Não há propriamente estudos científicos sobre isto, mas, ainda assim, sinto-me à vontade para afirmar que não deve haver profissão no mundo com tamanha percentagem de sujeitos avessos aos comportamentos sociais da norma do que a de músico rock.
Da super-estrela que vendeu milhões de discos (Cobain) ao tipo que nunca saiu do culto (Mark Linkous), do artista que teve uma carreira longa (Bowie) a quem se esfumou como fósforo em dia de vento (as Slits), encontrar músicos rock que adiram às normas sociais que a maior parte da sociedade ocidental considera as corretas é extremamente difícil.
No meio dessa longuíssima lista, talvez nunca nenhuma tenha sido tão disfuncional como os Butthole Surfers. Felizmente, o documentário The Hole Truth and Nothing Butt vem iluminar as nossas dúvidas sobre o que realmente aconteceu e porque é que eles eram assim (o filme passa no IndieLisboa esta quinta-feira, dia 7 — Culturgest, 18h45 —, e no domingo, dia 10 (São Jorge, 21h45, depois de ter feitio parte do cartaz do festival Porto/Post/Doc do ano passado).
A relação de cada pessoa com os Butthole Surfers dependerá de muitas coisas – desde logo o gosto musical –, mas também da idade: eu descobri-os no início dos anos 90, por alturas de Independent Warm Saloon; pouco depois tiveram o seu único êxito, Pepper; acontece que isso sucedeu ao mesmo tempo que o grunge explodiu, pelo que nunca mais ouvi falar deles, só fui descobrindo, como colecionador, os estranhíssimos e maravilhosos álbuns anteriores.
E o que é que eu sabia deles? Nada. Isto é pré-internet, note-se, e as notícias que nos chegavam fazim-no através do amigo que tinha ido a Londres e lido qualquer coisa no NME que, por norma, envolvia incêndios nos concertos, nudez e (dizia-se) até mesmo sexo. Aparentemente, todas as bandas de que gostávamos (os Melvins, os Sonic Youth) adoravam-nos. Aparentemente, eles comportavam-se como delinquentes. Eu perguntava-me se não havia nisto uma dose de mito. Neste momento, sinto-me à vontade para dizer que não
No início do documentário temos aquilo a que podemos chamar contextualização solta, ou isco pré-contexto: isto é, músicos mais ou menos conhecidos com one liners sobre a banda. Flea, dos Red Hot Chili Peppers, diz que os Butthole Surfers são o tipo de coisa que só pode acontecer uma vez num determinado tempo e espaço. Outros músicos afirmam que eles eram assustadores, outros ainda dizem que era a melhor banda ao vivo da sua época.
Depois vem o contexto introdutório: na prática, os Butthole Surfers eram Paul Leary e Gibby Haynes. Podíamos esperar que dada a mitologia em torno da banda eles viessem de trailer parks, mas não: Paul Leary, já velhote, diz agora que nenhuma mãe sonha com o filho tornar-se membro dos Butthole Surfers, isto antes de admitir que agora está mais normal do que nunca, quase parece um velho que trabalha num armazém, atira, em jeito de piada.
https://www.youtube.com/watch?v=vQ3Q9zEd5jo
É surpreendente saber que o pai de Paul era professor universitário na Trinity University. Mas desde cedo que nem tudo estava bem na vida do garoto: onde Paul sempre se sentiu à vontade foi no mundo da arte, em particular no desenho. Desenhava desde pequenino – acima de tudo, crianças a vomitar aos pés do pai. Paul descreve-se como alguém que se sentia estranho comparado com os outros e só queria ser uma pessoa normal. Estudou finanças e pensava ter uma carreira na bolsa – mas só pensava em arte.
Ainda mais surpreendidos ficamos quando nos apresentam Gibby Haynes, nessa altura, como o melhor estudante de Contabilidade e Economia da mesma universidade de Paul, além de ser a estrela da equipa de básquete. Como se não bastasse, era conhecido desde pequenino, já que o seu pai, Jerry Haines, desempenhava o papel de Mr Peppermint, função que desempenhou durante 30 anos na televisão para crianças.
Gibby estava, no que diz respeito à contra-cultura, um passo à frente de Paul: foi o primeiro quem mostrou ao segundo os Ramones e os Joy Division. Discutiam arte e o Gibby Haynes atual afirma que Duchamp foi o primeiro punk. A dada altura, nos primórdios da sua arte simultaneamente performativa e chocante, resolveram vender T-shrirts e lençóis com a cara de Lee Harvey Oswald estampada.
Por norma, as bandas começam porque um tipo sabe tocar 3 acordes numa guitarra e conhece alguém que sabe cantar. Depois arranjam alguém para o baixo e a bateria. No caso, Gibby tinha uma guitarra, encontrou gente para o baixo e a bateria e depois descobriram que o Paul era um mestre a tocar guitarra, instrumento que começara a aprender aos 5 anos.
Pelos idos de março de 81 já tocavam na zona de San Antonio e começavam a criar algum nome. Gibby arranjou emprego na maior companhia de contabilidade da zona – e foi aí que começou a despir-se: chegava aos ensaios, começava a tirar o fato e acabava nu. Paul não acaba o mestrado e não consegue emprego. Por sua vez, Gibby larga o emprego. Vão para a Califórnia em 1982 e já então os descrevem como freak rock. Ninguém falava em college rock ou alternative rock ou grunge, nesta altura. A contra-cultura estava a nascer.
Para não revelar o filme todo, vou enumerar alguns dos itens abordados no documentário antes de chegar ao final, que é particularmente importante: o grande Jello Biafra oferece-lhes o primeiro contrato de edição (e pelo meio eles perdem o baterista e o baixista e hão-de perder muitos baixistas ao longo da carreira). Arranjam um baterista gay, King, e uma baterista lésbica, Teresa Nervosa. Todos eles falam no documentário.
1983 foi o ano do 1º EP e vão para a estrada com um espírito de missão: criar os espectáculos mais provocadores alguma vez vistos. Começam a encenar os concertos, a pôr molas de roupa no cabelo, usam sangue falso e animais de peluche que destruíam. Não tinham dinheiro para comer decentemente, pelo que dormiam na casa de outras pessoas.

Há uma fase em que começam a perseguir os REM e depois assinam pela Touch&Go e vão tocar a festivais na Europa – num deles, Gibby bebe whiskey e mistura com ácido; depois do concerto, desaparece nu e anda à pancada com inúmeras pessoas. A seguir, invadiu o concerto de Nick Cave e foi espancado.
Paul queria deixar a banda, mas os europeus adoraram. Mais um baixista deixa a banda, sendo substituído por JD Pinkus. Tocam muito num bar de drag, o Celebrity Club, onde conhecem Kathleen, que começa a atuar com eles, nua (com dildos e o que mais lhe apetecesse). Em 1986 começam também a projetar filmes nos concertos. Digamos que não eram filmes para a família.
Note-se que eles nunca pararam de fazer discos – e que a dada altura vendiam bastante para uma banda pequena. Por um desacordo na percentagem que recebiam resolvem processar a editora, o que leva Steve Albini a dizer que eles são algumas das piores pessoas que alguma vez vira.
Por esta altura estamos no final dos anos 80, já se fala em rock alternativo e bandas como os Mudhoney e os Nirvana estão quase a aparecer e a explodir. Os Butthole Surfers são convidados para o Lolapalooza e aparecem de chumbeira, aos tiros para o ar, o que, convenhamos, é completamente absurdo.
É por aqui que assinam pela Capital Records, que fazem um dos discos que mais vende na sua carreira (Independent Warm Saloon) e que Gibby começa a meter-se na heroína e vai viver para casa de Johny Depp. Gibby também funciona como rato de laboratório das experiências de Tim Leary com novas drogas. Esta época é particularmente negra: Gibby estava em palco, a tocar com Johny Depp, no momento em que River Phoenix morreu, à porta do Viper Room, o clube de Depp. Ironicamente, é neste altura que a banda tem o seu grande êxito, Pepper.
Vamos pôr as coisas assim: no fim eles, mais velhos e mais calmos, explicam algumas coisas que lhes aconteceram na vida e que de certa forma contextualizam todo este comportamento. No fim, é um documentário espantoso.