Um “casal de engenheiros aeroespaciais que compra uma casa e fica com uma prestação que representa uma taxa de esforço de [apenas] 10%“, só porque aproveita a garantia pública para pedir um crédito à habitação a 95% ou a 100%, é considerado pelo Banco de Portugal um crédito de “risco elevado”. O exemplo foi usado nesta quarta-feira por Miguel Maya, presidente da comissão executiva do Millennium BCP, para fazer uma crítica velada ao Banco de Portugal por ter dito, recentemente, que o nível de risco no mercado de crédito à habitação se tem vindo a deteriorar.
Questionado pelo Observador na conferência de imprensa de apresentação de resultados trimestrais, Miguel Maya afirmou, uma vez mais, que a garantia pública que viabiliza os empréstimos a 100% é uma “boa medida” que o banco está a “gerir com todo o rigor”. E salientou que as taxas de incumprimento são muito baixas (“há só seis casos que não estão a correr bem”) e perfeitamente comparáveis com o crédito geral concedido pelo banco, sem garantias.
O Banco de Portugal salientou que uma em cada quatro pessoas que pediram crédito para compra de casa em 2025, especificamente para habitação própria e permanente, obteve dos bancos um financiamento entre 90% e 100% do valor da casa – algo que só foi possível graças à garantia pública que o Estado passou no final de 2024/início de 2025 a dar às pessoas com até 35 anos de idade.
https://observador.pt/2026/05/06/millennium-bcp-aumenta-lucros-em-mais-de-25-para-306-milhoes-em-tres-meses/
Com a introdução dessa garantia, a percentagem de clientes que excedem o máximo dos 90% é já maior do que era em 2018, quando o Banco de Portugal sentiu necessidade de introduzir um limite. Isso levou o supervisor a dizer que o “perfil de risco dos mutuários se deteriorou” em 2025, uma ideia que foi veiculada num relatório do supervisor e, também, numa entrevista dada por Clara Raposo, vice-governadora do Banco de Portugal.
Mas esta é uma análise que não faz sentido, defende Miguel Maya. O banqueiro salienta que as regras dizem que um crédito pode ser considerado de risco elevado quando as taxas de esforço se aproximam dos limites “e/ou” quando o crédito corresponde a mais de 90% do valor da casa. Ou seja, por muito bons que sejam os rendimentos dos clientes, face ao valor da prestação, um crédito que ultrapasse o rácio loan to value (LTV) de 90% já será sempre considerado “de alto risco”.
Também em resposta ao Observador, sobre se a medida deve continuar para lá de 2026, Miguel Maya preferiu dizer que o que o banco defende é que “os jovens que tenham capacidade financeira, em início de carreira, não devem ficar condicionados de comprar casa por não terem 10% de entrada”.
É muito importante apoiar os jovens e não pedir a estes jovens, aqueles que não tenham pais que lhe possam dar o valor da entrada, para estarem três anos a pagar uma renda e ainda mais, acima disso, acumular os tais 10%”, afirmou Miguel Maya.
O banco concedeu 300 milhões de euros em crédito com garantia pública no primeiro trimestre, operações que representaram cerca de 40% do total de produção de crédito para compra de habitação própria e permanente. O plafond atribuído ao banco, pelo Ministério das Finanças, já foi esgotado e foi pedido um reforço – algo que já foi atribuído ao BCP, na ordem de 150 milhões euros.
https://observador.pt/2026/04/23/banco-de-portugal-prepara-medidas-para-arrefecer-credito-a-habitacao-aquecido-pela-garantia-publica/