A promessa de uma viagem de sonho. Desde a remota cidade de Ushuaia, no extremo sul da Argentina, onde o arquipélago da Terra do Fogo é conhecido como o “fim do mundo”, até às praias paradisíacas de Cabo Verde, num trajeto de mês e meio por algumas das paisagens naturais mais inóspitas e selvagens do planeta, da ilha de Tristão da Cunha à de Santa Helena. Era este o plano dos cerca de 150 passageiros, de 23 países (incluindo um português, que faz parte da tripulação), a bordo do cruzeiro MV Hondius, de bandeira neerlandesa, um plano que se tornou um pesadelo com o surgimento a bordo de casos de infeção por hantavírus.
Num navio que combina o luxo interior de um cruzeiro — com quartos espaçosos, elegantes e confortáveis — e a capacidade de navegação de um quebra-gelo, o cenário lembra, por estes dias, o início da pandemia de covid-19 transposto para alto mar. As primeiras mortes, cinco pessoas doentes, a espera pelos resultados dos testes para confirmação da infeção, o rastreio de contactos dos casos já identificados e o confinamento. Longe parecem os dias em que os passageiros desfrutavam da observação de pássaros raros, pinguins, golfinhos e outros animais no seu habitat natural.
O presente é vivido a bordo pelos passageiros numa espécie de realidade paralela, entre a intranquilidade e atenção constante a qualquer sintoma que possa indiciar a infeção por hantavírus, confinados durante grande parte do tempo aos respetivos quartos, a incerteza sobre o futuro face à impossibilidade de poderem desembarcar e a tentativa de manutenção de alguma normalidade, segundo relatos partilhados em diversos meios internacionais, como o El País, a BBC ou a CNN.

A tripulação continua a fornecer uma ementa de alto nível e não faltam lagostas, sopas de abóbora e gengibre, risottos ou pannacottas, quase sempre entregues à porta do quarto, enquanto a área de refeição e os espaços de convívio permanecem praticamente desertos. Segundo as informações divulgadas online pela companhia Oceanwide Expeditions, detentora do MV Hondius, uma viagem destas pode custar entre 15 e 25 mil euros.
A incerteza, aliás, transcende o casco do MV Hondius, repercutindo-se nas reações dos estados de onde são oriundos os passageiros — como Países Baixos, EUA, Reino Unido ou Alemanha — na Organização Mundial de Saúde (OMS) e nos países na rota do navio, como Cabo Verde, o destino no qual só desembarcaram três casos mais graves de infeção. O futuro imediato passa pelas Canárias, depois de o Governo espanhol ter autorizado a chegada do MV Hondius, numa negociação envolta em polémica, já que as autoridades regionais das Canárias eram contra receberem a embarcação face aos riscos de saúde. Agora está previsto que cheguem este sábado, dia 9, e desembraquem sem contactos diretamente para os seus países, a não ser que estejam doentes.
Diário de bordo da viagem
20 de março
A primeira partida desde a Tierra del Fuego, na região da Patagónia, na Argentina, rumo à Antártida e com regresso alguns dias depois a Ushuaia para a travessia definitiva.
1 de abril
O MV Hondius parte de vez de Ushuaia, com quase 150 passageiros a bordo.
6 de abril
Um cidadão neerlandês, de 70 anos, adoece, apresentando os seguintes sintomas: febre, dor de cabeça, dor abdominal, diarreia e dificuldades respiratórias. Os problemas de respiração não tardarão a agravar-se.
11 de abril
Morre o cidadão neerlandês que estava doente. A ocorrência não é uma absoluta surpresa neste tipo de viagens e expedições, já que a maioria dos passageiros tem uma idade avançada. A causa da morte não pode ser logo determinada e o cadáver segue a bordo da embarcação durante quase duas semanas, até à paragem seguinte do itinerário.
24 de abril
O MV Hondius atraca na remota ilha de Santa Helena, a cerca de 2.000 quilómetros da costa de Angola. O corpo do cidadão neerlandês é retirado e nessa paragem sai também a sua mulher, de 69 anos. Iria começar a tratar dos procedimentos de repatriação do cadáver, mas começa também a apresentar sintomas gastrointestinais. A bordo do navio há ainda um cidadão britânico que apresenta as primeiras queixas junto do médico, sinalizando problemas respiratórios e febre, num quadro clínico compatível com pneumonia.
25 de abril
A cidadã neerlandesa viaja de avião para a África do Sul, numa viagem que incluía o cadáver do marido. A mulher de 69 anos acaba por se sentir pior durante o voo e desmaia no aeroporto de Joanesburgo, sendo então internada no hospital.
26 de abril
Um dia depois de ter dado entrada num hospital sul-africano, morre a cidadã neerlandesa, mulher da primeira vítima mortal a bordo do MV Hondius. Entretanto, o navio chega à ilha de Ascensão, que faz parte do território ultramarino britânico também composto pelas ilhas de Santa Helena e Tristão da Cunha.
27 de abril
O cidadão britânico que estava doente é retirado da embarcação e levado de avião para a África do Sul, onde é internado no hospital, encontrando-se ainda nos cuidados intensivos.
28 de abril
Uma cidadã alemã manifesta mal-estar físico e desenvolve sintomas de pneumonia, com o seu estado de saúde a agravar-se muito rapidamente.
2 de maio
Quatro dias depois de evidenciar as primeiras queixas de saúde, a mulher alemã morre, sem que estejam já confirmadas as causas associadas ao óbito. As autoridades continuam a tratar esta situação apenas como um caso suspeito. Porém, também nesse dia são conhecidos os resultados laboratoriais dos exames realizados na África do Sul ao cidadão britânico internado nos cuidados intensivos, depois de ter dado entrada no hospital no dia 27, com os resultados a apontarem para uma infeção por hantavírus. Não muito depois surge o mesmo veredito em relação à cidadã neerlandesa que tinha morrido no dia 26. A preocupação com o contágio por hantavírus passa a ser uma preocupação bem real.
3 de maio
O cruzeiro aproxima-se de Cabo Verde, o destino final da viagem, e três outros passageiros apresentam febre alta e queixas gastrointestinais, mas não há autorização para atracar ou desembarcar passageiros doentes. No entanto, equipas médicas cabo-verdianas deslocam-se a bordo do MV Hondius para dar apoio, analisar os doentes a bordo e começar a recolher amostras para análise. Sabe-se igualmente neste dia que um dos doentes em estado grave é o médico do cruzeiro.
4 de maio
As notícias sobre o hantavírus começam a ganhar expressão internacional e o navio fica ancorado junto ao porto da Praia, enquanto se procura uma solução e as autoridades sanitárias tentam encontrar a origem da infeção. Começam a espalhar-se nas redes sociais os primeiros vídeos de passageiros, como o do influencer de viagens norte-americano Jake Rosmarin. “O que está a acontecer neste momento é muito real para todos nós aqui. Não somos apenas uma história. Não somos apenas manchetes”, afirmou.
https://observador.pt/2026/05/05/nao-somos-manchetes-somos-pessoas-passageiro-a-bordo-do-cruzeiro-hondius-diz-que-incerteza-e-a-parte-mais-dificil/
5 de maio
O Governo espanhol anuncia que está disponível para receber o navio e que este irá para as Canárias, apesar das reservas das autoridades regionais. A decisão foi tomada pelo executivo de Pedro Sánchez depois dos pedidos efetuados pela Comissão Europeia e a OMS nesse sentido. A viagem deverá durar três dias, sensivelmente.
6 de maio
Três passageiros foram retirados do MV Hondius esta quarta-feira: um cidadão britânico, outro cidadão neerlandês e uma cidadã alemã.
Paralelamente, um cidadão suíço que tinha integrado a primeira parte da viagem do cruzeiro, entre Ushuaia (1 de abril) e Santa Helena (24 de abril), apresentou-se no hospital de Zurique com sintomas condizentes com as queixas decorrentes da infeção pelo hantavírus. Os testes entretanto efetuados confirmaram as suspeitas, mas a sua mulher — que o acompanhou na expedição — permanece assintomática, tendo ficado por precaução em autoisolamento.
Foi também nesta quarta-feira que ficou confirmada a difusão da estirpe dos Andes, a única transmissível entre humanos nas variantes do hantavírus. As autoridades sanitárias procuram traçar o historial epidemiológico, rastreando contactos que tenham estado com casos confirmados de infeção, nomeadamente os cerca de 80 passageiros que seguiram com a cidadã neerlandesa no voo entre Santa Helena e Joanesburgo.
Um semiconfinamento com passeios higiénicos pelo convés
As primeiras duas mortes, com o casal neerlandês a morrer nos dias 11 e 26 de abril, logo seguido de um terceiro foco de infeção geraram o alarme a bordo. A terceira morte, no dia 2, confirmou os piores receios e conduziu a uma lógica de quarentena similar à pandemia da Covid, quando até então os discursos que circulavam a bordo apontavam para uma situação não infecciosa. O facto de um dos doentes ser o médico da embarcação potenciou ainda mais a preocupação no MV Hondius, uma vez que este tinha estado junto de dezenas de pessoas nos últimos dias para observação clínica.
Agora, as imagens que circulam online da vida quotidiana no navio retratam um panorama singular. Os salões do MV Hondius, habitualmente preenchidos com os passageiros a conviver, estão vazios e silenciosos. Veem-se profissionais de saúde vestidos com equipamento de proteção a embarcar e a desembarcar. Doentes são retirados para serem transportados para o hospital e os passageiros remetem-se durante quase todo o tempo aos respetivos quartos.
https://observador.pt/2026/05/06/risotto-filmes-e-incerteza-como-estao-a-viver-os-passageiros-a-bordo-do-cruzeiro-com-um-surto-de-hantavirus-no-atlantico/
Contudo, as refeições continuam à altura do padrão de luxo que estava associado à viagem a bordo do MV Hondius. Segundo contou o jornal El Español, o menu de segunda-feira incluía uma sopa de abóbora e gengibre “suave e aromática”, um prato de ‘mar e terra, com lagosta de Tristão da Cunha e lombo de vaca acompanhados de molho de vinho tinto a unir “ambos os sabores”, e uma pannacotta de cenoura com especiarias como sobremesa.
Por outro lado, predomina o distanciamento social, o uso de máscaras de proteção e foi retomado o hábito de higienização frequente das mãos: um déjà vu da pandemia, com as pessoas a tentarem preencher o tempo com filmes, séries ou livros, evitando grandes conversas sobre o único tema de conversa a bordo atualmente.
O confinamento aos camarotes não é uma imposição permanente, pois os passageiros podem fazer ‘turnos’ de saída para o convés, o único espaço autorizado para passeios ‘higiénicos’. Aqui, os mais de 140 passageiros a bordo têm, todavia, de manter a distância e restringir ao máximo os contactos, caminhando em grupos muito pequenos, uma vez que a infeção por hantavírus está associada a uma grande proximidade com pessoas que estejam infetadas.
O hantavírus é habitualmente transmitido por roedores e pode disseminar-se entre seres humanos em casos raros, provocando sintomas iniciais similares a uma gripe. No entanto, cerca de 40% dos casos levam à morte do paciente.
https://observador.pt/2026/05/04/o-que-e-o-hantavirus-responsavel-pelo-surto-que-fez-tres-mortos-e-tres-doentes-num-cruzeiro-no-atlantico/
A evolução da informação e as reações da OMS
O surto a bordo do MV Hondius ganhou ecos internacionais sobretudo com a terceira morte, no último sábado. Na sequência dessa situação, a Organização Mundial da Saúde (OMS) confirmou na segunda-feira a existência de casos de síndrome respiratória aguda grave, com o primeiro resultado oficial de infeção por hantavírus, acrescentando que estavam em curso investigações e uma resposta internacional coordenada de saúde pública.
“Hoje, um caso de infeção por hantavirus foi confirmado em laboratório e cinco outros casos são suspeitos. Das seis pessoas afetadas, três morreram e uma está atualmente em cuidados intensivos na África do Sul”, disse, então, fonte da OMS à agência France Presse.
Seja pela voz do diretor-geral, Tedros Adhanom Gebreyesus, ou pela diretora de Prevenção e Preparação, Maria Van Kerkhove, a OMS tem sinalizado publicamente que não há razões para alarme ou medidas restritivas, assegurando estar a monitorizar de perto a situação com as autoridades sanitárias locais. A avaliação realizada pela organização internacional é de baixo risco. Segundo a OMS, os relatos de doença a bordo foram recebidos entre os dias 6 e 28 de abril, assentes sobretudo febre e sintomas gastrointestinais, com rápida progressão para pneumonia, síndrome respiratória aguda e choque.
https://twitter.com/DrTedros/status/2052069085719019723
A infeção por hantavírus — cuja incubação leva entre uma a quatro semanas — não tem cura, com as autoridades sanitárias a abordarem apenas a gestão e tratamento dos sintomas.
Na sua mais recente atualização, esta quarta-feira, Tedros Adhanom Gebreyesus sublinhou que a OMS “está a colaborar com os países envolvidos para apoiar o rastreio internacional de contactos, de modo a garantir que as pessoas potencialmente expostas sejam monitorizadas e que se limite qualquer propagação adicional da doença”.
O responsável da OMS confirmou também a estirpe dos Andes, oriunda da América do Sul, tendo sido identificada pelo Instituto Nacional de Doenças Transmissíveis da África do Sul e pelos Hospitais Universitários de Genebra (HUG), na Suíça. Segundo Gebreyesus, foram identificados até ao momento oito casos, dos quais cinco situações estão confirmadas como hantavírus em testes laboratoriais e outros três casos são ainda apenas suspeitos de infeção.
“A OMS continuará a trabalhar com os países para garantir que os doentes, contactos, passageiros e tripulação tenham a informação e o apoio de que necessitam para se manterem seguros e prevenir a propagação”, concluiu o líder da OMS.
Em simultâneo com o acompanhamento da situação clínica dos passageiros, as autoridades procuraram traçar a origem da infeção. Segundo a Associated Press avançou esta quarta-feira, o Governo argentino acredita que a origem do contágio estará no casal neerlandês que foi fazer observação de pássaros num aterro sanitário em Ushuaia e que acabou por morrer nos dias 11 e 26 de abril, revelaram investigadores argentinos.
A teoria é que poderão ter levado o vírus para dentro do navio, após terem tido algum tipo de contacto com roedores (urina, fezes ou saliva) que poderiam ser portadores do mesmo.
A certeza do futuro repatriamento e a incerteza do presente dos passageiros
Depois de alguma indefinição, o MV Hondius tem um destino: as Canárias, com chegada prevista para sábado ao porto de Granadilla de Abona, a cerca de 10 minutos do aeroporto de Tenerife. O presidente do governo regional das Canárias, Fernando Clavijo, opôs-se à chegada da embarcação neerlandesa, ao alegar falta de segurança e risco sanitário para a população local. Contudo, o Governo espanhol cedeu à pressão internacional e admitiu que o MV Hondius poderia atracar nas Canárias.
https://observador.pt/2026/05/06/hantavirus-navio-de-cruzeiro-hondius-vai-atracar-em-tenerife-confirma-ministerio-da-saude-espanhol/
“Os passageiros e tripulantes estão atualmente assintomáticos”, garantiu esta quarta-feira a ministra espanhola da Saúde, Mónica Garcia, assinalando de seguida que os passageiros serão repatriados para os seus países de origem (a menos que o seu estado de saúde implique assistência hospitalar nas Canárias. Para o governo espanhol, a assistência aos passageiros do MV Hondius é uma “obrigação moral e legal“, um argumento que repete o anúncio da véspera pelo Ministério da Saúde: “Espanha acolherá o navio MV Hondius nas Ilhas Canárias em cumprimento do Direito Internacional e do espírito humanitário”.
Se esse futuro parece agora certo, o presente tem sido bem mais incerto. Três casos suspeitos de terem contraído hantavírus no navio cruzeiro MV Hondius foram retirados esta quarta-feira da embarcação em Cabo Verde, com a cidade da Praia no horizonte, e seguiram viagem para os Países Baixos.
No entanto, o avião em que seguiam viu o reabastecimento de combustível previsto para Marrocos ser rejeitado, surgindo como plano alternativo uma paragem técnica nas Canárias. Mais: o avião teve de ser substituído, segundo o governo espanhol, citado pelo El Mundo, uma vez que a aeronave registou uma falha do sistema elétrico de “suporte ao doente”.

Os doentes acabaram por ser distribuídos por duas aeronaves, tendo uma delas já chegado a Amesterdão ao final do dia com dois passageiros a bordo.
Antes do navio deixar a costa de Cabo Verde, chegou a ser discutida a retirada do corpo da terceira vítima mortal, a cidadã alemã que morreu no passado sábado. Porém, o corpo será levado para as ilhas espanholas porque as autoridades de Cabo Verde “não conseguiam tratar do corpo e cremá-lo”. Ann Lindstrand, representante da OMS em Cabo verde, vincou ainda que o cadáver “está a ser mantido num quarto frio e vai com o barco” até às Canárias.
Ao final da tarde desta quarta-feira, o MV Hondiu teve, finalmente, autorização para deixar as águas de Cabo Verde. Seguem-se as Canárias, o anunciado último capítulo desta viagem.
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