Mais de 200 clientes da médica ‘campeã’ de prescrição do medicamento Ozempic estão a ser constituídos arguidos no caso ‘Operação Obélix’, indiciados pelo crime de burla qualificada, apurou o Observador.
A investigação da Polícia Judiciária e do Ministério Público, num inquérito a cargo do DIAP Regional do Porto, entende que estes utentes não eram diabéticos para beneficiar de uma prescrição com comparticipação indevida apenas para fins estéticos e de emagrecimento, privando dessa forma doentes com diabetes de terem acesso ao fármaco. Durante algum tempo chegaram até a verificar-se disrupções e ruturas no abastecimento no mercado destes medicamentos.
Com esta conduta, estes clientes — que beneficiaram da colaboração da médica endocrinologista Graça Vargas — terão igualmente prejudicado o Estado em perto de dois milhões de euros, uma verba que o Estado espera agora recuperar.
https://observador.pt/2025/11/19/detida-medica-suspeita-de-prescrever-ozempic-e-outros-medicamentos-a-falsos-diabeticos-objetivo-era-perda-de-peso/
O número de arguidos entre os utentes daquela médica — que tinha sido detida em novembro, tendo acabado por sair em liberdade mediante uma caução de 500 mil euros — ainda deverá subir em breve para cerca de 250, uma vez que apenas estão a ser constituídos arguidos na região norte neste momento. Falta avançar de seguida para os clientes das zonas centro e sul do país, mas as primeiras notificações de constituição de arguidos já seguiram.
Aliás, o número de potenciais arguidos seria ainda superior, aproximando-se dos 300 utentes que alegadamente beneficiaram de forma indevida do acesso mais barato ao Ozempic e outros fármacos (como o Victoza e o Trulicity) para emagrecimento sem que fossem diabéticos. No entanto, cerca de 30 pessoas desse lote já faleceram desde a suposta prática dos factos pelos quais seriam indiciados.
Segundo avança também esta manhã de quinta-feira a CNN Portugal, o Ministério Público irá propor aos arguidos a devolução do dinheiro da comparticipação e o eventual pagamento de uma verba para que possam evitar uma acusação formal e a ida a julgamento, através da suspensão provisória do processo.
Um prejuízo de cerca de três milhões de euros para o Estado
A investigação apurou então que o total de comparticipação destes medicamentos ultrapassou os 6 milhões de euros, mas mais de metade dos doentes de Graça Vargas não seriam diabéticos. “57% dos utentes analisados não possuem, para além dos medicamentos Ozempic, Victoza e/ou Trulicity, outra medicação nem outros produtos para a diabetes prescritos pela médica Graça Vargas”, referia o despacho de indiciação. Nesse sentido, o Estado terá sido defraudado em pelo menos 3 milhões de euros entre 2014 e 2025.
Cada consulta na clínica E’Sensia, no Porto, oscilava entre os 160 e os 140 euros e teria a garantia de acesso a toda a medicação necessária para emagrecer, quer fosse Ozempic, Trulicity ou Victoza. Por exemplo, o Ozempic custa 106,85 euros, um preço que cai para cerca de 10,6 euros quando comparticipado por via do SNS.
https://observador.pt/especiais/consultas-a-140-euros-e-pagamentos-em-dinheiro-medica-indiciada-por-receitar-ozempic-a-doentes-sem-diabetes-e-lesar-o-estado-em-e3-milhoes/
Nos contactos telefónicos para a clínica era explicado que o pagamento da consulta seria feito em dinheiro ou cheque — nem existia multibanco, perceberam as autoridades através de escutas. Assim funcionava o esquema que operou durante cerca de uma década.
Apesar das diligências apenas no final de 2025, há muito que a conduta daquela médica endocrinologista já estava sob a atenção das autoridades. Foi em 2020, após um alerta da Unidade de Auditoria e Prevenção da Fraude dos Serviços Partilhados do Ministério da Saúde, que se iniciou a investigação a Graça Vargas e ao esquema que criou e desenvolveu na clínica da cidade do Porto.
O “lucro fácil” obtido com uma conduta “completamente premeditada”
À médica de 59 anos são apontados os crimes de burla qualificada e falsidade informática, com a investigação a citar indícios “fortíssimos” da prática desses ilícitos. Além de Graça Vargas, foram também constituídos em novembro outros três arguidos: uma segunda médica da clínica (cujo nome não foi divulgado), o advogado e companheiro de Graça Vargas, N.R.G, e a empresa que este gere, denominada Esplêndidos e Minuciosos — Medicina no Porto, Lda., ou seja, a sociedade que detém a clínica médica.
A médica e o companheiro são ainda suspeitos de levarem o dinheiro para fora do país, designadamente, França, onde tem também residência.
Quando foram determinadas as medidas de coação, Graça Vargas saiu em liberdade mediante uma caução de 500 mil euros e ficou sujeita a outras obrigações: proibição de se ausentar para o estrangeiro sem autorização, suspensão de funções da atividade profissional e proibição de frequentar a clínica E’Sensia. Ficou também proibida de proibida de contactar com os restantes arguidos do caso, bem como testemunhas identificadas no processo e utentes não diabéticos a quem tenha prescrito medicação para a diabetes.
https://observador.pt/2025/11/20/medica-campea-de-prescricao-de-ozempic-sai-em-liberdade-com-caucao-de-500-mil-euros/
O tribunal de instrução criminal do Porto considerou então que o depoimento da médica no interrogatório “não merece qualquer credibilidade”, ao ser contrariado pela prova obtida com as escutas telefónicas, sublinhando que Graça Vargas foi movida pelo “lucro fácil”, com uma conduta “completamente premeditada”.
Na sequência deste caso, cujas diligências e detenções foram desencadeadas no dia 19 de novembro de 2025, a Ordem dos Médicos abriu também um inquérito disciplinar e pediu às autoridades toda a informação considerada relevante para a avaliação interna da conduta da endocrinologista.