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A economia cognitiva do politicamente correto 

Quando pensar deixa de ser necessário, as regras morais tornam-se suficientes. O  politicamente correto é, nesse sentido, a moral pronta-a-usar

Luís Ferreira Guido
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A introdução da máquina a vapor nas fábricas de Birmingham e Manchester, em finais do  século XVIII, marcou o início de uma transformação que, sendo frequentemente descrita em  termos de progresso económico, teve implicações muito mais profundas. Durante séculos, a  produção esteve ligada ao corpo de quem trabalhava, que era ao mesmo tempo instrumento e  limite. O ritmo, a intensidade e a qualidade do trabalho resultavam diretamente dessa relação  entre esforço e resultado.

Com a emergência de uma fonte de energia externa, essa relação começou a dissolver-se. O  trabalho passou a organizar-se em torno de sistemas que exigiam coordenação, repetição e  previsibilidade, e aquilo que antes dependia do juízo do operário passou a ser assegurado por  regras comportamentais. Quando o esforço individual deixou de ser determinante, a  consistência deixou de poder depender de quem executava. Iniciou-se então um processo de  adaptação em que o valor se deslocou da decisão para a execução.

Dois séculos mais tarde, assistimos a uma transformação de natureza semelhante, agora no  domínio cognitivo. A inteligência artificial e os sistemas digitais passaram a assumir a execução  de tarefas que, até há pouco tempo, exigiam elaboração própria. Escrever, organizar ideias ou  estruturar argumentos deixou de implicar necessariamente o exercício do pensamento. O  pensamento continua disponível, mas deixa de ser condição para agir.

É neste ponto que a distinção entre ética e moral se torna decisiva. A moral consiste num  conjunto de regras partilhadas, adotadas por uma maioria e aplicadas de forma relativamente  automática. A ética, pelo contrário, exige reflexão, ponderação e responsabilidade individual  em contextos onde as regras não são suficientes. Seguir a moral é mais simples do que exercer  a ética.

Quando pensar deixa de ser necessário, as regras morais tornam-se suficientes. O  politicamente correto é, nesse sentido, a moral pronta-a-usar.

É neste contexto que o politicamente correto deve ser entendido. Não como uma anomalia,  mas como um mecanismo de economia cognitiva que encontrou particular expressão em  setores da esquerda contemporânea, onde a linguagem e o posicionamento público passam a  ser regulados por um conjunto de regras morais implícitas. Não se trata apenas de normas de  comportamento, mas de critérios que definem o que pode ser dito, como pode ser dito e em  que termos é considerado aceitável.

Trata-se, em grande medida, de uma abordagem moralista, assente na valorização de regras  morais que orientam o discurso e substituem o exercício do juízo individual por formas de  conformidade previamente estabelecidas.

Tal como as regras comportamentais organizaram o trabalho na mecanização do corpo, o  politicamente correto organiza o discurso na mecanização da mente. Seria, aliás, difícil negar a  sua utilidade.

Num ambiente onde a exposição é constante e o erro tem um custo imediato, a existência de  códigos partilhados estabiliza a linguagem e reduz a incerteza. Não surpreende, por isso, que  esta lógica encontre hoje novas formas de expressão, menos declaradas, mas talvez mais  eficazes. O pensamento individual continua a ser possível, claro — desde que não se afaste  demasiado. O debate permanece aberto — dentro de limites razoáveis. E a divergência é bem vinda — desde que não incomode.

O resultado é um espaço onde tudo pode ser dito — desde que tenha sido previamente aceite.