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(A) :: "Podes ter os dados todos, o que importa é o que fazes com eles." O Lincoln subiu ao Championship com a menor posse de bola do campeonato

"Podes ter os dados todos, o que importa é o que fazes com eles." O Lincoln subiu ao Championship com a menor posse de bola do campeonato

Há 65 anos que o Lincoln City não estava no segundo escalão do futebol inglês. Entre a aposta num ex-treinador de futsal, os conselhos de Landon Donovan e a importância dos dados, o milagre aconteceu.

Mariana Fernandes
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Tal como tantos outros em Inglaterra, o Lincoln City é um clube histórico. Fundado em 1884 no leste inglês, herdou um símbolo da cidade como emblema, alcunha e até personalidade — para todos, os que lá jogam, os que o representam ou o que os apoiam são os imps, algo como diabretes em inglês, em referência ao mítico Lincoln Imp, o diabrete de pedra que está na gótica e centenária Catedral de Lincoln. O que os imps conseguiram esta temporada, porém, foi tudo menos uma diabrura.

A temporada só terminou no último fim de semana, mas o feito estava alcançado há um mês: no início de abril, ao vencer o Reading e com ainda cinco jornadas por disputar, o Lincoln City garantiu a promoção ao Championship, o segundo escalão do futebol inglês. Os imps conquistaram mesmo a League One, com 103 pontos e mais 12 do que o Cardiff, e vão regressar à segunda divisão pela primeira vez em 65 anos — a última vez que estiveram num lugar tão privilegiado da hierarquia foi em 1961, sendo que nunca disputaram o principal escalão de Inglaterra.

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A época foi descomunal, com o Lincoln City a ter mesmo uma série de 29 jogos consecutivos sem perder, e tudo se torna ainda mais difícil de explicar quando se percebe que era quase impossível antecipar o atual sucesso do clube: tinham ficado em 11.º no ano passado, tinham um dos orçamentos mais magros da League One e até passaram por um processo burocrático complexo, com o norte-americano Ron Fowler a tornar-se acionista maioritário e presidente em fevereiro depois de ter começado a investir em 2024. Quem estava lá dentro, porém, não ficou surpreendido.

“Tivemos três fases: filosofia, entendimento, alinhamento e compromisso. Primeiro, desenhámos uma estratégia e uma estrutura para nos ajudar a alcançar o êxito. Depois, assegurámos que todos entendiam o papel que tinham e o porquê de estarmos a fazer as coisas desta maneira. E o último componente foi sempre o compromisso absoluto”, explicou Liam Scully, o CEO do Lincoln City, em entrevista ao jornal Marca.

Parte fulcral da filosofia, do entendimento, do alinhamento e do compromisso, naturalmente, passou pela escolha do treinador. Michael Skubala, inglês de 43 anos, foi o grande obreiro de um dos momentos mais importantes da história do clube e naturalmente eleito o melhor treinador da League One. Começou por tirar os cursos enquanto ainda dava aulas de Educação Física, cresceu até ser diretor do departamento de futebol da Loughborough University e foi nessa altura que foi contratado pela Football Association para ser selecionador de futsal de Inglaterra. Ocupou o cargo durante três anos, levando os ingleses o melhor ranking em 20 anos, e ainda trabalhou com a seleção Sub-18 de futebol antes de rumar ao Leeds.

Por lá, orientou os Sub-21 e foi treinador interino da equipa principal depois do despedimento de Jesse Marsch, acabando por ficar como adjunto de Javi Gracia. Em novembro de 2023, aceitou o convite do Lincoln City para assumir o primeiro desafio enquanto treinador principal de uma equipa principal de futebol e mudou-se, juntando-se à filosofia, ao entendimento, ao alinhamento e ao compromisso.

“Se olhares para os recursos do Lincoln City, não somos um grande clube na League One”, começa por explicar Michael Skubala à Marca. “Não somos um grande clube do futebol inglês, em comparação com outras equipas muito grandes. Mas é um clube muito bem dirigido. Conseguimos demonstrar que, mesmo sem o maior orçamento, podes alcançar o êxito. Desde a estratégia, o rendimento, o recrutamento… Se tudo estiver alinhado, podes ir mais rápido”, acrescenta.

Ainda assim, o método implementado foi mesmo revolucionário. O Lincoln City conquistou a League One e subiu ao Championship com a menor percentagem de posse de bola da competição. Como? Deu prioridade a outras coisas. “É muito sexy concentrarmo-nos na construção a partir de trás. Mas se calhar, num jogo, só tens seis reposições de bola a partir do guarda-redes. Tens 50 lançamentos. Sete ou dez cantos. Onde é que pões as tuas fichas? Um terço dos golos veem de lances de bola parada. A decisão estratégica mais importante foi comprometermo-nos a ser nós mesmos e fazer tudo à nossa maneira. Não nos preocupámos com o que está na moda, com o que é tendência ou com o que os outros fazem”, explicou o treinador.

A estratégia também teve como base os dados, o recurso à inteligência artificial e à estatística, com a contratação de um Diretor de Crescimento e Inovação. “Ajudou-nos a olhar para coisas como a nutrição, o sono, os telemóveis, a ciência do comportamento, os psicólogos… Todas essas coisas que podem ajudar-nos a melhorar. A tecnologia está na sociedade e deve ser usada, mas a maneira como transportas isso para dentro de campo é o mais importante”, lembra Michael Skubala, que é muito rígido na hora de lembrar que nenhum número foi utilizado às cegas ou sem ser interpretado.

“Podes comprar os dados todos, mas o que importa é o que fazes com eles. Desenhamos um plano para cada jogo e trabalhamos esse plano. Uma das coisas que queríamos fazer era implementar a nossa própria ciência de dados e entender onde podíamos marcar maior diferença. Depois construímos um modelo de jogo e uma estrutura de recrutamento à volta desses pontos. Temos uma identidade muito clara, mas também temos flexibilidade tática dentro dos nosso princípios”, atira o inglês, que em entrevistas à Sky Sports durante a temporada chegou a dizer que o clube nunca compraria um Ferrari sem pensar que podia melhorá-lo.

https://twitter.com/LincolnCity_FC/status/2050636439462044000

Por fim, parte do sucesso do Lincoln City também teve o dedo de um conselheiro muito especial. Ron Fowler, empresário norte-americano que foi dono dos San Diego Padres, equipa de basebol da MLB, trouxe uma proximidade inesperada com Landon Donovan — antigo internacional pelos EUA que jogou no Bayer Leverkusen, no LA Galaxy, no Bayern Munique e no Everton, esteve em três Campeonatos do Mundo e é agora assessor estratégico do clube.

“O Landon está aqui como uma espécie de mesa de som, para dar opiniões e conselhos. Jogou ao mais alto nível e deu-nos confiança sobre coisas que estamos a fazer bem. É um bom confidente, um bom amigo e um grande apoio. Esteve no nível mais alto do negócio do desporto. Sabe o que é necessário para gerir as melhores organizações desportivas do mundo e elevou muito os nossos padrões, mostrou-nos como se vê esse nível mais alto”, terminou Liam Scully.