Passam 46 segundos entre o momento em que os dois militares do curso de paraquedistas saltam do C-130 da Força Aérea e o momento em que o primeiro deles embate no solo. As imagens do incidente mostram que, nesse intervalo de tempo, ocorrem dois problemas distintos com os paraquedas — um “enrolamento” e um “enganchamento”. E também mostram que um dos militares enfrenta oscilações durante a descida. Essa sequência de acontecimentos levou, num primeiro momento, a que os dois militares se aproximassem demasiado e que perdessem o controlo sobre a descida. Mas não explica tudo o que aconteceu.
Há uma regra que é repetida até à exaustão aos formandos da força especial de Paraquedistas do Exército: “Em caso de dúvidas, não há dúvida — abrem o paraquedas de reserva.” Há uma razão para que essa lei fundamental seja dita dezenas de vezes em cada formação e que seja relembrada no briefing de segurança, instantes antes de os militares entrarem no hangar e levantarem os paraquedas, para depois entrarem na aeronave de que vão saltar. É porque, naqueles segundos em que se aproximam do solo, só os próprios militares podem acionar o segundo paraquedas.
https://www.youtube.com/watch?v=Bimj9rrv-Og
No exercício de salto desta terça-feira — o último do 3.º Curso de Paraquedistas que começou já em outubro de 2025 — os paraquedas de reserva só foram abertos quando os dois militares já estavam a pouquíssimos metros do solo. Isso fez com que, na prática, aquela medida de segurança adicional fosse praticamente inútil, não reduzindo a velocidade da descida e não reduzindo a força do embate no solo.
Mas, até esse momento, houve uma série de problemas que impediram uma descida em segurança e que resultaram em ferimentos num dos militares. O outro, ferido com maior gravidade, foi transportado na altura para o Hospital de São José, onde esteve internado em morte cerebral e acabou por morrer.
O Observador faz agora a reconstituição dos momentos mais críticos deste incidente raro que envolveu dois militares da força especial de paraquedistas do Exército.
9 segundos entre o primeiro e o 16.º salto a partir do C-130
É terça-feira, entre o final da manhã e o início da tarde. O C-130 da Força Aérea sobrevoa várias vezes a zona militar Tancos e, a cada passagem que faz por aquele local, um grupo de militares paraquedistas realiza um conjunto de saltos. Alguns são militares já formados que fazem mais um salto de rotina; outros estão a concluir o curso de formação para integrarem aquela força especial e receberem a boina verde característica dos Paraquedistas.
Nesse último sobrevoo do C-130, entre o primeiro e o 16.º salto dos formandos do curso de paraquedistas, passam nove segundos. Os vídeos desses primeiros instantes parecem não revelar nada de anormal naquele salto. Tudo estaria a decorrer como previsto.
As imagens mostram militares a saltar de forma alternada nas duas portas traseiras do C-130. No interior do avião, os formandos estão organizados em duas filas, uma de cada lado da aeronave. Às costas, cada um deles carrega já um Spekon RS 2000, um paraquedas que, quando embalado, tem um peso aproximado de 14 kg. Cada formando está à distância de um braço do colega da frente. Estão a cerca de 500 metros do solo.
À voz de comando “já” do instrutor, o primeiro militar salta. A partir daí, o movimento é contínuo: o militar que se segue em cada uma das filas aproxima-se da porta, braços junto ao corpo, e salta também. São ações mecânicas, que foram treinadas durante semanas e que agora são executadas de forma automática. Depois do salto, o cabo que prende cada um dos militares ao interior da aeronave vai puxando o paraquedas que trazem nas costas. São os chamados Saltos de Abertura Automática.
O vídeo seguinte, publicado pelo Exército, mostra como deve ser feito um salto deste tipo.
https://www.youtube.com/watch?v=DmtaNLsYuAw
Os militares não precisam de fazer mais nada em relação ao paraquedas. Em poucos segundos, as calotes (os “sacos” verdes no topo do paraquedas que garantem a sustentação no ar) começam a ser insuflados e inicia-se a descida controlada até ao solo. Os dois militares envolvidos no incidente estão entre os primeiros a saltar naquele grupo — terão sido o segundo e o terceiro a sair do C-130.
Só que, ao contrário do que acontece com o resto do grupo, no caso dos dois sargentos os paraquedas enfrentam uma sequência de problemas.
O vácuo que os aproxima, o “enrolamento” e as “oscilações”
O manual de formação de paraquedistas refere que, assim que faz o salto e o paraquedas principal é insuflado, o militar deve garantir que não tem outras pessoas à sua volta — o objetivo é assegurar-se de que não há cruzamento no ar com outros elementos que tenham saltado naqueles instantes. “Um paraquedista vai puxar um dos manobradores para rodar 45.º para o lado que for mais conveniente”, refere o documento. “Vê de que lado não tem paraquedistas e puxa esse manobrador até rodar 45.º, depois larga o manobrador e segue nessa direção”. De seguida, e já depois de ter a certeza de que não há risco de “enganchamento”, “volta a orientar-se para a direção que tinha anteriormente e continua o seu caso normal de descida”. Isso é o procedimento para um salto considerado normal, ou sem incidentes.
Esta terça-feira, em Tancos, os problemas começaram logo após o salto dos dois militares do Exército. Um militar com vários anos de experiência em saltos e antigo formador de paraquedistas, que pediu para não ser identificado, explica que, logo após o salto dos dois militares, poderá ter-se criado um vácuo na cauda do avião.
Esse efeito de ar teria levado a que os dois militares, em vez de seguirem em percursos distintos e afastados na descida, se tivessem aproximado um do outro nos instantes seguintes à abertura do paraquedas. E isso terá acontecido porque, enquanto um dos militares começa a sofrer um “enrolamento” — as cordas que o prendem ao paraquedas vão ficando cada vez mais enroladas com a rotação do corpo — o outro militar vai sofrendo “oscilações” — isto é, o paraquedista vai fazendo a descida sem estabilidade, com movimentos de pêndulo, para a esquerda e para a direita.
Ou seja, por motivos diferentes, nenhum dos militares tinha o controlo pleno do paraquedas. Mas, em teoria, ambos os problemas sentidos nos primeiros momentos do salto teriam solução.
O manual usado atualmente na formação de novos paraquedistas, a que o Observador teve acesso, considera “fundamental” que “os enrolamentos sejam desfeitos antes da aterragem”. Para que isso aconteça, continua o mesmo documento, o paraquedista deve “colocar as mãos nas tiras de suspensão, palmas das mãos para a frente e ao afastar as mãos vão afastar as tiras de suspensão”, ao mesmo tempo que executa “golpes de tesoura com as pernas de forma a acelerar o movimento de rotação do corpo”. A partir do momento em que o problema esteja solucionado, o militar deve “afastar vigorosamente as tiras de suspensão, para travar o movimento de rotação, que por inércia iria provocar novo enrolamento no sentido contrário”.
Mas, em Tancos, nenhum dos sargentos conseguiu estabilizar o respetivo paraquedas durante a descida. E os militares acabam por deparar-se com um terceiro problema: o “enganchamento”.
Paraquedas “enganchados” e a descida em velocidade acelerada
Antes de o grupo em que estavam os dois sargentos saltar, outros militares já tinham realizado saltos naquele mesmo local. Nos vídeos que estão a circular, é possível ver como vários militares paraquedistas assistiam ao último salto daquele dia a partir do solo. Nesses vídeos, há um comentário feito por vários deles: “Abre o reserva.”
Depois de um dos paraquedistas sofrer um “enrolamento” e de o outro descer em “oscilação”, os paraquedas dos dois militares acabam por se cruzar, num fenómeno que, ao contrário dos anteriores, é descrito como sendo de extrema gravidade. Trata-se do “enganchamento”.
https://observador.pt/2026/05/05/dois-militares-feridos-apos-salto-de-paraquedas-durante-acao-de-formacao-em-tancos/
Uma das situações de enganchamento, explica o manual de formação usado pelos formadores, “resulta do encontro de dois paraquedistas no ar, sensivelmente ao mesmo nível, em que um passa pelos cordões de suspensão do outro”. A outra situação de enganchamento ocorre quando “dois paraquedistas estão na vertical um do outro [e] o que está mais acima vai provocar o ‘amachucamento’ da calote, deformando-a e entrando também pelos cordões de suspensão do outro paraquedista”.
Na prática, o que acontece é que os dois paraquedas se enrolam um no outro: o tecido que garante a sustentação no ar (a chamada “calote”), ou as cordas que ligam o paraquedista à calote, ficam entrelaçadas. E isso acontece de tal forma que se torna impossível separar os dois paraquedas. O manual de formação é claro: “Este incidente é extremamente raro, no entanto, é dos maiores perigos que o paraquedista corre.”
Paraquedas de reserva abertos pouco antes do embate
A partir desse momento, não há alternativa, explica o mesmo militar com mais de duas décadas de experiência em saltos: é preciso abrir o paraquedas de reserva. O manual usado na formação de paraquedistas, onde se indicam os procedimentos a seguir em caso de “enrolamento”, referem que, quando um paraquedista se depara com “incidentes múltiplos”, só há um procedimento a seguir. “Abrir o paraquedas de reserva.”
Mas isso não aconteceu no incidente de Tancos. Durante quase 25 segundos, os paraquedas dos dois militares estão enrolados um no outro, o sargento e o furriel descem em velocidade acelerada em direção ao solo, parecem ainda trocar algumas palavras, mas nenhum deles toma a decisão de abrir o paraquedas de segurança. Isso só acontece já muito perto do solo.
O socorro do INEM, transporte de helicóptero e o apoio às famílias
O furriel Ismael José Silva Lamela, um dos dois militares envolvidos no incidente de terça-feira, acabou por morrer esta quinta-feira. “É com profundo pesar que o Exército Português comunica o falecimento do furriel Ismael José Silva Lamela, na sequência do incidente ocorrido no dia 5 de maio, em Tancos, durante a realização de um salto de paraquedas, no âmbito do Curso de Paraquedistas. O óbito foi declarado hoje [quinta-feira], pelas 12h20“, refere a nota divulgada pelo Exército
https://observador.pt/2026/05/07/morreu-um-dos-militares-envolvidos-no-incidente-de-tancos/
O primeiro comunicado do Exército sobre este caso foi enviado às redações às 14h52 desta terça-feira. Falava num “incidente no âmbito do Curso de Paraquedismo, envolvendo dois militares, durante a execução de um salto de paraquedas”. Não dava ainda detalhes sobre o estado de saúde dos sargentos, mas avançava que tinha sido acionado “apoio psicológico, assegurando acompanhamento aos militares envolvidos e respetivos familiares”.
Ao Observador, fonte do Exército detalhou que, num primeiro momento, foram os próprios médicos do ramo, que estavam no local, a prestar assistência aos dois militares. Logo a seguir, foi acionado o INEM — um indicador de que os ferimentos poderiam ser graves.
Um dos militares acabaria mesmo por ser transportado de helicóptero e, por decisão clínica, levado para o Hospital de São José, em Lisboa.
Na quarta-feira à tarde, fonte oficial do Exército continuava a manter reserva sobre o estado de saúde exato dos dois militares. Ao Observador, era apenas dada a indicação de que os dois se encontravam “estáveis” e em observação. O primeiro comunicado referia ainda a abertura de um “processo de averiguações com vista ao apuramento das circunstâncias do incidente”.
Entretanto, logo após o furriel ter sido transferido para Lisboa, o Exército montou uma operação de logística para que os familiares mais próximos do militar pudessem acompanhar de perto a evolução clínica de Ismael José Silva Lamela. Foram colocados em instalações do Exército em Lisboa e estiveram em permanência junto ao militar, no Hospital de S. José.
O militar acabou por morrer já esta quinta-feira, em resultado dos ferimentos sofridos no momento do embate com o solo. O outro militar também envolvido no incidente está internado no Hospital de Leiria e continua a ser acompanhado. Terá sofrido fraturas nas pernas e na bacia, já foi submetido a intervenções cirúrgicas e, segundo o Exército, mantém-se “estável”.
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