Terça-feira, 12 de janeiro de 2010, 16h53. Este era apenas mais um dia no Haiti, terceiro maior país da zona das Caraíbas. Provavelmente, este era também um dia em que os habitantes ainda não pensavam naquilo que podia ser o Campeonato do Mundo uns meses depois, neste caso o primeiro de sempre jogado em território africano (África do Sul). Ainda assim, já seria tema de conversa. A seleção falhara outra vez a qualificação para a fase final mas nem por isso deixava de haver uma equipa pela qual quase todos iam torcer: o Brasil. Era quase um costume, que a maioria não sabia explicar mas que todos sabiam que acontecia. Tanto que, no período da fase final, o país ia multiplicando televisões para ver todos os jogos com especial interesse naquilo que podia fazer a canarinha de Kaká e companhia. Ali, o futebol é quase tudo. Ou era. Até esse dia.
Os 30 segundos em que a terra mexeu tendo o epicentro do sismo a pouco mais de 20 quilómetros de Porto Príncipe, a capital, ficaram entre os mais devastadores das últimas décadas, estimando-se que mais de 1,5 milhões de pessoas tenham sido afetadas entre um valor entre 100 a 300 mil mortos. Uma tragédia que trouxe muitas outras tragédias – a fome, um surto de cólera, a pobreza, a miséria, uma crise a todos os níveis. Há cinco anos que a capital está controlada por gangues, na sequência do assassinato do presidente Jovenel Moïse. Ali, deixou de se pensar no amanhã. Nunca se sabe como será o “hoje”. E foi nesse contexto que, numa conjugação cósmica criada pela qualificação direta de EUA, México e Canadá como organizadores da competição, o Haiti chegou pela segunda vez na história ao Mundial, 52 anos depois da única presença na Alemanha Ocidental. E com uma particularidade: logo na fase de grupos vai defrontar também o… Brasil.
Não é a única. Longe disso. Olhando de forma mais desatenta, poderia escrever-se que o apuramento chegou com vitórias em “casa” com Costa Rica e Nicarágua, suficientes para ficar à frente também das Honduras. Questão? Há muito que não há “casa”, há apenas equipa “visitada”, e essas partidas foram feitas em Curaçau. A seleção não joga no seu próprio país há cinco anos, a ponto de ter um selecionador, Sébastien Migné, que se tornou herói nacional sem nunca ter visitado o Haiti e gerindo todas as operações à distância tendo em conta a insegurança que ainda se vive. Até o recinto que era a “casa” da seleção, o Stade Sylvio Cator, passou a ser uma base de operações de gangues. Mesmo assim, o sonho tornou-se realidade.
Pode ganhar outro capítulo? Dificilmente. O Haiti vai parar sempre que a seleção jogar e o Mundial será acompanhado ainda com mais atenção mas a formação das Caraíbas tem poucos argumentos para melhorar aquela que foi a única participação num Mundial, quando perdeu todos os encontros por margens largas com Itália, Polónia e Argentina. A estreia será contra a Escócia, seguindo-se os jogos com o Brasil e a grande revelação de 2022, Marrocos. Apesar das melhorias conseguidas nos últimos dois anos como o antigo adjunto dos Camarões, sobretudo por ter feito uma melhor adaptação da identidade de jogo às características dos jogadores que tem à disposição, tudo o que vier a mais do que uma derrota será sempre um “ganho”, em campo e nas bancadas – se há país que terá dificuldade em ter adeptos nos EUA é o Haiti…

BI
- Ranking FIFA atual: 83.º (a 1 de abril de 2026)
- Melhor ranking FIFA: 38.º (janeiro de 2013)
- Patrocinador: Saeta (desde 2013)
- Alcunha: Os Granadeiros ou Os Bicolores
- Presenças em fases finais: 1
- Última participação: 1974 (fase de grupos, 0 pontos com Polónia, Argentina e Itália)
- Melhor resultado: fase de grupos em 1974 (0 pontos com Polónia, Argentina e Itália)
- Qualificação: 2.º lugar no grupo C da segunda fase (9 pontos com Curaçau, Santa Lúcia, Aruba e Barbados) e 1.º lugar no grupo C da terceira fase (11 pontos com Honduras, Costa Rica e Nicarágua)
- O que seria um bom resultado? Fazer pontos na fase de grupos
Jogos desde junho de 2025
- Jogo particular, 6/6: Peru (neutro)
- Jogo particular, 3/6: Nova Zelândia (neutro)
- Jogo particular, 31/3: Islândia (neutro), 1-1 (E)
- Jogo particular, 29/3: Tunísia (neutro), 0-1 (D)
- Qualificação CONCACAF, 19/11: Nicarágua (casa), 2-0 (V)
- Qualificação CONCACAF, 14/11: Costa Rica (casa), 1-0 (V)
- Qualificação CONCACAF, 14/10: Honduras (fora), 3-0 (D)
- Qualificação CONCACAF, 10/10: Nicarágua (fora), 0-3 (V)
- Qualificação CONCACAF, 10/9: Costa Rica (fora), 3-3 (E)
- Qualificação CONCACAF, 6/9: Honduras (casa), 0-0 (E)
- Gold Cup, 23/6: EUA (neutro), 2-1 (D)
- Gold Cup, 19/6: Trinidad e Tobago (neutro), 1-1 (E)
- Gold Cup, 16/6: Arábia Saudita (neutro), 0-1 (D)
- Qualificação CONCACAF, 10/6: Curaçau (casa), 1-5 (D)
- Qualificação CONCACAF, 7/6: Aruba (fora), 5-0 (V)
O onze
- 4x2x3x1: Johnny Placide; Carlens Arcus, Ricardo Adé, Hannes Delcroix, Duke Lacroix; Leverton Pierre, Jeanricner Bellegarde; Josué Casimir, Ruben Providence, Wilson Isidor e Duckens Nazon
O treinador
- Sébastien Migné (francês, 53 anos, desde junho de 2024)
- Outros clubes: Sub-20 do Congo, Congo, Quénia, Guiné Equatorial, Marumo Gallants (África do Sul) e Camarões (adjunto)
- Títulos: –

O craque
- Duckens Nazon (32 anos, avançado dos iranianos do Esteghlal)
- Outros clubes: Lorient II, Olympique Saint-Quentin, Laval, Kerala Blasters, Wolverhampton, Coventry, Oldham, Sint-Truiden, St. Mirren, Quevilly-Rouen, CSKA Sófia e Kayserispor
A revelação
- Wilson Isidor (25 anos, avançado dos ingleses do Southampton)
- Outros clubes: Rennes II, Mónaco II, Mónaco, Laval, Bastia-Borgo, Lokomotiv Moscovo e Zenit
O mais internacional e o maior goleador
- Pierre Richard Bruny (95 internacionalizações) e Duckens Nazon (44 golos)

Os 26 convocados
- Guarda-redes (3): Johnny Placide (Bastia, França), Alexandre Pierre (Sochaux, França) e Josué Duverger (FC Cosmos Koblenz, Alemanha)
- Defesas (8): Carlens Arcus (Angers, França), Wilguens Paugwain (Zulte Waregem, Bélgica), Duke Lacroix (Colorado Springs, EUA), Martin Experience (Nancy-Lorraine, França), Jean-Kevin Duverne (Gent, Bélgica), Ricardo Adé (LDU Quito, Equador), Hannes Delcroix (Lugano, Suíça) e Keeto Thermoncy (Young Boys II, Suíça)
- Médios (6): Leverton Pierre (Vizela, Portugal), Carl-Fred Sainthe (El Paso Locomotive, EUA), Jean-Jacques Danley (Philadelphia Union, EUA), Jeanricner Bellegarde (Wolverhampton, Inglaterra), Pierre Woodenski (Violette AC, Haiti) e Dominique Simon (Tatran Presov, Eslováquia)
- Avançados (9): Louicius Deedson (FC Dallas, EUA), Ruben Providence (Almere City, Países Baixos), Josué Casimir (Auxerre, França), Derrick Etienne (Toronto FC, Canadá), Wilson Isidor (Sunderland, Inglaterra), Duckens Nazon (Esteghlal, Irão), Frantzdy Pierrot (Çaykur Rizespor, Turquia), Yassin Fortune (Vizela, Portugal) e Lenny Joseph (Ferencváros, Hungria)
O local do estágio
- Sheraton Atlantic City Convention Center Hotel, em Nova Jérsia (treinos: Stockton University)
A antevisão
A ligação a Portugal
- Até ao início da presente temporada podia não ser fácil (ou pelo menos óbvio) encontrar uma ligação mais direta entre Portugal e o Haiti mas o mercado de transferências de 2025/26 deitou isso por terra. Começou com o Vizela, que contratou o médio Leverton Pierre aos franceses do Châteauroux e o avançado Yassin Fortuné aos também franceses do QRM, prosseguiu com o Torreense, que apostou no avançado Dany Jean, que estivera por empréstimo do Estrasburgo no Rodez. Sobretudo o último podia ter no Mundial de 2026 uma oportunidade de ouro para se mostrar na principal montra do futebol internacional depois de uma temporada como uma das figuras da equipa de Torres Vedras mas, após sair a lista final de convocados, acabou por ser o único entre os “portugueses” a ficar de fora…