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(A) :: "Um chef que tenha um estilo pessoal vai levá-lo para dentro da cozinha": Orquídea Silva, a CEO da Prochef que veste os chefs nacionais

"Um chef que tenha um estilo pessoal vai levá-lo para dentro da cozinha": Orquídea Silva, a CEO da Prochef que veste os chefs nacionais

Foi a pensar no conforto que, há 20 anos, Orquídea Silva criou a Prochef. Agora, a marca que veste os chefs nacionais lança uma coleção upcycling, enquanto sonha com uma parceria com a Louis Vuitton.

Carolina Sobral
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Inês Lacerda
photography

A melhor jaleca que criou foi a jaleca do chef José Avillez. De corte elegante e tecido fresco e macio — quase que um veludo —, oferece uma sensação de estar nas nuvens a quem a veste, levando outros colegas de profissão a pedir a Orquídea Silva uma igual. A CEO da Prochef é responsável por vestir as equipas de grandes nomes da restauração em Portugal, e até mesmo lá fora, tendo sempre como foco a criação de peças que ofereçam conforto e durabilidade, sem pôr de lado a criatividade. Natural de Joanesburgo, na África do Sul, foi no início dos anos 2000 que anteviu uma tendência mundial ao entrar numa cozinha e perceber que as fardas que os cozinheiros e as suas equipas vestiam podiam ser bem mais trabalhadas. Vinte anos depois, já conhece bem o mercado, com uma marca 100% nacional que atua em Portugal e no mundo.

Com a intenção de criar relações próximas, foi sem contactos e num país que não era o seu que começou a frequentar os eventos gastronómicos, conhecendo os chefs e deixando que, de boca em boca, a sua marca ganhasse nome. O corte dos modelos, sem prender os movimentos, convenceu os chefs a vestir, literalmente, a jaleca, com nomes como José Avillez, Vasco Coelho Santos, Vítor Matos e Martin Berasategui no catálogo de chefs que já passaram pelas máquinas de costura da Prochef. Também Orquídea Silva lá vai pondo a mão, apesar de depositar a confiança nas suas equipas, que deixa também voar criativamente.

Foi essa criatividade que apresentou esta segunda-feira, dia 4 de maio, num desfile que veio mostrar que com uma antiga toalha de mesa se pode criar uma peça de guarda-roupa — para ser usada, ou não, na cozinha. “Fragments of Nature” é uma coleção 100% upcycling que, ao contrário daquilo a que Prochef tem habituado os chefs nos últimos 20 anos, não foi pensada para ser produzida em série e estar espalhada pelos restaurantes de Portugal. Em vez disso, vem mostrar através de peças de arquivo que é possível aliar a cozinha à criatividade, ao mesmo tempo que se reciclam uns quantos retalhos esquecidos da fábrica de Vila do Conde. “Eu tinha peças que já não estavam a ter utilização nenhuma e acabei por vê-las agora novamente ganhar vida”, afirma Orquídea Silva em conversa com o Observador, ao mesmo tempo que explica que, mesmo não sendo produzida em série, qualquer chef pode adquirir uma peça da nova coleção.

Quanto a uma futura, a CEO da Prochef revela o sonho de criar uma jaleca em parceria com a Louis Vuitton, depois de já ter feito uma farda estilo “casaquinho Chanel”. Enquanto o sonho não se realiza, há uma coleção dedicada à imagem da mulher pelo caminho com uma pasteleira estabelecida no Dubai. Nas tendências masculinas, as mangas curtas e as jalecas justas dominam à medida que o formalismo é posto de lado, tal como o chapéu do cozinheiro. “Os chef já se preocupam muito com a imagem tanto dentro como fora da cozinha”, afirma.

Como é que alguém que vem da África do Sul para Portugal aos 25 anos e sem qualquer background em têxtil e moda cria uma marca de renome a nível nacional?
Eu nasci na África do Sul e, em 1992, os meus pais queriam voltar para Portugal e eu decidi que também queria voltar com eles. Não queria estar longe deles. Depois, o início não foi fácil, porque era um país completamente novo, não falava português. Não foi fácil mas depois uma pessoa acaba por se habituar. E quando abri a Fat Tank estava grávida do meu segundo filho, tinha acabado de me separar e tinha de fazer algumas opções de vida. Vendo a minha casa e abro esta empresa, que já tem 24 anos. Começo com a parte toda de maquinaria, com esta máquina que alugo a cozinhas, hotéis e hospitais, que limpa tudo o que é utensílios de grande dimensão, mas que são difíceis de limpar, queimados e com muita gordura. E foi aí que eu comecei a entrar nas cozinhas, comecei a perceber que as fardas não eram das mais bonitas. Comecei a perceber que era tudo muito igual, muito feio e muito largo. As mulheres, coitadas, na altura usavam fardas de homens, não tinham grandes opções. E decidi que, como já estava evoluída no negócio das máquinas, porque não abrir um marca de fardamento. E foi aí que nós começámos depois com a Prochef.

Mas, em Portugal há pouco tempo e sem contactos, como é que se chega ao monopólio dos chefs nacionais que tem hoje?
Comecei a entrar em alguns eventos. Comecei a conhecer os chefs de cozinha. Portanto, não comecei pelo diretor do hotel. Achei sempre que era melhor criar uma relação mais próxima do chef e perceber quais eram as suas necessidades. E foi aí que eles começaram todos a dar ideias, tal como as mulheres. Mas eu tive de investir imenso, porque eu venho da África do Sul, chego cá e não tenho amigos, não tenho amigos de escola, não tenho contactos, não tenho conhecimentos, não tenho nada. Então disse: “Ok, certo, vou patrocinar alguns evento e assim consigo estar mais próxima dos chefs e começar a criar relações”. Foi assim. Foi muito devagar. Demorou para aí cinco anos para começar a ter lucros.

Foi graças às relações.
Sim, eu acho que foi ir além da venda e trabalhar muito na relação. É o que também distingue a marca. Eu acho que nunca consegui ser fria e só dizer: “Não, só estou aqui para vender”. Não, eu crio a relação e depois sou capaz de vender. Mas mesmo que não venda, eu vou manter a relação. Mesmo que eles me troquem por outro fornecedor, eu respeito e continuo amiga deles. Acho que isso para mim é o que é importante. É manter as minhas amizades com eles.

Sente que anteviu uma tendência ao apostar nas cozinhas?
Sim. Eu quando entrava nas cozinhas via que realmente as coisas eram muito… E não eram empresas portuguesas, eram as estrangeiras que estavam a vender aos chefs e eu achava isso mal. Nós somos muito bons em têxtil então achei que seria, realmente, uma boa aposta. Criei um nome que tanto pode ser dito em inglês e português. E foi assim, entrar nas cozinhas e perceber que as pessoas não tinham grandes opções.

Vinda do mundo de publicidade, onde desenvolveu este sentido estético?
Eu trabalhava para uma grande empresa de publicidade norte-americana e, antes de abrir esta empresa, eu tive uma de decoração de interiores. Sempre gostei muito de decoração e abri esta empresa de interiores em Vila do Conde onde trabalhava com as melhores marcas do mundo.

E a Orquídea mete as mãos na máquina de costura ou deixa para a sua equipa?
Sim! Eu bordo, às vezes corto. Depende, mas gosto muito de ir ao ferro. Porque aí vejo se a peça está bem feita. Gosto de bordar, gosto imenso de bordar. E estou sempre com elas também. Acho que hoje é preciso nós estarmos na operação e estar mais próxima das pessoas.

"Os chef gostam de vestir-se bem fora e também nas cozinhas. Eu tenho chefs que dizem: 'Eu quero isto mais apertado. Eu quero mostrar mais o meu corpo'."
Orquídea Silva

O chefs dão inputs para as vossas criações?
Por norma sabem exatamente o que querem, portanto há um briefing bastante claro. E nós sabemos também, já os conhecemos. Depois temos clientes que querem criar peças diferentes, mas até não só na cozinha, porque na cozinha a gente fica muito pelos básicos, pelos brancos, os aventais mais escuros. Agora, para a frente [de sala] é que nós conseguimos criar.

Como é que se continua a inovar neste tipo de vestuário e se diferencia o produto de chef para chef?
É assim, muitas vezes eles só querem as jalecas mais básicas, que praticamente são iguais. O que é que muda? É o bordado, o nome. Eles gostam das coisas muito simples também. Por isso aí tu tens que fazer o que eles querem. Mas eu acho que na cozinha a jaleca branca é importante porque vê-se a limpeza. Os pretos também funcionam bem. Normalmente os pretos são para a parte de calça. Nos aventais, o preto e o verde estão muito na moda. Hoje em dia também já fazemos muita coisa com laranja e amarelos. Muitas vezes eles também gostam de alguma cor na cozinha.

Qual foi a farda mais desafiante ou personalizada que a Prochef já desenhou?
Eu tive uma chef pasteleira no Dubai que queria uma jaleca muito alta-costura mesmo. Porque ela trabalha com as marcas todas de moda para um nível assim mesmo alto, como a Chanel e a Dior. E então fizemos uma coisa muito diferente para ela, quase um casaquinho Chanel, ficou qualquer coisa. Isso foi muito giro porque a nossa equipa de design fez três jalecas diferentes para ela. Esse foi um grande desafio. Ela deu mesmo carta branca e os chefs no Dubai são muito fora da caixa. Tivemos outra chef que quis criar uma linha mais sexy e feminina, com frases picantes. Foi super giro.

Tem a ambição de criar uma jaleca em parceria com alguma marca?
Eu adorava fazer uma jaleca com a Louis Vuitton. Isso é uma ideia que o meu filho já me deu há não sei quantos anos. Ele disse: “Oh mãe tens de contactá-los. Fazes uma jaleca com eles. Todos os chefs hoje são estrelados. Ter uma jaleca da Louis Vuitton feita com a Prochef era tão giro”. Porque não, não é? Por acaso gostava de fazer essa ligação. E até pode ser via a nossa chef do Dubai. Porque ela realmente conhece as marcas todas. Nós estamos agora a criar uma coleção com ela porque ela quer promover um bocado a imagem da mulher. Porque as fardas normalmente são desinteressantes. Muitas vezes as marcas existentes fazem uma jaleca de homem. E depois o que é que fazem? Pegam numa jaleca de homem e põem  umas pregas e metem mais cintada. Mas é uma jaleca de homem. E as mulheres detestam isso. Não querem.

A Prochef está no Dubai e em que mais mercados?
Em Portugal, não é? Temos uma empresa também na Madeira, portanto fazemos as ilhas. Começamos agora a vender muito para o sul de Espanha. Estamos também no Luxemburgo. A entrada no Dubai era para entrar depois nos outros países do Médio Oriente.

E qual é que é o sítio mais desafiante para criar?
Acho que Dubai foi desafiante. Porque no Dubai tu tens tudo. As melhores marcas já lá estão, tu tens que ir oferecer um produto diferenciado. Acho que tivemos sucesso lá e já estamos com muitos bons projetos, agora em stand by por causa da guerra. Porque eles gostaram do facto de nós não termos catálogo e fazermos exatamente aquilo que eles querem. O que existe lá é catálogo e eles não gostam.

Quais é que são os vossos concorrentes?
A diferença está nas pessoas e na forma como tu consegues chegar a essas pessoas. Porque as pessoas dizem: “Ah, mas tu não és exatamente igual às outras todas”. É verdade. Só que, onde é que está a diferença? Na forma como tu tratas o teu cliente e o processo todo. É o profissionalismo que tu tens com ele. Não falhas nos deadlines. Entregas as coisas a horas. Isso marca, não é? Tu podes ter a melhor marca do mundo mas se depois não entregas ou se não dás um bom serviço. E eu acho que a Prochef teve sempre esse cuidado. Então, eu acho que é a vertente humana, a venda emocional. Nós temos um marketing muito emocional. Nós conhecemos as pessoas. Gostamos da conversa cara a cara. Nós não queremos chegar a toda a gente mas as pessoas a quem nós realmente chegamos, que eles gostam de nós, vão comprar novamente, vão procurar novamente. Mas, acima de tudo, vamos criar uma amizade. Eu acho que o negócio é isso também. Não é um once off.

Atualmente, são os chefs que chegam até à Prochef ou ao contrário?
Nós não temos equipa nenhuma de vendas neste momento. Nunca tivemos até. Foi mesmo sempre a boca a boca. E eles depois falam uns com os outros. Perguntam: “A quem é que tu compras? É a Prochef”. E acabam por eles próprios fazer a publicidade.

Foi assim que chegaram também à televisão?
Sim. É tudo com os chefs. Na altura com o Masterchef acho que deve ter sido o [José] Cordeiro. Normalmente são eles. Por exemplo, agora estou a fazer os Chefs da Terra, que é um programa que está a passar, e também foi através de um chef. Como a Prochef começou a trabalhar com as televisões agora têm-nos como parceiros e já é normal que para qualquer programa culinário eles contactem a Prochef.

E quanto à gama para crianças?
É o aproveitamento de tecidos. Porque com a Prochef Baby tu aproveitas e fazes aventais com sobras. Portanto, o que sobra no canto do tecido, dá para fazer um chapéu de cozinheiro, por exemplo. E foi também muito naquela altura do MasterChef Kids.Tivemos muitas pessoas a contactar-nos e a perguntar se a gente fazia jalecas para os filhos porque os filhos gostam de cozinhar. Tivemos muita promoção ao público pela televisão.

Sente que isso só foi possível porque o público português é muito ligado à gastronomia ou em qualquer país aconteceria?
Eu acho que não. Eu acho que mundialmente a cozinha está na moda. Quero voltar para as minhas raízes e gostava da vender na África do Sul porque acho que a minha marca teria muito sucesso lá. Porque também conheço bem o país. E eles também têm hotéis de luxo. São hotéis muito acima da média e levam muito a sério a parte da imagem, incluindo o fardamento. Portanto, a tua imagem, perante um cliente, é muito importante para o sul-africano. Eles são capazes de dar cinco fardas a um funcionário, o que aqui é impensável, o máximo que recebem é três.

Como é que se alia a vertente do conforto a uma parte mais estética, sendo que são peças para ser usadas dentro da cozinha? Apesar de o chef ser mais mediático, não são tão vistas.
Os chefs agora também são muito mais vistos porque as cozinhas são mais abertas. E os jovens que estão a sair agora das escolas são diferentes. Eles gostam de vestir-se bem fora e também nas cozinhas. Eu tenho chefs que dizem: “Eu quero isto mais apertado. Eu quero mostrar mais o meu corpo”. Portanto, eles já se preocupam muito com a imagem deles tanto dentro como fora [da cozinha]. E eu acho que o empresário hoje também já quer uma equipa impecável e quer passar a imagem de uma equipa bem vestida e que gosta do que veste. Eu noto que eles dizem: “Orquídea, eu quero que eles também se sintam confortáveis e gostem da farda. Nós queremos que eles venham trabalhar com essa motivação”. Porque eles passam o dia todo com ela vestida. Por isso agora já nos preocupamos em fazer a calça mais justinha, em fazer uma jaleca também mais justa. É porque eles gostam de se sentir bem. Isso é importante.

Como vê a moda atualmente e como é que evoluiu nos últimos 20 anos?
Eu acho que a jaleca hoje tem que ser vista como uma peça diária, do que ser uma extensão só. Um chef que tenha um estilo pessoal vai levá-lo para a cozinha também. Nota-se bastante isso nas cozinhas. Uns chefs usam uma jaleca mais apertadinha, os outros já gostam dela manga curta. Acho que mudou muito no sentido de que há 20 anos atrás, quando eu comecei, era tudo muito mais largo. Aqueles botões plásticos grandes. Tinhas dois ou três modelos. Era a branca, era a preta. E praticamente era isso. Não tinha mais nada, não é? Depois começámos a notar a evolução. Tanto para a parte feminina que notámos que as mulheres já gostavam de ter peças também mais femininas, não queriam aquele saco.

E para onde é que acha que se encaminha?
Eu acho que eles gostam de coisas mais informais. A formalidade na cozinha, que era aquela jaleca branca com o lenço e com aquele chapéu alto, acho que já não existe. E acho que cada vez mais se nota que eles também querem o conforto. Eu acho que vão ser mais informais. Querem estar confortáveis. Querem tecidos frescos. Acho que vamos entrar mais com uma malha, com um interlock. Porquê? Porque dá mais conforto. E acho que, hoje em dia, eles querem isso. Querem sentir-se, acima de tudo, confortáveis.

Até mesmo fora da cozinha se vê cada vez mais um ambiente informal, o chamado casual dining.
Sim, às vezes até há pratos que podes comer à mão. E é isso, eles querem uma farda mais confortável, uma manga curta. Eu às vezes peço cuidado porque a manga comprida serve para proteger. Digo sempre: “Peçam uma manga mais comprida, até poder ser malhinha mas vamos pôr uma malha que cubra”. Porquê? Tem que ser 100% algodão para não queimar. Mas pelo menos cobre a mão ou braço, porque se for manga curta podem queimar-se. Mas eu sei que eles colocam uma manga curta agora. Eles estão muito virados para as mangas curtas. E se reparar, eles estão a usar mais a cozinha de fogo. Portanto, estamos a voltar outra vez para uma cozinha mais tradicional, mas mais informal. Comida de conforto.

Há tipos de jaleca diferente para cada tipo de cozinha? 
Sim, nós temos agora tecidos antifogos. Vendemos aventais antifogo que permitem estar ali ao pé da brasa. Claro que às vezes quando estão mais próximos da grelha nós vendemos cores mais escuras. Os brancos depois acabam a ficar sujos e então temos cores mais escuras. Fazemos muito as gangas também. A ganga acaba por ser prático para quem está muito ao pé do fogo porque é um tecido mais grosso. Um tecido mais resistente e 100% de algodão também é bom.  Mas temos esse antifogo que é um tratamento que damos ao tecido.

Qual foi a melhor jaleca que já criaram? Tanto em termos de conforto como de design.
Acho que a do chef José Avilez foi sempre uma jaleca que eu adorei. É uma jaleca simples, mas eu acho que tem classe. É uma jaleca muito bonita e eu sempre gostei daquela jaleca. Tem um corte muito elegante e depois o tecido é muito macio. Eu acho que quem veste aquela jaleca está no céu. E por acaso ele é fã dessa jaleca, que ele está sempre com ela.

Criaram-na em conjunto?
Não, foi uma jaleca que eu criei. Por acaso ele queria uma jaleca assim muito fresquinha e na altura eu fui pesquisar nas nossas fábricas de tecidos e então desenvolvemos esse tecido para ele.

E já houve quem quisesse uma igual?
Sim, já temos outros chefs a dizer: “Olha, quero uma igual à do chef Avillez”. Temos alguns a perguntar, até pelo conforto. Aquele tecido é quase um veludo, é espetacular.

Mas nunca há esse sentimento de não querer ter uma jaleca igual à de outra pessoa?
Não, acho que não. Um que também dá muito gozo a fazer as jalecas dele é o Vasco Coelho Santos. Porque o Vasco também nos deixa criar. Então agora estas últimas foram super giras, porque nós fizemos um corte super diferente e depois tivemos que tingir uma cor específica.

Foi a Prochef que criou as jalecas do Lâmina?
Sim, fomos nós. O Vasco é uma pessoa com quem eu gosto imenso de trabalhar. Porque ele também diz: “Olha, cria, vamos, e depois mostra-me”. Então deixa-nos um bocadinho à vontade. Mas também sabe e é muito específico. Quando não gosta, não gosta. É uma pessoa muito assertiva, mas gosto muito de trabalhar com ele. Muito mesmo. Acho que ele, além de trazer boas ideias, gosta de um produto bom. E isso também para nós é bom. Ele valoriza um produto bem feito e de qualidade.

Há mais algum chef com quem goste de trabalhar?
O Vítor Matos. Também é uma pessoa que sabe o que quer, também é muito específico. Mas também gosto de trabalhar com o Vítor porque ele é muito exigente. Então eu digo que se eu conseguir agradar o Vítor é um desafio. Ele é tão exigente que eu fico contente se ele disser que gostou.

Acabam por conseguir perceber a personalidade de cada chef consoante a farda que pedem.
Sim. O Vítor é muito exigente, mas eu adoro trabalhar com ele. Também é uma pessoa que sabe o que quer. Não é aquela pessoa que entra e diz que não sabe. Diz “quero assim, assim e assim, ou, detesto isto, gosto disto”. E eu, como também sou um bocadinho assim no meu dia-a-dia, porque também sei o que quero, gosto de trabalhar com pessoas decididas também.

E os chefs lá de fora?
Os portugueses também já são quase internacionais também. O José Avillez, por exemplo, já é meu cliente há 20 anos, não é? Mas também vesti o Martin Berasategui quando ele estava aqui no Fifty Seconds. Mas acho que ainda tem alguma coisa nossa, não sei.

Recorda-se qual foi o primeiro chef de renome para quem fez uma jaleca?
Eu acho que foi o José Avillez. Ele já é meu cliente há muito, muito tempo.

E como é que chegou até ele?
Foi num evento. Ele começou a falar comigo e, pronto, começámos. Mas acho que foi o José e o Henrique Sá Pessoa também.

Foi a Prochef que fez as fardas para o novo restaurante do Henrique Sá Pessoa?
Não, não fomos. Não sei a quem ele comprou, mas por acaso não foi a mim. Mas não há problema, está tudo bem. Não sou daquelas pessoas rancorosas. Por exemplo, agora o Vítor foi giro porque ele disse: “Os meus cozinheiros estão aqui a dizer que querem uma marca holandesa porque viram agora umas fardas todas justinhas. Mas eu não gosto daquilo. Eu já disse, é português”. Então ligou-me a dizer: “Orquídea, tens de ser tu a fazer as fardas desta malta, porque eu não vou comprar fardas holandesas”. E eu disse que sim e perguntei o que é que eles queriam. Queriam coisas justas. Então eu fiz-lhe uma jaleca, ele veio ter connosco e quando chegou não queria acreditar que eu lhe tinha feito uma jaleca. Ficou parvo, porque ele nunca pensou que eu ia fazer uma jaleca para lhe mostrar. É com estas coisas que tu acabas por ganhar sempre a confiança deles. E ele adorou a jaleca. E eu disse: “Olha, assim mostras aos miúdos e eles já vão ver que nós até somos melhores do que as holandesas”. E eles adoraram a jaleca. Portanto, também é importante que os chefs sejam defensores do que é português. E felizmente nós temos imensos.

E que projeto é este, o Fragments of Nature?
Nós gostamos de deixar a criatividade nestas coleções. A criatividade tem que surgir e eu não prendo os meus designers nestas situações. A única coisa que o briefing pedia era utilizar coisas que já estavam nas nossas coleções antigas, utilizar tecidos que já não estávamos a utilizar. E tinham que, no fundo, dar vida nova à peça já que não estávamos a usar. É uma coleção 100% upcycling e é a primeira que fazemos assim.

E de onde surgiu a ideia de criar algo com base neste arquivo de peças que a Prochef tinha?
Uma das coisas que nós temos sempre muito como objetivo principal é realmente utilizar tudo o que nós temos de resto. Decidimos que as duas estagiárias que íamos ter da Bélgica iam fazer esta coleção com peças recicladas. E elas gostaram da ideia também.

O que é que querem mostrar com esta coleção?
Aqui é passar uma mensagem. Reciclar, pegar em coisas que às vezes a gente acha que já não têm vida. Por exemplo, eu posso pegar numa toalha de mesa que até está em boa condição e posso fazer outras coisas com ela. Nós temos que, no fundo, sensibilizar as pessoas a não deitar fora.

Cada peça é única, então?
Sim, cada peça é única.

Mas vão acabar por ser peças de arquivo?
Sim. Estas peças acabam por estar no showroom, sempre. Nós temos o nosso showroom e, por exemplo, temos a nossa loja e muitas vezes fazemos montras diferentes. Portanto, acaba sempre por ter utilização.

E se um chef mostrar interesse por alguma peça pode comprá-la?
Sim, claro. É tudo feito à mão, por isso o preço é um bocadinho mais alto. Mas há clientes que gostam depois de comprar.

E este lado criativo não pode ser desenvolvido também nas jalecas que os chefs usam?
Pode, e nós temos muito isso. Um pormenor num punho, um pormenor numa gola, claro que nós sabemos que um chef de cozinha não pode ter nada a atrapalhar, portanto tem que ser uma jaleca que seja útil e prática porque ele tem que se mexer bem. Uma das coisas que eles gostam da minha jaleca e dos meus cortes é que realmente sentem-se confortáveis, sentem que conseguem mexer-se, gostam imenso dos nossos moldes. Portanto, isso tudo tem que ser pensado, a frescura do tecido, a durabilidade do tecido, mas conseguimos fazer uma gola diferente, um punho diferente, podemos adicionar vivos, podemos adicionar botões. Portanto, há sempre muita criatividade. Nós temos botões que enrolamos à mão, por exemplo.

Qual é a tendência atual? Estas fardas mais justinhas de que falava?
Sim, querem tudo justinho, tudo a ver músculo. É tudo justo e mais malhinha. E as mulheres também gostam de vestir uma farda mais justinha e cintada. 

Há diferenças entre as fardas da cozinha e da sala?
Na sala temos de ter algum cuidado. Acho que na sala temos sempre de manter uma linha clássica na qual a pessoa esteja muito bem vestida. Mas eu acho que uma peça bem feita na sala é bonito. A apresentação é muito importante. Eu acho que hoje em dia temos que pensar um bocadinho além só da farda. A farda também, mas como as pessoas falam na mesa, como apresentam um prato, o visual todo. Porque os jovens também são mais exigentes hoje. Eles veem e reparam em coisas.

O jovem enquanto trabalhador do setor ou o jovem enquanto cliente?
O jovem enquanto cliente é muito exigente hoje. Eu vejo pelos meus filhos, eles reparam em tudo. Para nós, desde que a comida estivesse minimamente boa e a pessoa até fosse simpática, estava tudo bem. Acho que deveríamos apostar mais na formação das pessoas que trabalham na parte com o cliente, é muito importante. O cliente se for mal atendido, a comida pode ser boa, mas não volta mais.