Aqui há um mês, os media e os comentadores rejubilaram com a polémica entre Donald Trump e o papa Leão XIV a propósito da guerra do Irão. O presidente americano criticou o Papa, dizendo-o “fraco em relação ao crime” e “terrível em política externa”; ora, como é evidente, o Papa não pode abençoar mísseis, pedindo aos Céus que acertem nos alvos, como o fizeram os pastores protestantes do Secretário da Defesa norte-americano Pete Hegseth. De resto, desde o aparecimento das armas nucleares que a Santa Sé se afastou definitivamente da “guerra justa com vista à paz”, limitando-se à pregação da paz propriamente dita. Não contente com as críticas ao Papa, Trump, num dos seus arroubos egocêntricos, fez-se ainda representar como rei taumaturgo, curando os enfermos.
Convém lembrar que os católicos americanos, tradicionalmente apoiantes dos Democratas, mudaram de comportamento eleitoral a partir de Nixon e de Reagan e votaram também por Trump em 2024. São uma fatia importante do eleitorado (22% dos votantes) e não é bom provocá-los. É certo que, nas questões de fundo – aborto, eutanásia, experimentalismo wokista –, Trump e a sua Administração têm cumprido com as promessas eleitorais e isso ainda é importante; mas estas guerras e guerrilhas deixam marcas. Tanto que Marco Rubio voou para Roma em “missão de bons ofícios”.
Em Espanha
Leão XIV vai a Espanha de 6 a 12 de Junho; e no Domingo, 26 de Abril, no seguimento dos seus antecessores João Paulo II, Bento XVI e Francisco, reconheceu como mártires mais 50 católicos, das dezenas de milhares de crentes assassinados pelas esquerdas na Guerra Civil de Espanha. Como tudo o que vai contra a santa ortodoxia da Esquerda, não era de prever que semelhante reconhecimento gerasse júbilo na comunicação social e no comentariado ou que encontrasse sequer eco.
Em Espanha, há que privilegiar, por exemplo, as críticas dos bispos aos acordos entre o Partido Popular e o Vox para controlar e restringir a imigração – essas sim, tomadas de posição correctas e noticiáveis. O facto de o Papa, falando aos jornalistas no regresso da sua viagem apostólica por África, ter reconhecido que um Estado tinha “o direito de estabelecer normas nas suas fronteiras”, sugerindo um meio-caminho entre a franca restrição da imigração e a franca abertura de portas, estava destinado a não ser sequer nota de rodapé. E, no entanto, é este meio caminho, entre o critério político do interesse nacional e do bem comum – a preservação da coesão e da identidade nacional – e a caridade e o respeito devidos a todos, nomeadamente aos migrantes, como pessoas, que os católicos terão de encontrar. É uma escolha séria, mas não é uma escolha fácil, sendo, porém, uma escolha que se impõe e que promete vir a impor-se – e não só em Espanha mas por quase toda a Europa de matriz cristã.
De qualquer forma, o Papa não poderá deixar de pronunciar-se sobre a imigração durante a sua visita a Espanha. Outro tema quente é a “ressignificação”, pelo governo de Espanha, do Vale dos Caídos (agora redesignado Vale de Cuelgamuros); mas apesar das 26 000 assinaturas da petição dinamizada pela Fundação de Advogados Cristãos para que Leão XIV visitasse o local – de forma a garantir ali a permanência dos monges beneditinos e a impedir a remoção do enorme crucifixo e a profanação da basílica da Santa Cruz, erguida por São João XXIII, e a sua conversão num “museu ideológico” –, o programa papal em Madrid não incluirá a polémica visita.
Quando a morte saiu à rua
Os 50 católicos que Leão XIV reconheceu como mártires antes de viajar para Espanha foram assassinados sob o governo de Lluís Companys, da Esquerda Republicana da Catalunha e da Frente Popular, durante a Guerra Civil de 1936-1939, que acabou com a vitória da coligação das direitas, liderada pelo general Franco. Fazem parte de um total de cerca de sete mil sacerdotes e religiosos então assassinados em Espanha.
Os historiadores do período não têm dúvidas em classificar esta perseguição, em número de vítimas, como maior do que as terríveis perseguições aos cristãos dos imperadores de Roma nos primeiros séculos da nossa Era.
Com a subida ao poder do governo da Frente Popular, em Fevereiro de 1936, declarou-se aberta a caça à Igreja, logo inaugurada com a morte de sacerdotes e o incêndio de templos. Até 18 de Julho, foram 17 os párocos e os religiosos assassinados; mas de 19 de Julho a 1 de Agosto, o número subiu para 861; em Agosto passaram a 2077, incluindo 10 bispos; e até 14 de Setembro foram 3400. Os restantes foram assassinados ao longo da Guerra Civil.
No caso particular da Catalunha, como seria regra nas zonas governadas pela esquerda espanhola, foi um desenfreado “mata frades”. Houve ali 2437 sacerdotes, monges e freiras, entre os quais 4 bispos, assassinados, somando quase 1/3 do total de religiosos, além dos muitos milhares de leigos liquidados; e, claro, foram saqueados e incendiados centenas de igrejas e conventos.
Os principais autores dos crimes foram anarquistas e socialistas, organizados, na região catalã, em cerca de 200 “Comités de Milicias y Patrullas de Control”. Os dirigentes e militantes da esquerda tinham um plano prioritário de eliminação da Igreja e não olhavam sequer a opções políticas ou ideológicas: houve sacerdotes pró-catalães ou até “progressistas” assassinados, como o monsenhor José Puig Panalaigua, considerado “un cura de izquierdas”. A regra era eliminar os católicos por serem católicos, independentemente de tudo o resto, quer pendessem mais para as esquerdas quer mais para as direitas, como a centena e meia de sacerdotes carlistas mortos.
No território catalão havia, em 1936, 2050 paróquias, 4000 igrejas, santuários e capelas e 900 conventos e casas religiosas. No Norte, mais próximo da fronteira com França, a percentagem de homicídios foi menor, porque muitos dos visados conseguiram cruzar a fronteira.
Além dos párocos, os religiosos das ordens monásticas foram muito perseguidos. Em Barcelona, dos 1700 monges e freiras existentes, 425 foram mortos.
Estes crimes por “ódio à fé” cabem no conceito de genocídio, a saber, “a aniquilação ou extermínio sistemático e deliberado de um grupo social por motivos raciais, políticos ou religiosos”. A definição é da Convenção das Nações Unidas de 1948 e do Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional (Artigo 6º), que à data ainda não estavam e vigor, mas que hoje regulam o Direito Internacional Público nestas matérias.
Mas há genocídios e genocídios, e deste não convém que se fale.