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(A) :: Antecipar o choque antes que chegue às famílias

Antecipar o choque antes que chegue às famílias

As famílias portuguesas ainda não viram nada. As subidas de preços não terão paralelo nem no Covid nem no choque inicial da guerra na Ucrânia.

Miguel Remelhe Neves
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A situação no Irão é um problema de todos. Desde o primeiro dia que afeta toda a gente, em todo o lado. As operações podem estar localizadas, mas o impacto sobre a economia é global. Quando uma rota crítica de energia e comércio fica em risco, não sobe apenas o preço do petróleo. Sobem os combustíveis, os transportes, a energia das fábricas, os plásticos, os químicos, os fertilizantes, as embalagens e, no fim da cadeia, quase tudo aquilo que chega à casa das famílias.

O primeiro impacto sentiu-se logo na bomba de gasolina e no gasóleo. O Brent continua a negociar entre os 100 e os 120 dólares por barril, pressionado pela tensão interminável no Estreito de Ormuz, por onde passa uma parte essencial do petróleo e do gás mundial. Mas o verdadeiro problema ainda não chegou por inteiro ao consumidor. Está agora a chegar à indústria.

Os índices de referência de várias matérias-primas dispararam. Em alguns casos, mais do que duplicaram face aos níveis anteriores ao conflito. A nafta, base fundamental para a petroquímica, viu as suas margens na Ásia passarem de cerca de 108 dólares por tonelada para mais de 400 dólares. Os preços dos plásticos e polímeros atingiram máximos de vários anos, com aumentos que estão, desde o inicio de março a ser transmitidos aos produtores industriais, e por sua vez, ao longo da cadeia de valor.

E não é só a matéria-prima. O transporte marítimo também está a pressionar a economia. Sobretaxas, Seguros de guerra, desvios de rota, falta de capacidade, combustível mais caro e risco operacional estão a tornar o transporte muito mais caro. Há referências a fretes marítimos até quatro vezes superiores em rotas afetadas e custos de contentores com aumentos muito significativos.

É aqui que temos que nos antecipar. Estes aumentos não chegam todos ao mesmo tempo. Primeiro chegam aos produtores de matérias-primas. Depois às indústrias transformadoras. Depois à distribuição. Só no fim chegam ao supermercado, à farmácia, à loja e à conta mensal das famílias.

Se nada for feito, vamos assistir nos próximos meses a uma situação altamente aflitiva. Algumas subidas não têm paralelo nem no Covid nem no choque inicial da guerra na Ucrânia.

As famílias portuguesas ainda não viram nada. O choque já começou. Primeiro chega à indústria, depois ao supermercado, à farmácia e à conta da energia. E, se a inflação obrigar o BCE a voltar a subir juros, chegará também à prestação da casa.