mais soou assim?

João Pedro Vala
text
Diogo Ventura
photography

Houve um tempo, há não tanto tempo assim, em que os nossos sonhos de férias não eram mais do que duas semanas passadas a comer gelados (de morango e chocolate) e a sonhar com o futuro em frente à Fontana di Trevi, enquanto veríamos homens e mulheres espantosamente mais bonitos do que nós passearem-se de bicicleta, com cabelos a esvoaçar ao vento.

As ruínas de um outro mundo — bem como aquele estranho país preso dentro da cidade, povoado de guardas em espalhafatosos fatos azuis e amarelos, com uma espécie de cravo a brotar-lhes da cabeça — tinham essa estranha mistura de proximidade e distância em relação à nossa vida quotidiana que lhes permitiam seduzir-nos como se fossemos ali encontrar o mundo que este mundo meio tosco nos prometia sem jamais cumprir.

A seleção italiana já não ganhava como dantes, mas ainda assim temíamo-la e conhecíamo-la de cor, com os seus Maldinis e os seus Pirlos, os seus Del Pieros e os seus Baggios.

E a música italiana, feita de amores puros e delicados, homens bonitos e sensíveis e mulheres presas à Solitudine, eternamente à espera de um Marco que já não chega no treno delle sette e trenta, ecoava sempre que, de sorriso no rosto, entrávamos numa das poucas pizzarias de Lisboa, para pedirmos uma calzone surpresa e sermos doutrinados, quase sem notarmos, no culto do Ramazzotti e da Pausini, do Zucchero e do Bocelli, culto esse que nos falava numa língua que já não era o latim e que até juraríamos compreender, desde que ninguém nos pedisse para a repetirmos.

Hoje, as redes sociais e a redução no preço dos voos vieram maravilhar, aculturar e democratizar o remoto, fazendo-nos sonhar com viagens à procura de nós mesmos pelo Sudeste Asiático ou pela Tanzânia.

Hoje, preferimos ramen a calzones.

Hoje, a seleção italiana desapareceu para nunca mais voltar.

Hoje, ora abrimos ora fechamos os botões da camisa, consoante ouvimos Bad Bunny ou Rosalía.

E está tudo bem, tudo certo, mas talvez, algures no meio do caminho, alguma coisa tenha ficado para trás, agora que já não sentimos uma vontade inexplicável de meter um boné na cabeça, entrar num Fiat Ritmo vermelho e acelerar ao longo da Vala do Carregado em direção à ponte da Lezíria ao som da guitarra de Cose della Vita.

Talvez fosse disso que o senhor Jorge, ao lado da sua mulher, Ana, me falava, antes do concerto da noite passada na MEO Arena, quando me dizia que gostava muito de Eros Ramazzotti porque o italiano o fazia acreditar que ainda há gente boa no mundo. Talvez fosse nisso que pensava também a Natália, vinda com a amiga Sylvie desde Guimarães, quando, enquanto um artista de rua adequadamente cantava o What a Wonderful World, me disse que aquela era uma noite especial, porque ficava nostálgica ao recordar o seu primeiro slow com o Sidónio ao som de Un’Altra Te (ou, como diz a própria, A Nu Con Te).

Ao longo do concerto, e enquanto Eros vai entoando perante um pavilhão bem composto os seus hinos mais célebres (diluídos, como era forçoso que acontecesse, em canções que nunca nenhum dos presentes, à exceção talvez da banda de apoio, alguma vez ouvira), apercebo-me de que, na Storia Importante que ele tem para nos contar, nunca há trepidação. Estamos certos do amor que sentimos e de que este nunca mudará. Os momenti piu dificili poderão existir, mas servem apenas para reforçar a convicção de que I belong to you, you belong to me.

Durante as duas horas de espectáculo, parecem propositadamente caricaturais os raríssimos momentos que de alguma maneira sugerem já não estarmos nos anos noventa: as várias solicitações nos ecrãs gigantes, antes das maiores baladas, para que acendamos as luzes do telemóvel ou a entrada, ao som de Taxi Story, acompanhada de um vídeo criado pela inteligência artificial menos subtil da história, que nos transporta para dentro de uma limusine nas ruas de Manhattan, acelerando enquanto os outros condutores permanecem presos no trânsito, como se assim nos lembrassem de que as agruras da vida ficam para trás quando escutamos Ramazzotti e que é nesse estado de espírito que seremos mantidos enquanto ele aqui estiver para, como canta no seu maior clássico, nos agradecer por existirmos.

De resto, um Eros com quem Cronos teve a clemência habitualmente reservada aos comuns mortais, vestido de preto “não me comprometo”, vai passeando pelo palco, de onde desce ocasionalmente para abraçar as poucas dezenas de fãs que se rebelaram contra as cadeiras e para esboçar dois ou três movimentos de anca, de costas voltadas para nós, que parecem pretender, mais do que esporear os desejos do seu público maduro, recordar anseios de uma adolescência passada a sonhar com baladeiros semideuses romanos.

Ali sentado, rodeado por um público maioritariamente feminino e de meia idade, ansioso por dançar mas nervoso sempre que os ecrãs projetam as letras, em jeito de karaoke, penso que talvez a atração de Eros Ramazzotti hoje venha de ele ser agora uma ilha perfeita. O sucesso estrondoso da trupe italiana nos anos noventa nasceu para depois morrer estéril. Ao contrário do que agora acontece com o reggaeton latino, constantemente atualizado por epifenómenos locais relativamente desinteressantes, não houve, pelo menos em Portugal, muitos artistas (talvez só João Pedro Pais e, num ou noutro momento, Paulo Gonzo) a tentarem emular estes ídolos.

Ora, se pusermos por um momento de parte as teorias literárias de Harold Bloom acerca do cânone, talvez seja precisamente nesta irredutível infertilidade que assenta agora o fascínio destes cantores (e convém lembrar que Laura Pausini promete encher a MEO Arena em outubro). Talvez seja pela infecundidade dos seus ramos que a árvore se manteve paradoxalmente viçosa. Porque se é sobre a pedra enjeitada que se erguem os templos, hoje talvez nos deixemos seduzir por estas canções exatamente porque elas não apontam para lado nenhum a não ser para elas mesmas. Ouvimo-las distraídos na nossa juventude, presos a uma erudição que as negligenciava, e agora, quando, por acaso, as tornamos a ouvir (na rádio, num casamento, num café perdido no meio do nada), elas trazem consigo, imaculados, aumentados pela nostalgia que reveste o que não mais há-de voltar, esses momentos em que, como escreve Kurt Vonnegut, tudo era belo e nada nos feria.

No V Canto do Inferno, Dante conta a história de Paolo e Francesca, dois amantes assassinados pelo marido dela (e irmão dele) ao serem descobertos. Ao verem Dante, Francesca explica-lhe que “nessun maggior dolore/ che ricordarsi del tempo felice/ ne la miseria” [não há maior dor/ do que recordar o tempo feliz/ na miséria]. E Francesca talvez tenha razão. Mas talvez isso seja porque à pobre riminiana nunca lhe emprestaram uns headphones para que ouvisse a Se Bastasse una Canzone lá no seu círculo infernal.

Più bella cosa non c’è.