São como dois Papas. O atual e o ex-Presidente da República têm coabitado no espaço mediático, com o segundo a ter, em alguns dias, mais minutos de televisão do que o incumbente. A omnipresença de Marcelo Rebelo de Sousa não incomoda, para já, António José Seguro, uma vez que o ex-chefe de Estado tem contrariado a sua natureza de comentar a atualidade política. “Papa só há um. Os chamados Papas Eméritos podem ser respeitados e mesmo vistos com afeto, mas não são o Papa”, decreta ao Observador uma fonte conhecedora da relação entre ambos. A relação é boa e só há o risco de azedar se Marcelo decidir fazer sombra a Seguro — o que ainda não aconteceu.
Há semanas em que a agenda de Marcelo é mais intensa do que a de Seguro. Como tinha antecipado, o ex-Presidente não tem abdicado do seu papel cívico e de uma forte presença pública: no fim de março esteve na Festa do Livro de Celorico de Basto; em meados de abril deu início ao Ciclo Aulas em duas escolas do concelho de Águeda; no dia seguinte, foi a Cabo Verde à VIII Semana Teológica do Mindelo, dias depois deu início ao Ciclo Bibliotecas para alunos do 12º ano da Escola Secundária José Saramago, em Mafra; na véspera do 25 de Abril esteve na inauguração do Caixa Research lnstitute. E continuou: três dias depois esteve no lançamento do livro A mais bela maldição, em Lisboa; no dia seguinte, deu nova aula na escola secundária de Ansião; já em maio foi orador numa sessão sobre o impacto da Inteligência Artificial nos hábitos de leitura, com alunos de quatro escolas secundárias de Coimbra, na Escola Dona Maria.
Paralelamente, desde que saiu de funções, Marcelo esteve em todas as sessões solenes onde tem uma inerente presença protocolar (do 25 de Abril aos 50 anos da Constituição) e esteve até no primeiro jogo de futebol a que o atual Presidente assistiu: o Braga-Friburgo, referente à primeira mão da meia-final da Liga Europa. “Parecia que o Presidente ainda era o Marcelo. Só queriam selfies com ele e quase ninguém ligava ao Seguro”, contou ao Observador uma fonte que estava na tribuna. Mas, até aí, Marcelo tem como desculpa para ali estar ser adepto e sócio do SC Braga há décadas (embora os amigos de infância recordem que era do Sporting Clube de Portugal).
Francisco Pinto Balsemão chegou a apontar Marcelo como o escorpião da fábula da rã e do escorpião, uma vez que considerava que o ex-Presidente não conseguia contrariar a sua natureza (por vezes letalmente venenosa). Mas o ex-Presidente tem conseguido fazê-lo. Até nos 52 anos do PSD, onde discursou na quarta-feira, optou por não contaminar a memória histórica com mensagens nas entrelinhas. Houve uma única exceção ao não comentar a atualidade política desde que há dois meses abandonou funções: uma crítica ao facto de José Saramago deixar de ser obrigatório nas escolas portuguesas. “No caso de Saramago, o que milita a favor de ele ter textos que devam ser do conhecimento de todos, é o facto de ser o único Prémio Nobel da Literatura português. E é um bocadinho estranho que um país que tem um Nobel da Literatura ache que desse prémio Nobel [não deva ter] pelo menos alguns fragmentos devam ser conhecidos”, disse o ex-Presidente. Apesar de crítico, também aí houve uma subtileza a Marcelo: é que visitava a escola que tinha o nome do escritor.
Além disso, a crítica não era para Seguro, mas para o Governo. Aliás, não se sabe o que o Presidente da República pensa sobre esse assunto em particular, mas no Dia Mundial da Língua Portuguesa, o segundo escritor referido por Seguro numa nota publicada no site da Presidência, logo a seguir a Camões, foi precisamente José Saramago.
Apesar de isso ainda não ser um problema, pode haver uma disputa, mesmo que involuntária, pelo espaço mediático em algumas ocasiões em que os holofotes deviam estar exclusivamente no Presidente em funções. Marcelo não dispensará, por exemplo, marcar presença no 10 de Junho na Ilha da Terceira. Também terá aí de ter cuidado para não retirar protagonismo a António José Seguro. A apetência para o contacto popular e as ligações que Marcelo vai tendo aos locais propiciam a atenção mediática. O ex-Presidente foi vogal da Associação de Futebol de Angra do Heroísmo, que o indicou para vogal da Federação Portuguesa de Futebol ainda antes do 25 de Abril de 1974.
A história foi, aliás, recordada por Marcelo quando esta quarta-feira foi homenageado pela Federação Portuguesa de Futebol. É normal que António José Seguro também vá ver jogos da seleção aos EUA ou ao México, mas não é de estranhar que Marcelo — pessoa querida de vários dos jogadores mais antigos da seleção, como Cristiano Ronaldo — também por lá apareça a convite da FPF e com mais presença e destaque que o atual Presidente da República. Não obstante estes perigos que podem criar irritantes, isso, até agora, ainda não aconteceu.
Os elogios de Seguro a Marcelo
António José Seguro tem optado por um respeito imaculado relativamente ao antecessor, que começou logo na tomada de posse. O atual Presidente quis deixar “uma palavra de gratidão pela sua dedicação a Portugal e à defesa do interesse nacional” e ainda acrescentou que “qualquer que seja o balanço que cada um faz dos seus mandatos, ninguém pode negar-lhe o seu amor a Portugal.” Na mesma linha, citou Jorge de Sena para elogiar o Presidente Marcelo por fazer sempre o 10 de Junho em território nacional e no estrangeiro, junto da diáspora — solução que manteve.
Há ainda outros exemplos do reconhecimento de Seguro a Marcelo, para além da condecoração pró-forma que lhe atribuiu no dia da posse. Quando, após um intenso trabalho diplomático, foi libertado o português que tinha sido detido pelo Grupo Wagner na República Centro Africana, Seguro não quis os louros e não esqueceu o antecessor, que nomeou com pompa. “O Presidente da República agradece todos os esforços que o seu antecessor, Professor Marcelo Rebelo de Sousa, efetuou durante o seu mandato, que concorreu para este desfecho.”
Quando reuniu o primeiro Conselho de Estado, Seguro também não teve pudor em chamar, em frente das câmaras e de outros conselheiros, Marcelo Rebelo de Sousa para uma reunião prévia. Virou-se para o antecessor e atirou: “Tem tempo?” O ex-Presidente concedeu esse tempo ao sucessor. Outra curiosidade: depois do presidente da AR e do primeiro-ministro, a terceira pessoa a quem Seguro deu a palavra nesse Conselho de Estado foi, precisamente, a Marcelo Rebelo de Sousa.
A relação está a ser vista com naturalidade dos dois lados. Do lado de Marcelo, segundo apurou o Observador junto de fonte próxima do Ex-chefe de Estado, o ex-Presidente defende que “Presidente só há um”. Além disso, sabe o Observador, Marcelo desdramatiza eventuais problemas de coabitação, uma vez que “houve sempre antigos Presidentes” e que o próprio chegou a conviver com quatro antecessores. Mas desde que o “mais antigo [Presidente] existe como tal há quarenta anos (…) a norma é a de bom relacionamento entre os sucessivos Presidentes e os seus antecessores.” É essa norma que Marcelo espera que Seguro cumpra. E, até ver, está a acontecer. O mesmo sentimento existe em Belém.
Seguro e Marcelo: as guerras antigas que vieram das origens
António José Seguro e Marcelo Rebelo de Sousa já andam há muitas décadas na vida política e, por isso, tiveram as suas querelas. Quando o atual Presidente era líder do PS e alterou os estatutos do partido — de forma a que pudesse ir a votos em 2013 e garantir que seria o candidato a primeiro-ministro nas legislativas de 2015 –, o então comentador político foi demolidor no comentário semanal em prime time.
Marcelo sugeriu então, em abril de 2012, que Seguro estava a fazer um golpe e que era fraco. “Um líder forte não precisa destas golpaças. Um líder forte não precisa da golpaça de fazer revisões de estatuto violando os estatutos. Não precisa”, disse um então comentador. O ex-líder do PSD acusava então Seguro de, em vez de alterar os estatutos no Congresso, o estar a fazer “na secretaria “. Apesar de a Comissão Nacional ter aprovado a alteração com mais de 90%, Marcelo carregava nas tintas: “Ele tem 90% porque tem o aparelho e quem tem o aparelho tem 90%. O Sócrates também teve 90% no último Congresso antes de cair fragorosamente. Quem for eleito no começou de 2013, vai até ao fim de 2015, até às legislativas. É absurdo? É.” O comentador concedia então que a estratégia de Seguro era “eficaz”, pois limitava António Costa a menos que existisse uma “pequena revolução” no PS.
No dia seguinte, o PS respondia na mesma moeda. Em comunicado, o Secretariado Nacional acusava Marcelo de “faltar à verdade” e escrevia que “durante largos minutos, Marcelo Rebelo de Sousa permitiu-se interpretar e fazer juízos de valor e de intenções sobre o carácter e as motivações do secretário-geral do PS, denegrindo o seu bom nome e reputação, atentando contra a sua integridade moral e imagem de cidadão e de político, com base em pressupostos e factos totalmente falsos.”
O PS dizia ainda que iria “formalizar a solicitação do direito de resposta/retificação à TVI (o qual já foi solicitado telefonicamente)” e lamentava a “tamanha falta de ética ou de profissionalismo de Marcelo Rebelo de Sousa.” O próprio António José Seguro iria de viva voz à TVI acusaria Marcelo de ter operado um “ataque vil e miserável”.
No domingo seguinte, Marcelo voltaria à carga. De forma vil, dizia sentir-se “muito lisonjeado”, mas que Seguro acabaria de cometer um básico “erro político”: “Um candidato a primeiro-ministro só pode entrar em debate com uma pessoa, o primeiro-ministro”. E acusava ainda o então líder do PS de se vitimizar: “Quer encontrar um responsável ou um culpado, e só encontra um, que foi o que causou esta trapalhice, chama-se António José Seguro.”
Puxando ainda mais atrás a fita do tempo, quando era Marcelo o líder da oposição e Seguro um delfim de Guterres, é possível encontrar outro momento mais tenso. Na rentrée de final agosto de 1998, marcada pelo referendo que existiria em novembro sobre regionalização, o então líder do PSD Marcelo desafiou o primeiro-ministro Guterres para um debate sobre o assunto e acusou-o de simular instabilidade política para ir a votos. António José Seguro, membro do Secretariado e secretário de Estado, seria o escolhido do PS para responder a Marcelo, retorquindo que instável era o então presidente do PSD. “Foi um discurso que não trouxe nenhuma novidade, que acentuou a tónica da instabilidade. E eu gostava de dizer que os portugueses sabem que a única instabilidade que existe que conhecem em Portugal é do professor Marcelo Rebelo de Sousa. Provocada pelo nervosismo de pensar que o sim deve ganhar no próximo referendo. E isso dará muitas dores de cabeça, muitas mais das que já tem neste momento com a crise que tem no interior do PSD”, atirou violentamente Seguro.
Os choques que ambos tiveram foram, no entanto, noutras vidas. A relação entre os dois está agora muito mais pacificada e despartidarizada. Mesmo que Marcelo tenha recentemente voltado à condição de militante efetivo do PSD, António José Seguro está agora adormecido e até faz por se afastar da ideia que um dia foi secretário-geral do PS.
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