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“Amor em Quatro Letras”: um melodrama irlandês lavado em lágrimas e pesado de melaço

Realizado por Polly Steele e baseado no "best-seller" de Niall Williams, "Amor em Quatro Letras" passa-se na Irlanda, nos anos 70, e envolve duas famílias. Eurico de Barros dá-lhe duas estrelas.

Eurico de Barros
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Como é que reagiam se o vosso pai, que garantia o sustento da família com o seu emprego, chegasse um dia a casa e anunciasse que se tinha despedido porque tinha tido uma revelação, e a partir daí ia só dedicar-se à pintura? É o que acontece, certo dia do ano de 1971, à família irlandesa dos Coghlan, em Amor em Quatro Letras, de Polly Steele, adaptado pelo escritor e dramaturgo Niall Williams do seu best-seller com o mesmo título. William Coghland (Pierce Brosnan) comunica ao filho Nicholas (Fionn O’Shea) e à mulher Bette (Imelda May) que abandonou o seu monótono mas seguro emprego de funcionário público para ser pintor, vai deixar Dublin, onde vivem, rumar à costa oeste do país à procura de inspiração, e eles que se amanhem.

[Veja o “trailer” de “Quatro Letras de Amor”:]

https://www.youtube.com/watch?v=5adLGQXpwR8

Ao mesmo tempo, numa pequena ilha dessa mesma costa oeste da Irlanda para onde William quer ir pintar, outra família está em choque. O irmão de Isabel Gore (Anne Skelly) teve um súbito e inexplicável colapso e ficou incapacitado numa cadeira de rodas, para imenso desgosto da irmã, do pai Muiris, um poeta sonhador (Gabriel Byrne) e da mãe Margaret, uma professora (Helena Bonham-Carter). Estes decidem então enviar a filha para um colégio de freiras no continente, ao qual Isabel não se vai adaptar e de onde foge. Regressa depois, mas acaba por ser expulsa. Após várias peripécias, um quadro pintado por William acaba em casa dos Gore, e vai fazer com que Nicholas e Isabel se conheçam.

[Veja uma entrevista com o escritor e argumentista Niall Williams:]

https://www.youtube.com/watch?v=uMRB9L2AJiE

Labutando sobre temas consagrados do género — as tragédias familiares e a forma como aproximam ou afastam os seus membros, a força do destino e o poder inefável do amor —, Amor em Quatro Letras é um melodrama de elevada potência lacrimal, que investe a fundo na beleza agreste da paisagem da Irlanda, e numa banda sonora  muito pouco discreta na forma como enfatiza as desgraças, os transes emocionais e as situações sentimentais do guião, namorando também com o sobrenatural (há fantasmas, mas bonzinhos). A realizadora Polly Steele e Niall Williams, qual versão irlandesa de Nicholas Sparks, não recuam perante nada — nem o bolorento cliché do desvio da correspondência entre os apaixonados contrariados pela mãe de um deles —, para levarem a água (muito pesada de melaço) ao seu moinho melodramático.

Os atores, com os excelentes e sempre fiáveis Brosnan, Byrne e Bonham-Carter à cabeça, dão o que podem, embora as personagens que aqui habitam, limitadas e esquemáticas, não lhes peçam muito em termos dramáticos; o argumento é retorcido e força as coincidências até ao ponto de se tornar inverosímil; e o final, em que o famigerado quadro pintado por William e que nunca vemos até aí, proporciona uma revelação que sugere a ação invisível de forças “cósmicas” sobre os protagonistas para conduzir tudo a bom porto e trazer a felicidade aos vivos e a paz aos mortos, é francamente ridículo. Amor em Quatro Letras talvez satisfaça os apreciadores (menos exigentes) de melodramas. Todos os restantes poderão abster-se. É que a fita é mesmo pegajosa.