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De aliados a rivais? Relação entre Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos reconfigura Médio Oriente

Antigo aliados, países alteram a geopolítica do Médio Oriente. Arábia Saudita aproxima-se da Turquia e Egito, enquanto Emirados aprofundam relações com Israel. É "parceria competitiva" ou rivalidade?

José Carlos Duarte
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Em novembro, o príncipe herdeiro saudita, Mohammed bin Salman, visitou a Casa Branca e encontrou-se com o “amigo” Donald Trump. No meio de jantares glamorosos que contaram com a presença de Cristiano Ronaldo e multimilionários, o membro mais importante da coroa saudita terá tentando persuadir o Presidente norte-americano a impor sanções contra os Emirados Árabes Unidos, um dos seus supostos parceiros no Golfo Pérsico. Os líderes emiradenses ficaram surpreendidos, mas não foram apanhados totalmente desprevenidos, já que os dois países acumulavam meses de tensão.

Num contexto de fricção crescente, não é surpreendente que oito meses depois os Emirados Árabes Unidos tenham abandonado a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP). Não foi apenas esta decisão em si que contou, mas a forma como foi operacionalizada: Abu Dhabi comunicou a saída com apenas alguns dias de antecedência e sem aviso prévio à liderança do cartel que, há décadas, coordena a produção de petróleo. Gestos que demonstravam claramente o seu descontentamento em relação à Arábia Saudita — o país que mais beneficia economicamente com esta organização e com os preços elevados do crude.

Durante décadas, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos pareciam aliados inseparáveis. Duas monarquias com líderes fortes, regimes ancorados na sharia (a lei islâmica) e economias bastante dependentes do petróleo. Ambos resistiram à Primavera Árabe e aos movimentos mais radicais do Islão. O principal aliado de Abu Dhabi e Riade era o mesmo: os Estados Unidos da América. O principal inimigo também: a República Islâmica iraniana. Havia muito a uni-los. Mas, curiosamente, foi a atual guerra no Irão que tornou a rutura entre os dois países impossível de esconder: deixaram de agir como um bloco único, tendo interesses geopolíticos claramente distintos.

Na relação entre os dois países, a Arábia Saudita funcionava como uma espécie de irmã mais velha e os Emirados comportavam‑se como um parceiro mais novo, geralmente obediente. Porém, esta dinâmica começou a esbater‑se há alguns anos. A rivalidade e a competição foram crescendo ao longo da última década, principalmente após um acontecimento que mudou para sempre a dinâmica do Médio Oriente: a decisão de Abu Dhabi de aderir aos Acordos de Abraão e estabelecer relações diplomáticas abertas com Israel. Apesar de haver promessas de que Riade se juntará, a coroa saudita ainda não tomou esse passo — e a guerra na Faixa de Gaza veio adensar as dúvidas.

A tensão entre as duas monarquias já extravasou as fronteiras do Golfo Pérsico, chegando a África. A Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos estão envolvidos em conflitos por procuração, apoiando fações distintas no Iémen, na Somália e no Sudão. Ambos querem ganhar influência em diferentes regiões do mundo. Em simultâneo, está a aumentar a rivalidade económica: Riade olha com alguma cobiça e ressentimento para a forma como os Emirados desenvolveram a sua economia nos últimos anos e se converteram num pólo económico e turístico no Médio Oriente, ficando menos dependente das exportações de petróleo.

A “ambição” de querer ser uma potência tecnológica. Como começou a rivalidade

Centros comerciais com lojas de luxo, um dos aeroportos mais movimentados do mundo, o arranha‑céus mais alto do planeta (o Burj Khalifa) e nómadas digitais: esta é a imagem que muitos têm dos Emirados Árabes Unidos atualmente. No imaginário coletivo, fica em segundo plano o facto de o país continuar a depender economicamente das receitas do petróleo e de gás natural e de continuar a ser, para além das aparências, um regime conservador e islâmico. Cidades como Dubai e Abu Dhabi tornaram‑se destinos apetecíveis para muitos ocidentais construírem vida numa bolha confortável, onde se pagam poucos impostos.

A projeção internacional que os Emirados Árabes Unidos foram ganhando nos últimos anos deu a confiança necessária ao Presidente Mohamed bin Zayed Al Nahyan para empreender voos mais altos. O país pretende ser agora uma referência na área da inteligência artificial e na instalação de grandes centros de dados, atraindo investimentos milionários e talento de várias partes do mundo. A partir deste capital económico e tecnológico, os Emirados têm ganhado espaço para se afirmar como uma potência regional — e para o converter em capital geopolítico.

O aumento de protagonismo dos Emirados Árabes Unidos tem mexido inevitavelmente com as dinâmicas do Golfo Pérsico, uma região onde a Arábia Saudita durante décadas se viu como rainha e senhora. Era a principal potência política, ganhando ainda mais simbolismo no mundo muçulmano, em particular entre sunitas, por acolher as cidades sagradas de Meca e Medina. Para muitos ocidentais, o país continua a ser encarado como conservador e profundamente religioso — o que afasta investidores e turistas.

Isso deverá mudar nas próximas décadas. O príncipe herdeiro da coroa saudita quer alterar totalmente a perceção do país. Jovem e dinâmico, Mohammed bin Salman deseja transformar a Arábia Saudita num pólo de investimentos e de turismo. Para isso, colocou em marcha o ambicioso programa Visão 2030, que prevê uma série de estratégias para Riade diversificar a sua economia para lá do petróleo até àquele ano, incluindo em paralelo uma progressiva abertura em várias áreas sociais, nomeadamente nos direitos das mulheres. Em termos de reputação, a coroa saudita tem apostado também na contratação de estrelas do futebol, como Cristiano Ronaldo, para melhorar a sua imagem internacional.

Ora, é a partir daqui que os dois países colidem. A estratégia económica é quase a mesma: diversificar a economia e tornar-se uma potência na tecnologia de ponta. Os Emirados estão à frente, mas a Arábia Saudita quer aproximar-se a todo o custo “Ambos os Estados estão a implementar planos ambiciosos de diversificação que inevitavelmente geram competição no que toca ao investimento, logística, turismo, finanças e influência regional”, diz, em declarações ao Observador, o especialista no Médio Oriente Robert Mason.

Por sua vez, Hala Abi‑Saleh, doutoranda em Relações Internacionais na Université Catholique de Louvain e especialista em política externa da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos, sublinha ao Observador como as dinâmicas económicas estão a moldar as relações entre as duas monarquias e a forma como se posicionam: “Historicamente, a Arábia Saudita foi a potência hegemónica regional indiscutível e o centro de gravidade dos países do Golfo. No entanto, nas últimas duas décadas, os Emirados Árabes Unidos emergiram como um país altamente assertivo. Embora os interesses de Abu Dhabi por vezes se alinhem com os de Riade, o país tem traçado cada vez mais um caminho independente que desafia explicitamente a hierarquia tradicional do Golfo e a liderança saudita.”

A guerra no Irão. O conflito que veio colocar a nu as divergências entre os países

O clima de competição financeira já estava a acentuar‑se antes de 28 de fevereiro de 2026. Os Emirados Árabes Unidos querem manter a hegemonia como hub tecnológico, ao passo que a Arábia Saudita ambiciona alcançar precisamente esse estatuto. Para isso, o Governo saudita tem prometido benefícios estatais a empresas que instalem as suas sedes no país — incluindo isenções fiscais de até 30 anos — ao mesmo tempo que torna o ambiente empresarial bastante mais permissivo para atrair investimento estrangeiro. A estratégia implícita saudita consiste em desviar negócios de Dubai e Abu Dhabi para Riade ou Jeddah.

A guerra no Irão e todas as suas repercussões vieram acelerar a disputa entre os dois países para se tornarem a principal referência empresarial na região. Com o recurso a drones e mísseis, o regime iraniano atacou território saudita e emiradense. Para lá dos prejuízos económicos que isso representa, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos desejam aproveitar o conflito para imporem a sua visão estratégica — e, quem sabe, colherem dividendos futuros.

“Embora o conflito em larga escala com o Irão represente uma ameaça sistémica para ambos os países, as consequências estratégicas da guerra vão variar”, refere Hala Abi‑Saleh. É certo que, perante a ameaça iraniana, os dois países se uniram na condenação aos ataques da República Islâmica, que veem assumidamente como uma rival. Quando o Irão voltou a atacar território dos Emirados Árabes Unidos durante esta semana, a Arábia Saudita voltou a sair em defesa de Abu Dhabi, denunciando “as agressões iranianas injustificadas”.

Para Robert Mason, existem diferentes “perceções de ameaças e prioridades económicas” para os dois países, que se tornaram “mais visíveis” recentemente. O especialista recorda que os Emirados “estão mais expostos” às consequências do comércio marítimo internacional e à situação no estreito de Ormuz, o que os leva a adotar uma posição mais dura em relação ao Irão. Por sua vez, a Arábia Saudita está “mais orientada” para manter boas relações com os vizinhos e está mais concentrada na política doméstica de “implementar o Visão 2030”.

“Embora o conflito em larga escala com o Irão represente uma ameaça sistémica para ambos os países, as consequências estratégicas da guerra vão variar."
Hala Abi‑Saleh, doutoranda em Relações Internacionais na Université Catholique de Louvain e especialista em política externa da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos

Com mais detalhe, Hala Abi‑Saleh destrinça as diferentes abordagens em relação ao conflito no Irão. Para a Arábia Saudita, a “estabilidade regional é uma condição não negociável para implementar o Visão 2030”: “A paz é essencial para atrair investimento direto estrangeiro e para diversificar a economia dos hidrocarbonetos”. No que toca aos Emirados Árabes Unidos, a prioridade consiste em “salvaguardar o estatuto global como hub financeiro e logístico”: “Este modelo é altamente sensível à segurança marítima e à reputação internacional; qualquer perceção de instabilidade ameaça o estatuto de refúgio seguro”.

A partir destes pressupostos, a guerra alterou os objetivos geopolíticos a longo prazo em relação ao Irão, assim como as “estratégias para lidar com o conflito”. Mesmo tendo sido o seu principal rival no Médio Oriente durante décadas, a Arábia Saudita deseja chegar a um certo tipo de entendimento com Teerão. Riade tem hoje, nas palavras de Hala Abi‑Saleh, uma política externa em que ambiciona envolver-se em “zero conflitos” e prioriza a “mediação e a diplomacia” para garantir um “ambiente mais estável” no Golfo Pérsico.

Em contrapartida, os Emirados Árabes Unidos são “mais intervencionistas” e mais “assertivos”, segundo a especialista: para Abu Dhabi, a ameaça iraniana deve ser totalmente erradicada. Só assim a imagem de refúgio seguro para nómadas digitais e influencers ocidentais se poderá prolongar no futuro. Daí que, logo no início do conflito, o Presidente emiradense tenha mostrado as garras ao Irão: “Os Emirados Árabes Unidos são belos, os Emirados Árabes Unidos são um modelo a ser seguido, mas deixo um aviso: não se deixem enganar por isso. A pele dos Emirados é dura e a sua carne é amarga — não somos presas fáceis”.

"Os Emirados Árabes Unidos são belos, os Emirados Árabes Unidos são um modelo a ser seguido, mas aviso: não se deixem enganar por isso. A pele dos Emirados é dura e a sua carne é amarga — não somos presas fáceis."
Presidente dos Emirados Árabes Unidos, Mohamed bin Zayed Al Nahyan

A guerra no Irão veio expor a vulnerabilidade do modelo económico dos Emirados Árabes Unidos, assente “no turismo, no comércio e no mercado imobiliário”. “As tensões regionais testaram os limites das suas estruturas de segurança, desafiando a imagem de estabilidade absoluta do país”, salienta Hala Abi‑Saleh. A situação saudita é diferente: como a sua economia ainda depende fortemente do petróleo, o “reino tem mitigado os efeitos ao utilizar o gasoduto Leste‑Oeste, que permite que as suas exportações de crude contornem o estreito de Ormuz através do Mar Vermelho”.

Por causa disso, as duas monarquias do Golfo Pérsico têm tentado forjar novas alianças no Médio Oriente. Da parte dos Emirados, a escolha é clara: Israel. O Estado judaico partilha com Abu Dhabi o objetivo geopolítico de pôr fim, de uma vez por todas, à ameaça do Irão e dos seus proxies na região. “Ambos têm aprofundado a parceria estratégica e tecnológica”, corrobora Hala Abi‑Saleh. As boas relações com Telavive são uma das razões pelas quais, entre todos no Golfo Pérsico, o território emiradense tem sido o mais bombardeado pelo regime iraniano.

A visão saudita de evitar conflitos está muito longe da israelita ou da emiradense. Hala Abi‑Saleh assinala que tem havido uma “reaproximação” da Arábia Saudita ao Egito, à Turquia e ao Paquistão: “É um novo alinhamento regional.” Empenhados em esforços de mediação com os Estados Unidos, os quatro países desejam, acima de tudo, evitar um cenário em que Israel se converta na principal potência no Médio Oriente. Assim, preferem que o Irão se mantenha como contrapeso à influência israelita, mesmo detestando o regime.

“Esses esforços de formação de coligações oferecem visões diferentes para a ordem regional, correndo o risco de se transformarem em desacordos estratégicos de longo prazo”, alerta Hala Abi‑Saleh. Dito de outro modo, quando as hostilidades no Irão terminarem, o Médio Oriente pode ficar dividido entre duas esferas de influência — uma liderada por Abu Dhabi com o apoio israelita, outra chefiada pela Arábia Saudita com o apoio turco.

A saída da OPEP por parte dos Emirados Árabes Unidos insere‑se nesta lógica de blocos que pode vir a formar‑se. A decisão emiradense foi uma ação “definitiva” para demonstrar a sua “autonomia política”, garante Hala Abi‑Saleh, que acredita que a saída do cartel “sinaliza que Abu Dhabi não está mais disposta a subordinar os seus interesses económicos nacionais” à Arábia Saudita.

https://observador.pt/2026/04/28/emirados-arabes-unidos-cortam-com-opep-o-que-pode-significar-a-saida-do-3-o-maior-produtor-de-petroleo-do-cartel/

Durante décadas, na OPEP, os Emirados exportaram menos petróleo do que a sua capacidade de produção permitia, de modo a cumprir as quotas definidas pelo cartel e a manter os preços elevados. A Arábia Saudita precisa das verbas oriundas do setor petrolífero para sustentar o Visão 2030, que concorre com as ambições financeiras de Abu Dhabi. Ao mesmo tempo, o Governo emiradense adotou a estratégia de vender o máximo de barris possível a curto e médio prazo, antecipando que este tipo de energia se torne menos valiosa no futuro.

Iémen, Sudão e Somalilândia: o plano externo do conflito Arábia vs. Emirados

Antes mesmo da guerra do Irão, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos tinham-se confrontado noutras arenas. Apesar de se manterem discretos e evitarem levantar muitas ondas na comunidade internacional, os dois países procuram expandir os seus tentáculos a outros territórios. Antes, havia praticamente uma sintonia nos seus objetivos. Na guerra civil na Síria, por exemplo, apoiaram a oposição a Bashar al‑Assad, ainda que Abu Dhabi tenha reatado relações com o antigo Presidente muito mais depressa do que Riade.

O Iémen foi um dos primeiros palcos em que a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos intervieram em conjunto. Na guerra civil iniciada em 2014, os dois países apoiaram o Governo internacionalmente reconhecido contra os Houthis, após a tomada da capital Sanaa pelo grupo, que se integrou no chamado eixo de resistência iraniano. Mas isso alterou‑se nos anos seguintes — e Abu Dhabi e Riade acabariam por se enfrentar em combates intensos no sul do solo iemenita.

Em termos gerais, “Abu Dhabi e Riade priorizaram atores locais diferentes, abordagens táticas e calendários para a desescalada do conflito, refletindo perceções de ameaça distintas, interesses económicos e culturas estratégicas”, destaca Robert Mason. No Iémen, o especialista assinala que a Arábia Saudita “tradicionalmente se focou mais na segurança fronteiriça e em prevenir a instabilidade que pode chegar ao reino”. Por sua vez, os Emirados Árabes Unidos enfatizam “a segurança marítima, as redes de influência no sul do Iémen e parcerias contraterroristas”.

Assim sendo, em 2025, os Emirados Árabes Unidos apoiaram uma ofensiva do grupo separatista Conselho de Transição do Sul, que pretendia restaurar a independência do Iémen do Sul (até 1990, o país estava dividido entre dois Estados). As milícias lançaram ataques contra posições do Governo internacionalmente reconhecido no sul, conquistando vastas áreas das regiões de Hadramaut e Al‑Mahra. Na prática, o grupo apoiado por Abu Dhabi estava a atingir diretamente um aliado da Arábia Saudita.

O Governo saudita não gostou nada desta iniciativa emiradense, que visava controlar as rotas marítimas no Golfo de Aden. Por isso, Riade reforçou o apoio às tropas aliadas ao Conselho Presidencial do Iémen, que acabaram por frustrar a ofensiva separatista e recuperar a maior parte dos territórios tomados pelo Conselho de Transição do Sul. Na sequência desta derrota, a direção da milícia anunciou a sua dissolução.

Neste caso, a tentativa de demonstrar a sua autonomia no plano externo fracassou para os Emirados Árabes Unidos — o grupo apoiado pela Arábia Saudita acabou por sair vencedor. Porém, o Iémen não é o único palco onde os dois países estarão a apoiar fações distintas. No Sudão, o mesmo estará a acontecer na guerra civil em curso. Riade inclina-se a apoiar para as Forças Armadas do Sudão (SAF), enquanto Abu Dhabi está sob suspeita de apoiar a milícia Forças de Apoio Rápido (RSF).

Os Emirados Árabes Unidos garantem publicamente que não estão a apoiar as RSF, acusados de levar a cabo massacres em várias partes do Sudão. No entanto, várias investigações e relatórios internacionais indicam que Abu Dhabi tem mesmo fornecido armas, dinheiro e apoio logístico às Forças de Apoio Rápido, sustentando a milícia em troca de acesso privilegiado ao ouro da região do Darfur.

Há ainda uma terceira arena em que a Arábia Saudita se opõe aos Emirados Árabes Unidos: a Somália. A região da Somalilândia pretende tornar-se independente e recebeu um apoio decisivo a esta causa em dezembro de 2025. Israel foi o primeiro país a reconhecer formalmente a independência do território com cerca de 6,2 milhões de habitantes. Abu Dhabi ainda não tomou este passo, mas nos bastidores estará a fomentar o movimento independentista, juntamente com os israelitas e a Etiópia.

https://observador.pt/especiais/reconhecimento-da-somalilandia-a-arriscada-jogada-diplomatica-de-israel-que-desafia-os-houthis-e-a-turquia/

Ao longo dos últimos anos, o Governo dos Emirados Árabes Unidos tem cultivado boas relações com o executivo separatista da Somalilândia. Abu Dhabi usou mesmo o porto de Berbera como base militar, que esteve integrada numa rede mais vasta de apoio logístico ao Conselho de Transição do Sul no Iémen. Ainda assim, mesmo após o conflito ter terminado, Berbera continua a ser uma infraestrutura estratégica para controlar as rotas marítimas no Mar Vermelho e no golfo de Aden.

A Arábia Saudita, juntamente com a Turquia, tem apoiado o Governo federal da Somália para evitar que a região se torne independente. O padrão de ação de política externa de Riade tende, como caracteriza Robert Mason, a ser “mais cauteloso e com maior sensibilidade à dinâmica política árabe e islâmica em geral” — afinal, o país continua a cultivar a reputação de potência religiosa. Pelo contrário, os Emirados Árabes Unidos não hesitam em intervir em conflitos externos quando percebem que podem ganhar influência, aceder a recursos estratégicos e controlar rotas marítimas vitais.

Rivais assumidos ou apenas aliados com interesses divergentes?

Competição económica, novos blocos no plano externo e conflitos por procuração. Que já não são aliados que concordam em quase tudo é garantido. Mas como é que se define a atual relação entre a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos? Os dois especialistas ouvidos pelo Observador apresentam diferentes perspetivas.

No entender de Robert Mason, existe efetivamente uma “rutura” entre os dois países. No entanto, o especialista acredita que a dimensão da cisão é “muitas vezes exagerada”. “Muitos analistas tendem a enquadrar a política do Golfo em termos binários — ou são aliados ou estão de costas voltadas”, indica, frisando que o assunto é mais complexo do que isso. “Na prática, os Emirados e a Arábia Saudita mantêm‑se parceiros profundamente interconectados, ao mesmo tempo que se tornam competidores mais assertivos, com estratégias nacionais distintas.”

Em linhas gerais, o especialista em política do Médio Oriente resume a relação como uma “parceria competitiva”. Por um lado, há, de acordo com Robert Mason, uma “cooperação de segurança próxima, em que coexiste um alinhamento estratégico mais amplo”: os dois países ainda veem o Irão como um inimigo e continuam a depender dos Estados Unidos para a sua segurança. Por outro, existe “uma concorrência económica mais dura e divergências políticas ocasionais”.

Já Hala Abi‑Saleh pinta um retrato menos otimista das relações entre a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos. “A relação passou de uma parceria estratégica para uma rivalidade estrutural permanente”, assegura a especialista. Isso não significa, contudo, que sejam “adversários”. Mas é certo que já não “sincronizam as suas estratégias” e que há cada vez mais espaço para divergirem.

“Na prática, os Emirados e a Arábia Saudita mantêm‑se parceiros profundamente interconectados, ao mesmo tempo que se tornam competidores mais assertivos, com estratégias nacionais distintas.”
Robert Mason, especialista na política do Médio Oriente

Entre os países do Golfo Pérsico, a altura em que Riade liderava sem contestação parece ter chegado ao fim. Os Emirados Árabes Unidos desafiam abertamente a hegemonia da Arábia Saudita, que, por sua vez, admite concorrer com os emirados do Dubai e de Abu Dhabi para se converter numa potência tecnológica. Mais do que isso, os sauditas não querem ver a sua liderança regional contestada por outro país: Israel. Já o Governo emiradense não se importa com isso — e espera colher benefícios da sinergia com Telavive.

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