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David Attenborough: 100 anos da espécie mais rara da televisão

O rei dos documentários sobre a Natureza ganhou todos os prémios, tem 50 plantas e animais com o seu nome e criou um modelo insuperável. O que seria de nós sem este explorador?

Susana Romana
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Todos temos um avô-cadeirão. Não tem de ser literalmente nosso avô: pode ser um tio, um compadre de não sei quem, um senhor que casou com alguém da nossa família de sangue e com quem não temos por hábito falar mais do que 30 segundos, parcamente divididos entre cumprimentos e despedidas. As características da espécie mamífera avô-cadeirão são claras: é geralmente um tipo mais velho, de poucas palavras, que se funde com um dos sofás da sala como se fossem um ser uno e indivisível, para ver televisão. Mas há um momento em que conseguimos sentir uma comunhão com ele, construir um ponto de convergência que permite conversas e afinidades: quando, a fazer tempo para a uma da tarde de um domingo de almoço de família, nos sentamos juntos na sala a ver um documentário sobre animais. O avô-cadeirão pode não saber onde trabalhamos ou que idade temos, mas saberá que o dragão‑de‑Komodo é capaz de comer 80% do próprio peso e que a época de acasalamento acontece entre maio e agosto.

O responsável pela popularidade geracional deste tipo de documentários tem um nome: David Attenborough. Sir David Attenborough, como tão bem os britânicos gostam de reforçar. O pedestal no qual o colocam é de tal modo superior que, quando na Eurovisão que se realizou em Lisboa em 2018, um dos sketches tinha Herman José a fazer as vezes do prestigiado naturalista — e os bifes passaram-se. O tabloide britânico Daily Express escreveu mesmo que os “fãs” consideraram “ofensivo” que Attenborough tenha sido “ridicularizado” durante a emissão. É que o agora centenário (número redondo completado esta sexta-feira, dia 8 de maio) é uma raridade de consenso num Reino Unido que de unido só vai tendo o nome. Uma sondagem do início do ano para o podcast The Rest Is Entertainment concluiu que 44 por cento dos inquiridos o considera o maior tesouro nacional do país, destacado da concorrência de atores, músicos e futebolistas (“national treasure” é o rótulo britânico dado a uma figura pública amplamente amada, vista como parte inegável do património emocional do país).

Esta vitória de Attenborough é em toda a linha, já que a sondagem mostra que é a primeira escolha seja qual for a idade, região ou inclinação partidária dos entrevistados. Lá está, a única maneira de não discutir no tal almoço de domingo para o qual estávamos a fazer tempo é mesmo elogiando o rei dos documentários sobre vida selvagem.

Ver este tipo de programas pode encaixar no chamado virtue signaling, o ato de exibir publicamente uma opinião ou gesto moral, sobretudo para parecer virtuoso. É que, por um lado, estamos a ver algo de didático, a mostrar que podemos evidenciar-nos como alguém que não embarca na estupidificação latente de outro tipo de conteúdos (mesmo que, secretamente, saibamos perfeitamente quem é a Ariana da Casa dos Segredos). E por outro, mostramos como nos ralamos com o planeta. Caramba, estamos a ver um documentário sobre a importância dos oceanos, a aprender tudo sobre as baleias‑jubarte e como as proteger. De certeza que isso nos garante mais uns tempos a usar palhinhas de plástico sem sentimento de culpa.

Esse talvez seja até o grande falhanço da carreira de David Attenborough — um falhanço que é nosso, claro. Cem anos (não os cem na totalidade, mas boa parte deles, vá) a explicar-nos a importância de defender o meio ambiente para os resultados não serem particularmente animadores. Várias das espécies que o naturalista acompanhou (tem tantas décadas de carreira que é a única pessoa a ganhar BAFTAs, o galardão mais importante do Reino Unido, por programas a preto e branco, a cores, em HD e em 3D) já se extinguiram e não foi o constantemente hiperbolizado poder da televisão a salvá-los. O britânico fez-nos achar que íamos proteger a natureza (“Se cuidarmos da natureza, a natureza cuidará de nós.”) — mas nem a nós próprios nos sabemos proteger, que fará uma savana recôndita. Attenborough tem mais de 50 plantas e animais com o seu nome, incluindo a Nepenthes attenboroughii, uma planta carnívora gigante capaz de devorar animais do tamanho de um rato — e esse legado terá de chegar.

Para um português, a voz pausada e de sotaque distinto do londrino tem uma competição feroz no nosso imaginário. Ao contrário de um inglês, nós associamos o BBC Vida Selvagem à voz do locutor Eduardo Rêgo, ainda no ativo e simultaneamente fundador da Loving The Planet, uma plataforma de comunicação que reúne e mobiliza agentes empenhados na construção de um mundo mais sustentável. Mas em qualquer um dos casos, a narração de um documentário sobre vida animal faz parte de um tipo de televisão feita para nos envolver e relaxar, quase uma espécie de ASMR antes do tempo (para quem não está cronicamente online como eu: ASMR é a sigla para Autonomous Sensory Meridian Response — em português, Resposta Sensorial Meridiana Autónoma — e é uma sensação de relaxamento desencadeada por sons suaves ou repetitivos, com criadores próprios nas redes sociais). A narração de programas da Natureza, tal como Attenborough a cunhou e o mundo imita, é pausada, explicativa, deixando espaço para ser o animal a brilhar. No fundo, é o oposto de um relato de futebol, rápido e emotivo.

Ora isto faz de Sir David um bastião cada vez mais raro da chamada slow TV. Numa altura sôfrega em que vivemos com o fantasma insistente de não ter tempo para nada, ver um documentário da vida animal ainda constitui uma pausa — e, muitas vezes, o tal momento de comunhão. É televisão que se pode ver sozinho, mas é muito mais televisão geracional, que ganha em ser vista por várias pessoas ao mesmo tempo, comentando factoides que provavelmente esquecerão pouco depois. A qualidade das filmagens é de excelência, mas o resto é a supremacia da simplicidade, do texto factual, da música suave entre a orquestra e o elevador, da paisagem que se pode demorar sem irmos a correr procurar o comando.

Uma das vertentes pós-televisivas dos programas da BBC Vida Selvagem (afinal, há cada vez menos pessoas a verem televisão clássica) foi a passagem para evento ao vivo, com o tal caráter familiar, facilmente instagramável e com o placebo de “até é didático para os miúdos”. Fui a uma delas, numa visita a Londres em 2024. Num barracão em Earls Court ocorria o BBC Earth Experience, descrito como “imagens de cortar a respiração da premiada série da BBC Seven Worlds, One Planet, projetadas com tecnologia de ecrã digital e acompanhadas por uma narração exclusiva do mundialmente famoso Sir David Attenborough”. Na prática? Pagar quase 35 euros por cabeça para ir ver projeções em paredes brancas com demasiadas pessoas à frente e ter de andar à bulha por um puffe daqueles tipo saca-de-esferovite para ficar esticada a ver vídeos de pinguins bebés.

Os 100 anos de vida de Sir David Attenborough foram pouco ou nada povoados por polémicas, sejam elas pessoais ou profissionais. Com uma notável exceção: a veracidade das imagens. Como guionista, conheço bem a chatice de quando a realidade atrapalha uma boa história. Para um documentário de vida animal resultar, tem de ter, na verdade, características semelhantes a uma telenovela: vilões e heróis claros, cenas de clímax que fechem um arco narrativo, momentos de castigo ou redenção. E isto raramente é possível apontando simplesmente uma câmara e esperando dias a fio, agigantando os custos. Por isso, é uma regra não dita deste tipo de programa que se pode falsear.

Ao longo dos anos, vários casos de documentários de Attenborough acabaram por ser denunciados. Em 1997, uma sequência com uma ursa e as respetivas crias foi filmada num jardim zoológico na Bélgica, sem que isso fosse de todo claro para o espectador. Em 2021, a BBC foi obrigada a admitir que cenas com uma ursa‑polar e as suas crias em Frozen Planet tinham sido filmadas num jardim zoológico nos Países Baixos e não no Ártico. No mesmo ano, a série Human Planet mostrou um jovem camelo a ser morto por um lobo, mas mais tarde veio a saber‑se que, como os cineastas não conseguiram encontrar um lobo selvagem, usaram um animal semi‑domesticado levado para o local com uma trela. E Doug Allan, conceituado cameraman de vida selvagem que trabalhou muito com Attenborough, revelou que a maioria das sequências envolvendo pequenos mamíferos era filmada em ambientes controlados e afirmou que o público “não se importava”.

David Attenborough, o homem que quando conseguiu o primeiro trabalho em televisão nem sequer tinha o aparelho em casa (como a maioria dos britânicos da época), chegou ao século de vida tornando-se sinónimo de um tipo de televisão que, porventura, um dia morre com ele. A caixinha mágica talvez tenha mais em comum com as espécies animais: nasce, cresce, reproduz-se e morre.