A expansão marítima e com ela a missionação planetária, promovida na abertura da Era Moderna pelas monarquias católicas ibéricas de Portugal e de Espanha, deram início a um novo e importante estádio na história da humanidade e das relações entre os povos do planeta terra. A era da proto-globalização ou, por outras palavras, da primeira globalização das relações económicas, culturais e religiosas suscitaram a emergência de métodos, ideias, instituições, personalidades, que passaram a ter uma presença e uma influência global. Uma dessas primeiras figuras globais, aqui no plano pedagógico, foi o Padre Manuel Álvares, hoje tristemente pouco conhecido.
Originário da Ilha da Madeira, haveria de ingressar naquela mesma ordem, que formou génios, intelectuais, cientistas, missionários, pedagogos de grande estatura tanto da cultura portuguesa como internacional, entre os quais, um António Vieira, um Inácio Monteiro, um Luís Archer, um Teilhard Chardin, um Michel Certeau, um Alexandre Valignano, um Mateo Ricci, um Manuel Antunes, só para referir alguns poucos.

Gravura do Pe. Manuel Álvares sj.
Manuel Álvares nasceu num dos momentos mais prósperos da história da expansão portuguesa e da história da Madeira, no período da Civilização do Açúcar, depois do dealbar do promissor século de Quinhentos. Ribeira Brava, da Capitania do Funchal, foi o seu lugar de nascimento em 1526. Estudou no primeiro grande colégio da Companhia de Jesus criado em Lisboa, após a fundação desta Ordem em 1540, o colégio de Santo Antão, cursando as disciplinas de Humanidades e as línguas clássicas, Latim, Grego, Hebraico, bem como a necessária Filosofia e Teologia para se tornar sacerdote, em 1552, de uma das instituições religiosas mais célebres da História da Igreja Católica e da História Europeia. Fez-se jesuíta e a sua vida e obra nobilitou a Companhia de Jesus, que formou grandes vultos da missionação, de pensamento, da ciência, da teologia e da filosofia moderna e contemporânea.
A sua capacidade intelectual logo deu bons frutos no estudo, tendo rapidamente sido destacado para o ensino. No mesmo colégio de Santo Antão em Lisboa, onde hoje funciona o Hospital de São José, começou a sua actividade professoral (1553-1555), sendo depois transferido para o Colégio das Artes de Coimbra, cuja direcção tinha sido, entretanto, confiada aos Jesuítas. Na cidade universitária de Coimbra, veio a notabilizar-se como professor de línguas clássicas, em especial, no ensino da gramática latina.
Além de funções pedagógicas desempenhadas com competência reconhecida, foi chamado a assumir importantes funções de governo nas mais destacadas instituições de ensino da Companhia de Jesus em Portugal. Do Colégio das Artes de Coimbra foi Reitor entre 1561 e 1566; ficou a frente da direcção da Universidade de Évora em 1573; assumiu a presidência do Colégio de Santo Antão entre 1574 e 1575; e depois, ainda antes de morrer em 1583, foi superior da Casa Professa de São Roque, onde viviam os jovens religiosos jesuítas em formação. Considerado muito sábio e virtuoso, era muito ouvido e respeitado pelos seus confrades.
A sua grande competência pedagógica revelada no ensino da língua latina levará os superiores maiores da Companhia de Jesus, por indicação expressa do Superior Geral Francisco Borja, a encarregá-lo de preparar um manual de Gramática Latina para suprir as lacunas pedagógicas dos instrumentos de ensino existentes.

Frontispício da obra mais publicada do Pe. Manuel Álvares sj.
Em 1572, publicou o primeiro resultado deste trabalho com o título De Institutione Grammatica libri tres e, no ano seguinte, preparou um compêndio mais adaptado ao estudo dos alunos. O manual de Gramática Latina do Pe. Manuel Álvares ganhou tal fama como instrumento pedagógico eficiente que foi recomendado expressamente no célebre código pedagógico dos Jesuítas que passou a reger todo o ensino dos colégios da Companhia universalmente: Ratio Studiorum.
Esta recomendação suscitou a promoção de traduções e publicações da sua Gramática em várias línguas e países, tendo sido adoptado nos colégios da Companhia de Jesus em todo o mundo e até transpôs, como manual de referência, as instituições de ensino inacianas. Ao todo contam-se mais de 600 edições nas mais diversas línguas, desde o polaco até ao japonês e ao mandarim.
A Gramática de Manuel Álvares é o livro didáctico mais publicado de sempre da história da edição em Portugal e, sem dúvida, um dos mais influentes e modeladores da gramaticologia europeia, tendo servido de manual obrigatório de instrução muitas instituições europeias e extra-europeias durante mais de duzentos anos.
Por isso, com razão esta Gramática pode chamar-se o primeiro livro didáctico de língua latina com projecção global e um monumento pedagógico mundial da autoria de um português nascido na Madeira.
Neste ano em que se assinala o Quinto Centenário do nascimento deste pedagogo, a Escola Básica e Secundária da Ribeira Brava, que tem o Padre Manuel Ávares como patrono, vai acolher no mês de junho a realização de um congresso internacional que reunirá especialistas e investigadores de vários países. Com a pesquisa e estudo que a preparação deste evento internacional está a fomentar, os conferencistas, que ali partilharão o resultado da sua investigação, contribuirão para um melhor conhecimento, mais aprofundado e contextualizado a nível global, da vida, obra e projeção deste gramático e humanista maior da nossa história.
[Os artigos da série Portugal 900 Anos são uma colaboração semanal da Sociedade Histórica da Independência de Portugal. As opiniões dos autores representam as suas próprias posições.]
