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A reconstrução e recuperação da Faixa de Gaza necessitará de um investimento de 71,4 mil milhões de dólares (60.8 mil milhões de euros) num período de cinco anos depois de o conflito com Israel ter deixado um largo rasto de destruição, refere um relatório conjunto do Banco Mundial, União Europeia e ONU. Esta análise, a primeira realizada após o cessar-fogo de outubro (que pôs fim a dois anos de guerra), traça o retrato mais detalhado até à data sobre o impacto da guerra. Faz o levantamento dos prejuízos materiais em todo o território entre 8 de outubro de 2023, um dia depois do ataque do Hamas a Israel, e 9 de outubro de 2025.
A Avaliação Rápida dos Danos e Necessidades em Gaza refere que os danos massivos “realçam a dimensão e a urgência de restabelecer os serviços essenciais, a estabilidade económica e a resiliência social.” Em termos quantitativos, adianta que a guerra causou 35,2 mil milhões de dólares (pouco mais de 30 mil milhões de euros) em danos materiais diretos e estima as perdas económicas —rendimentos, custos induzidos pela deslocação de populações e outros fatores — em cerca de 22,7 mil milhões de dólares.
As “maiores necessidades de recuperação e reconstrução” estão principalmente no setor da habitação (13.8 mil milhões de euros) já que a maioria das casas foi destruída. Os números continuam a ser significativos nas áreas da agricultura e alimentação (8.9 mil milhões de euros)), da saúde (8.5 mil milhões de euros) e do comércio e indústria (7.6 mil milhões de euros).
O relatório, divulgado a 22 de abril, coloca como “prioridade imediata” a retoma de “serviços básicos como a saúde, a água, o saneamento e a higiene, e as comunicações.”
A nível do impacto social e humano, o estudo conclui que “a escala e a extensão da privação ao nível das condições de vida, dos meios de subsistência/rendimentos, da segurança alimentar, da igualdade de género e da inclusão social, atrasaram o desenvolvimento humano na Faixa de Gaza em 77 anos, prevendo-se que o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) colapse para 0,339 — o nível mais baixo desde que existem registos”.
A avaliação sublinha como “menos de 38% dos centros de cuidados de saúde primários permanecem parcialmente funcionais” e que, segundo dados de 2025, aproximadamente 41.844 pessoas vivem com “lesões resultantes de conflitos que mudaram as suas vidas e requerem reabilitação a longo prazo.”
Por outro lado, “mais de 40% das mulheres grávidas e lactantes sofrem de desnutrição grave e dois terços sofrem de anemia” sendo que muitas crianças estão “feridas” e “sem qualquer familiar sobrevivente.”
Num outro domínio, o da atividade económica, o relatório explica que “praticamente paralisou, com apenas uma atividade mínima observada no comércio por grosso e a retalho.” Registou-se também a diminuição do rendimento e o aumento do desemprego devido ao “endurecimento progressivo das restrições à circulação e ao comércio”. A realidade continua desanimadora no mercado de trabalho: “Mais de 80% dos funcionários em Gaza” foram impedidos de “trabalhar devido à extensa destruição de locais de trabalho, bloqueios de estradas e interrupções nos transportes.”
Todos estes prejuízos superam em mais de 5 mil milhões de dólares a estimativa do último relatório destas organizações internacionais, datado de outubro de 2024.
Dois anos de guerra mergulhou a região “numa profunda crise humanitária”
O documento sublinha a tragédia humanitária vivida na região em dois anos: “Desde o ataque de larga escala em 7 de outubro de 2023, levado a cabo por grupos militantes da Faixa de Gaza contra Israel, o agravamento do conflito na Faixa de Gaza resultou numa perda de vidas sem precedentes e numa crise humanitária catastrófica“, pode ler-se nesta análise.
“Mais de dois anos de conflito provocaram mais de 71 000 mortes de palestinianos e mais de 171 000 feridos, encontrando-se muitos desaparecidos sob os escombros”, continuam os autores do estudo. A guerra levou a “deslocações generalizadas, danos extensos em infraestruturas sociais, físicas e produtivas, e mergulhou a região numa profunda crise humanitária”. O conflito “vitimou também aproximadamente 1.671 cidadãos israelitas e estrangeiros — a maioria nos ataques de 7 de outubro de 2023 —, a par de deslocações e danos significativos em Israel.”
Neste enquadramento inicial, antes de serem avançadas as estimativas dos custos da reconstrução, são recordados no relatório, os “mais de 1,9 milhões de palestinianos da Faixa de Gaza foram deslocados internamente para locais dentro do enclave, muitos deles múltiplas vezes”. E como mais de 1,2 milhões de pessoas — quase 60 por cento da população do enclave — perderam as suas casas. “Os danos extensos nas infraestruturas de água, saneamento e gestão de resíduos, a falta de recursos críticos para operar e manter as infraestruturas sobreviventes, as más condições de higiene e a insegurança alimentar deixaram toda a população da Faixa de Gaza em risco de surtos de doenças”.
Foi neste quadro que as três instituições internacionais trabalharam para chegar ao valor de mais de 71 mil milhões de dólares para a reconstrução do território. A metodologia do estudo combinou tecnologia avançada — como dados de satélite e análise de redes sociais — com informações diretas de engenheiros locais, ministérios do Governo e organizações humanitárias no terreno. Embora as perdas tenham sido calculadas com base na realidade anterior à guerra, o estudo salienta que as contas da reconstrução não são relativas apenas ao plano de repor o que existia, mas sim de implementar infraestruturas mais sustentáveis, eficientes e otimizadas.
Texto editado por Dulce Neto
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