Dia de festa e dia de grandes regressos a casa. Na festa do 52.º aniversário do PSD, o partido aproveitou para homenagear Conceição Monteiro, militante número dois, histórica secretária e confidente de Francisco Sá Carneiro, e para receber Marcelo Rebelo de Sousa, já não com o fato de Presidente de República mas como assumido e orgulhoso militante social-democrata. Numa sessão que contou com vários ministros e ilustres militantes, como Luís Marques Mendes, também ele num regresso ao seu partido de sempre, foi Luís Montenegro quem acabou por apontar o caminho: fazer igual ou melhor do que Aníbal Cavaco Silva mesmo contra as novas forças de bloqueio que agora se apresentam.
A menos de 24 horas da reunião de concertação social que poderá ditar o início do fim da reforma laboral ambicionada pelo Governo, Luís Montenegro aproveitou para, nas entrelinhas, garantir que “não vai desistir” de mudar o país — mesmo que isso implique aceitar a derrota nesta frente. “Sendo este um Governo de concertação, obviamente não vai desistir. Não podemos ficar reféns da intransigência e do imobilismo. Vão contar com um PSD muito combativo. É para isso que estamos aqui. Podem ter a certeza de uma coisa: este período governativo vai marcar tanto a história de Portugal como os grandes períodos governativos”, foi atirando o primeiro-ministro, numa referência indireta aos dez anos de governação de Aníbal Cavaco Silva.
Ora, numa altura em que, mesmo com todas as cedências da CIP, poucos no Governo acreditam ser possível salvar a reforma laboral, Luís Montenegro prometeu assim “não desistir de aproveitar o potencial do país”. De resto, quinta-feira o Executivo deverá anunciar novas medidas na área da Saúde, como antecipou o próprio primeiro-ministro no seu discurso desta tarde. Bicicleta parada cai e Montenegro sabe que não pode parecer parado no dia em que pode sofrer uma grande derrota política.




Deu-se ainda a coincidência de este aniversário acontecer um dia depois de Pedro Passos Coelho ter feito duras críticas à posição assumida pelo Chega na discussão sobre o pacote laboral e por ter reconhecido que o partido de André Ventura talvez não seja a tal peça que faltava para a uma grande maioria reformista à direita — aproximando-se da leitura que Luís Montenegro foi tendo desde que se consolidou como líder do PSD e afirmou o “não é não” a acordos de governação com Ventura.
No seu discurso, e mesmo sem nunca falar diretamente sobre Passos Coelho ou sobre André Ventura, o líder social-democrata não deixou de notar que, por essa Europa fora, não faltam governos de coligação em grandes dificuldades, enquanto outros, que governam em minoria, têm mostrado maior resiliência. “Acabam por ter uma duração mais limitada e uma vida mais problemática”, argumentou, como que dizendo que a decisão de governar sem maioria foi mais do que acertada.
Montenegro aproveitou ainda para insistir numa parte importante da reforma do Estado proposta pelo Governo, com o fim do visto prévio e o combate àquilo que o Executivo considera ser o poder discricionário do Tribunal de Contas como provas de que este Executivo não pretende deixar tudo na mesma. “Queremos transformar o país, queremos reformar o Estado, não para colher nenhum benefício disso. Queremos mudar para respeitar o fundamento da confiança que nos foi depositada. Não aceito uma democracia onde aqueles que são escolhidos têm medo de decidir.”
Marcelo recorda fundação do PSD. Conceição Monteiro pede: “Não o deixem ficar mal”
Minutos antes, Marcelo Rebelo de Sousa, agora na qualidade de militante número três do partido, prestou também a sua homenagem a Conceição Ribeiro, a “avózinha” que ganhou no PSD. Falando livremente sobre a história e fundação do partido, que se confunde também com a história da secretária de Sá Carneiro, Marcelo lembrou os vários momentos em que Conceição Monteiro, hoje com 92 anos, se afirmou como o “elemento unificador” de um partido marcado por “grandes debates e grandes clivagens” desde a sua fundação.
Numa nota que pode ser lida também como autobiográfica, Marcelo Rebelo de Sousa, que conheceu altos e baixos como presidente do partido e como Presidente da República no que à relação com os militantes do PSD diz respeito, destacou a importância da mulher que serviu durante mais de cinco décadas a causa. “Os partidos são feitos de pessoas. E esse lado pessoal é essencial. Nas horas más, são muito poucos. Nas horas boas, não há lugar para todos. E a Conceição Monteiro esteve lá. Foi estando, estando, estando”, agradeceu o Presidente da República.




Sem resistir à sua própria natureza — Marcelo é conhecido por ser particularmente mordaz mesmo quando parece estar apenas a brincar —, o ex-Presidente da República não deixou de revelar a todos que Conceição Monteiro recusara ser operada hoje para estar presente no aniversário do PSD, com direito a ida ao cabeleireiro e tudo.
“Parece patusca mas é muito moderna“, atirou Marcelo Rebelo de Sousa, soltando gargalhadas entre os presentes. Mais à frente, falaria também da relação particular entre a mesma Conceição Monteiro e Pedro Santana Lopes, o “menino querido” da secretária, e despedir-se-ia dela nestes termos: “Eu adoro-a. Não tanto como o Pedro Santana Lopes, mas adoro-a”.
Conceição Monteiro, a grande homenageada do dia, também dirigiu algumas palavras aos presentes e aos militantes do partido. Visivelmente emocionada, a histórica secretária do partido pediu a todos, e a Montenegro em particular, que honrem a história do PPD/PSD. “Nunca pensei dos meus meninos e das minhas meninas uma homenagem desta. Sinto cá dentro um calor tão grande por ainda se lembrarem da velha Conceição Monteiro, com 92 anos. Peço-vos que continuem a trabalhar por este partido porque ele merece. E não o deixem ficar mal. O partido merece o melhor de cada um de nós.”
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