Voltemos um pouco atrás: terça-feira, 10 de Março. Na Assembleia Municipal de Lisboa, discutiu-se o documento em que o Partido Socialista recomendava a criação do programa “Lisboa protege +”. Começava suavemente por propor um grupo de trabalho e logo se expandia em eixos estratégicos, mecanismos de coordenação, articulação com financiamento externo, fundo municipal de resiliência, reforço de rubricas orçamentais, envelope financeiro inicial de três milhões de euros e previsão de subida posterior. Não havia nada de ilegítimo na ambição do documento. O problema era a escala do detalhe e, sobretudo, a linguagem, que parecia escrita a partir do interior da máquina executiva. Sob a forma de recomendação municipal saída da oposição, o PS apresentava um capítulo de um programa de governo.
Já não governa, mas continua a escrever como se governasse. Há uma dificuldade pública e notória do PS em adaptar-se à sua nova condição, em abandonar a posição que o voto popular alterou. Foi durante décadas um partido de poder no regime português, e habituou-se naturalmente a pensar e organizar-se como força de governo. Perder eleições é mais rápido e mais simples do que perder hábitos de poder executivo: um partido pode sair formalmente do governo sem abandonar a linguagem do governo. O desajuste da linguagem é o ruído de uma estrutura que não se adaptou à mudança de época. Visivelmente, é o caso do PS: continua a produzir documentos como quem ocupa uma posição institucional que o eleitorado entretanto lhe retirou. A hipertrofia administrativa daquela recomendação era o produto de um abuso de interpretação política.
Em Portugal, os partidos do regime habituaram-se durante décadas a confundir dimensão histórica com direito natural ao poder. Pior ainda, o vício do poder hegemónico instalou nos partidos uma ideia profundamente ornamental da própria governação. Convenceram-se de que governar era acumular “medidas concretas” (a expressão mais justa da indigência política): fundos orçamentais, grupos de trabalho, “modernizações” sortidas e linhas de financiamento. A pouco e pouco, de fracasso em fracasso, esqueceram-se de que governar é escolher entre prioridades incompatíveis. Todas as medidas substanciais são magníficas quando apresentadas isoladamente. Todas parecem necessárias. O problema começa quando entram em concorrência umas com as outras dentro do mesmo orçamento, da mesma máquina administrativa e do mesmo tempo político. Por este motivo, os catálogos de “propostas” ou “medidas concretas” impressionam sobretudo os autores, para quem é facílimo anunciar prioridades às dúzias. Governar é decidir que prioridades ficam para trás.
De ambição política, sofre Portugal de superabundância. O mais luminoso no “Lisboa protege +” era a ausência de qualquer noção de limite. Todas as ambições surgiam como prioridades simultaneamente financiáveis, expansíveis e compatíveis entre si. Um documento deslumbrante, pela ambição dos erros que concentrava em sete folhas. Custa a acreditar que Portugal foi governado, nos períodos críticos da história, com este grau de irresponsabilidade: a governação séria começa nas renúncias. Um programa político torna-se irrealista quando não renuncia a coisa alguma.