(c) 2023 am|dev

(A) :: O bezerro de ouro

O bezerro de ouro

A crença na razão é tudo menos igual a crença em liberdades, ou em valores comuns que permitam essas liberdades, nomeadamente, e em particular, aquela de podermos utilizar a nossa razão

Nuno Lebreiro
text

Reza a lenda, ou neste caso uma carta escrita por um irado Johann Georg Hamman, que, num final de tarde de 1768, em Konigsberg, Immanuel Kant, em amena conversa com amigos, dissertava sobre os magníficos avanços da ciência, louvando os novos conhecimentos astrofísicos. Empolgado, relata Hamann, Kant decretava que o conhecimento astrofísico havia atingido uma perfeição tal que nele seria impossível que coubessem novas teses.

Não será, portanto, de estranhar que tenha sido precisamente da pena Kantiana que se soltasse a húbris das conclusões ultra-sistemáticas, e portanto revolucionárias, na medida em que se pretendiam totalmente explicativas da razão, da mente, do mundo e da vida, do tempo e do espaço ou, também, da ordem e da espontaneidade e, concomitantemente, da moral e dos costumes, tal como, ainda, dos pensamentos e das sensações, do entendimento e da sensibilidade, dos opostos e dos sinónimos, do belo e do sublime, de Deus e das “coisas em si mesmas”, do puro e do subjectivo, da sensação e dos fenómenos, enfim, e em suma, do Todo, bem como tudo devidamente organizado, listado, sistematizado.

Foi, aliás, nessa húbris que Nietzsche vislumbrou o feito mais significativo dos últimos milénios: Kant teria premido o gatilho no maior homicídio perpetrado na história da Humanidade — o de Deus. No que consistiu, então, o homicídio divino? Na representação teórica estabelecida por Kant para o ser humano procurar por si próprio, através da razão, qual a acção moral adequada a um determinado dilema. Kant “mata” Deus, portanto, não porque o renegue, coisa que nunca fez, mas porque, a seu tempo, o tornou dispensável no julgamento do comportamento moral dos homens. Na prática, Deus, pela mão de Kant, passou então o testemunho do julgamento sobre o Bem e o Mal a todo e qualquer indivíduo — eu, tu, nós — desde que munido de racionalidade. No fim, de uma perspectiva filosófica, na procura de uma solução racional para o dilema moral da Humanidade, como subproduto, Kant tornou Deus, e com Ele a Igreja, moralmente irrelevantes.

A revolução Kantiana foi ainda mais longe. Ao retirar Deus da equação moral, Kant abriu caminho também para a sua substituição conceptual pela própria razão. Onde antes Deus figurava como a fonte, o chão, a origem, do bem e da verdade, da justiça e da luz que iluminava o mundo e o Homem, passou então a surgir a razão, a sucessora de Deus no tempo da “secularização” moderna no altar da autoridade da hierarquia moral. O credo é simples e, quando explanado, intuitivamente por todos bem conhecido: a razão é boa, porque verdadeira, é justa, porque racional, é a base da ciência que, desse modo, ilumina o mundo e o Homem com a sua luz, afugentando as trevas obscuras das tradições, do irracionalismo, da injustiça, da inconsciência, da Fé — eis, em poucas palavras, o credo da modernidade.

Não foi difícil a esta noção triunfar no Ocidente Cristão: afinal, para o pensamento Cristão desde a tradição de Santo Agostinho à de São Tomás de Aquino, aquilo que é racional sempre coincidiu com o que é bom, justo e verdadeiro, bem como configura uma expressão de Deus. Do mesmo modo, não foi também difícil conciliar esta ideia com as bases clássicas do Ocidente: já para Platão o bom e o racional tinham que ser coerentes, conciliáveis, harmonizáveis. Kant, não nasceu, portanto, do nada: todo o seu legado representa o culminar de uma tradição filosófica que fez o seu caminho no Ocidente.

Como corolário, a razão aparece-nos, hoje, em todo o seu esplendor pleno de autoridade: divina, sublime, iluminante. E, uma vez morto Deus, pelo menos conceptualmente, a razão passou a ocupar o lugar vago, no centro do mundo, dona e senhora do destino do Homem — um destino que este, como Prometeu, através da sua faculdade racional, imagina ter resgatado do regaço divino para o seu controlo. Daí, anseia-se, será pela mão da ciência e da tecnologia — as filhas da razão — que a salvação da Humanidade, outrora idealizada para além da morte, chegará ainda em vida, no mundo material, traduzida pela imortalidade, a perpétua abundância liberta de escassez, discórdia, dilema e a correspondente responsabilidade da escolha — o paraíso na Terra, pois claro.

Assim vislumbramos um credo, uma mensagem, uma promessa — as bases de qualquer culto ou religião. O que significa que, na realidade, por detrás de tudo, a modernidade secular será, além da idade da emancipação humana face ao mundo, simultânea e subtilmente, a idade da divinização da razão. No fundo, e aqui reside a subtileza, a verdadeira secularização, de certo modo, nunca aconteceu, simplesmente não existiu — mesmo morto, o lugar de Deus não foi extinto, apenas substituído por uma outra coisa que continua hierarquicamente cumprindo a função. E este é o passe de magia que escapa à maioria da população ocidental, ora imaginada liberta do crivo teocrático e dogmático, obscuro, do mito e da religião.

A par, na mais profunda base da modernidade liberal, triunfa outra ficção: que basta soltar a racionalidade do Homem das suas amarras espirituais para obter a sociedade abundante, pacífica, tolerante, inteligente, racional, moderna. Ora, tal quimera não pode ser, como deveria ser evidente, levada minimamente a sério. Isto porque, se, por um lado, é verdade que libertar a razão individual será sempre um passo fundamental numa sociedade livre e próspera, a verdade é que o ideal do Homem liberto de crenças e mitos é ele próprio um mito — num mundo sem certezas, nascidos do mistério universal e encaminhados para um vazio existencial, sem saber como nem porquê, não sobra ao Homem nada mais alem de uma crença onde possa por o pé e levantar-se, ainda que tremendo de angústia, bem como necessariamente cego de certezas.

É desse pavor primordial que o Homem, para funcionar no mundo, carece sempre de uma crença — seja ela metafísica, seja mais prática, no mínimo, assegurando-o que se apertar a mão do seu vizinho não será esfaqueado pelas costas. Ou que o produto que é vendido no mercado não está envenenado. Ou que o livre exprimir da sua opinião não ofenderá mentes mais sensíveis e vingativas. Daqui resta, ou deveria restar, uma simples conclusão: não é a racionalidade que solidifica esses laços basilares nos quais assentam as liberdades. No mundo real, estas liberdades apenas podem proliferar numa sociedade que as defenda, promova e, claro está, que os seus cidadãos partilhem nelas a sua crença enquanto valores primordiais.

Não basta, portanto, a razão, para garantir a sociedade moralmente livre que os tecnocratas progressistas tanto apregoam. Pelo contrário, a crença na razão é tudo menos igual a crença em liberdades, ou em valores comuns que permitam essas liberdades, nomeadamente, e em particular, aquela de podermos utilizar a nossa razão, individualmente, de nós próprios para fora, para o colectivo.

E aqui reside o busílis da questão: onde não há liberdade individual, não pode haver racionalidade individual. Há, pelo contrário, e baseada na crença da divindade racionalista, a racionalidade colectiva, aquela que, naturalmente, de cima, do alto da sua autoridade, como que por revelação, normalmente pela propaganda propalada no Telejornal, impõe a “verdade” racional que deverá ser aceite pelos membros da sociedade, ou seja, de fora, do colectivo, para dentro do próprio individuo — a antítese da liberdade individual, portanto.

Deparamo-nos, assim, com um Ocidente crente numa ilusória racionalidade que imagina tudo julgar e tudo ver, o simulacro racionalista de Deus. Uma falsa divindade, portanto. Um falso deus — o célebre bezerro de ouro — que alimenta o credo moderno, inconsciente, enraizado no nosso Zeitgeist, que adora o bezerro reluzente que lhe promete um paraíso futuro, científico, ainda terreno, onde todas as vontades individuais se organizarão num safe space colectivo, harmonioso, perfeito e perpétuo.

Eis, em suma, a génese do carácter dogmático que guia o espaço público ocidental. Guia-o em nome do progressismo redentor — porque científico e racionalista, logo bom e indiscutível —, tal como levando-o, como todos os dogmas, ao unanimismo que rejeita qualquer forma de dissensão como “negacionismo”, “estupidez”, ou “malvadez” — precisamente porque no credo moderno onde a razão ocupa o anterior lugar de Deus, o que é racional é bom, logo verdade, compondo, portanto, ditames morais que não podem, nem devem, ser colocados em causa. Naturalmente, atrás das batas brancas dos cientistas, dos “estudos que mostram”, os poderes que são aproveitam e eis, então, o Ocidente laico, moderno, liberal, de regresso, ainda que despercebido, à condição de apóstolo de uma verdade que subjuga, e deve subjugar, todos ao interesse pré-definido pela hierarquia superior como colectivo. E tudo isto em nome da liberdade individual.

A ironia, claro está, não fica por aqui. Tal como Baudeleaire, em 1864, bem explicava, a maior das astúcias do Diabo é persuadir-nos de que ele não existe. Assim, funciona também a crença disfarçada de certeza científica, a propaganda disfarçada de informação, o conformismo disfarçado de segurança e o autoritarismo disfarçado de liberdade. Deparamo-nos, portanto, com uma sociedade que, em nome da liberdade, é incapaz de a promover. Pelo contrário, a pouco e pouco todas as instituições são reformadas, todos os princípios revistos, tudo reformulado para, em nome do novo dogma, transformar a sociedade no oposto daquilo que apregoa — uma sociedade fechada, unanimista, incapaz de discussão, progressivamente mais autoritária, formada por indivíduos que, cada vez mais refugiados no conforto maternal do colectivo, são incapazes de julgar, pensar, agir por si próprios, especialmente se contra a opinião majoritária.

A esperança para a liberdade individual assenta, portanto, na capacidade de desmascarar o falso poder que nos vai pervertendo as nossas tradições de liberdade. Assim, e de algum modo paradoxalmente, aquilo do qual se necessita hoje no Ocidente é de uma verdadeira secularização: ao contrário de uma suposta idade secular, para utilizar a terminologia de Taylor, que mais não fez que manter uma estrutura formal teológica apenas que mudando o seu conteúdo para uma apologia da razão e do materialismo, e desse modo, por um lado, amputando e impedindo o florescimento espiritual do Homem e, pelo outro, infantilizando-o ao separá-lo do mundo tal como ele é, colocando-o numa redoma que promete redenção da própria existência humana — uma impossibilidade, claro, mas uma ilusão que impede o amadurecimento dos caracteres infantis que apenas podem maturar e crescer quando confrontados com o mundo real necessariamente trágico, violento, injusto.

Em última instância, a capacidade para aferir o que é racional, ou não, é, ou deveria ser, tarefa de cada um, de acordo com a sua própria vontade, a cada particular circunstância. Resgatar essa soberania de pensamento, de julgamento, logo de escolha, para o indivíduo será, então, a base da defesa da liberdade individual. Só pode ser livre aquele que se propõe a postular, e defender, a sua própria liberdade, neste caso para pensar e decidir por si, para si e para os seus, mesmo que irracionalmente. Essa é a derradeira revolução popular que, de baixo para cima, pode ainda resgatar a liberdade do crivo dos burocratas e das virtudes apregoadas pelos carimbos. Resta, portanto, a esperança que os Ocidentais sejam capazes de se emanciparem face a uma torrente cultural, social, académica, política, que os procura tolher e fazer recolher à condição de súbditos — no caso, de uma pretensa e ilusória certeza, ou verdade, racional e científica.

No Paraíso Perdido de Milton, Satanás prefere reinar no Inferno que servir no Paraíso. Essa arrogância ressentida resume muito do que alimenta a húbris racionalista que consciente ou inconscientemente intenta instaurar o Inferno da Terra — e nele reinar. Essa é a tentação do safe space: tudo por nós controlado, organizado, seguro, ou seja, onde somos donos e senhores, onde reinamos de forma absoluta, infalível. É a apologia do control-freak. Mas o mundo da liberdade não é esse, é o do risco, do incerto, da aventura — aquele onde homens adultos, maduros e corajosos são capazes de se impor a um colectivo que só foi bem-sucedido vendendo, com artimanha, a impossível ilusão da segurança.

No final, de Kant a Von der Leyen, todo o exercício de racionalismo tecnocrático não passa de um output psicanalítico da maior fraqueza humana: a necessidade de controlo como forma de amansar o medo existencial ao qual estamos condenados pelo simples facto de sermos humanos. Já o homem livre é aquele que estilhaça essa rede de alegada segurança e aceita, para o bem e para o mal, com quaisquer que sejam as parcas armas que tem ao seu dispor, enfrentar o destino dos heróis — sempre, por definição, desconhecido.