A situação no Irão é um problema de todos. Desde o primeiro dia que afeta toda a gente, em todo o lado. As operações podem estar localizadas, mas o impacto sobre a economia é global. Quando uma rota crítica de energia e comércio fica em risco, não sobe apenas o preço do petróleo. Sobem os combustíveis, os transportes, a energia das fábricas, os plásticos, os químicos, os fertilizantes, as embalagens e, no fim da cadeia, quase tudo aquilo que chega à casa das famílias.
O primeiro impacto sentiu-se logo na bomba de gasolina e no gasóleo. O Brent continua a negociar entre os 100 e os 120 dólares por barril, pressionado pela tensão interminável no Estreito de Ormuz, por onde passa uma parte essencial do petróleo e do gás mundial. Mas o verdadeiro problema ainda não chegou por inteiro ao consumidor. Está agora a chegar à indústria.
Os índices de referência de várias matérias-primas dispararam. Em alguns casos, mais do que duplicaram face aos níveis anteriores ao conflito. A nafta, base fundamental para a petroquímica, viu as suas margens na Ásia passarem de cerca de 108 dólares por tonelada para mais de 400 dólares. Os preços dos plásticos e polímeros atingiram máximos de vários anos, com aumentos que estão, desde o inicio de março a ser transmitidos aos produtores industriais, e por sua vez, ao longo da cadeia de valor.
E não é só a matéria-prima. O transporte marítimo também está a pressionar a economia. Sobretaxas, Seguros de guerra, desvios de rota, falta de capacidade, combustível mais caro e risco operacional estão a tornar o transporte muito mais caro. Há referências a fretes marítimos até quatro vezes superiores em rotas afetadas e custos de contentores com aumentos muito significativos.
É aqui que temos que nos antecipar. Estes aumentos não chegam todos ao mesmo tempo. Primeiro chegam aos produtores de matérias-primas. Depois às indústrias transformadoras. Depois à distribuição. Só no fim chegam ao supermercado, à farmácia, à loja e à conta mensal das famílias.
Se nada for feito, vamos assistir nos próximos meses a uma situação altamente aflitiva. Algumas subidas não têm paralelo nem no Covid nem no choque inicial da guerra na Ucrânia.
As famílias portuguesas ainda não viram nada. O choque já começou. Primeiro chega à indústria, depois ao supermercado, à farmácia e à conta da energia. E, se a inflação obrigar o BCE a voltar a subir juros, chegará também à prestação da casa.