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"Já chega, é hora": Ricky van Wolfswinkel, o avançado sem ídolos que superou um aneurisma, anuncia final da carreira aos 37 anos

Ricky van Wolfswinkel passou por França, Inglaterra, Países Baixos, Espanha e Portugal mas fez questão de ir lembrando que nunca esqueceu o Sporting, onde conseguiu os melhores números da carreira.

Manuel Conceição Carvalho
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Ricky van Wolfswinkel. O nome é bem conhecido dos sportinguistas, que também o tratavam por wolf (lobo). Foi muitas vezes oásis de golos no meio de um deserto de troféus e deu algumas alegrias em altura de preocupação. Agora, com a certeza de que deu “tudo o que tinha”, o goleador neerlandês anunciou que se vai retirar dos relvados aos 37 anos no final da temporada pelo atual clube, o Twente.

Quando chegou ao Sporting, no verão de 2011, Wolfswinkel não conseguia “descrever o quão contente” estava. “Não consigo encontrar uma coisa que não seja boa neste clube. É muito bom para mim. Um clube com um grande treinador, uma grande equipa e grandes adeptos”, afirmou na apresentação como jogador dos leões, que pagaram 5,4 milhões de euros ao Utrecht. O avançado, pouco depois de chegar ao Sporting, admitiu em entrevista ao Expresso “nunca” ter tido ídolos. “Nunca tive um ídolo, não sei porquê. Na escola, uns diziam que eram o Van Basten, outros o Van Nistelrooij, mas eu dizia que era o Erik Willarts, o meu tio que jogava no Utrecht. Gostava de ver o Michael Owen, mas não ligava muito”, afirmou.

Na altura, em 2011, o Sporting atravessava um período particularmente complicado em termos institucionais e contratou mais de uma dezena de caras novas. No balneário, eram quase tantos os reforços como os atletas que transitaram da temporada anterior. No onze titular, os reforços formavam a maioria. Wolfswinkel fazia parte dos outsiders mas os seus golos rapidamente deram outro estatuto no plantel leonino.

A sucessão de Postiga, 25 golos e uma figura de quem todos gostavam em Alvalade

Hélder Postiga era dono da posição mas isso estava prestes a mudar. Domingos Paciência, na altura técnico dos leões, teve um início de temporada difícil que voltava a levantar muitas dúvidas no universo verde e branco. O Sporting começou o Campeonato com um empate frente ao Olhanense, um empate contra o Beira-Mar e uma derrota em casa diante do Marítimo. Dois pontos em nove possíveis. FC Porto e Benfica seguiam separados por dois pontos nos primeiro e segundo lugar, respetivamente.

À quarta jornada, o calvário parecia prosseguir. O Sporting continuava à procura da primeira vitória e Postiga à procura de marcar o seu primeiro golo. Até à terceira jornada, nenhum dos quatro golos marcados pelo Sporting tinha sido apontado por um ponta de lança. Foi preciso esperar pelos 83 minutos da quarta jornada para que isso acontecesse. Não foi Postiga a fazê-lo, que entretanto saiu para o Saragoça. Foi Wolfswinkel, que reconheceu qualidades a Postiga. “Gosto mesmo dele e ainda falamos. Todos diziam que tinha problemas em marcar e blá, blá, blá, mas desde o primeiro dia que acho que tem tudo o que é preciso num grande avançado”, disse na mesma entrevista em 2011.

O avançado acabou com o mau início dos leões na Liga, com o golo da reviravolta sobre o Paços de Ferreira, que esteve a ganhar por 2-0 até aos 73 minutos. Em cerca de dez minutos, o Sporting fez a reviravolta. Quem selou a cambalhota no marcador foi Ricky van Wolfswinkel, que tinha saltado do banco cerca de 20 minutos antes de marcar o seu primeiro golo oficial pelos verde e brancos. A partir daí, Domingos não teve dúvidas. Nem Wolfswinkel. Logo no jogo seguinte, na fase de grupos da Liga Europa, com o Zurique, o neerlandês voltou a precisar dos mesmos 20 minutos para marcar. Mas desta vez começou como titular. E assim continuou no jogo seguinte. Wolfswinkel estreava-se como titular no Campeonato, diante do Rio Ave. Que melhor estreia na Liga como titular do que um golo logo aos três minutos? Wolfswinkel apontou um dos três golos do Sporting em Vila do Conde (3-2) e o embalo parecia ainda estar no início.

Foram dois golos que antecederiam outros 23. Wolfswinkel atingiu a melhor marca de golos na sua carreira nessa época, apontando 25 golos em 47 partidas, na época 2011/2012. Entre alguns dos mais importantes, ficam o calcanhar diante da Lazio ou o golo frente ao Manchester City, na noite em que o Sporting conseguiu fintar os milhões de Etihad com uma defesa de Rui Patrício a um cabeceamento de Joe Hart, no último minuto de jogo. Ricky van Wolfswinkel foi uma das figuras dessa campanha na Liga Europa que acabou nas meias-finais, diante do Athl. Bilbao, já com Sá Pinto como técnico principal.

Apesar do período conturbado do clube, o avançado dos Países Baixos continuava a mostrar serviço. Os treinadores iam, os golos de Wolfswinkel ficavam. Foi isso que aconteceu na pior época da história dos leões, em 2012/2013, com o atleta a conseguir marcar por 20 vezes em 41 jogos, numa temporada em que o Sporting terminou o Campeonato em sétimo lugar. Passaram pelo banco de suplentes nessa época Sá Pinto, que iniciou a temporada, Oceano, Vercauteren e Jesualdo Ferreira. Todos pareciam ter um favorito para a posição 9: Wolfswinkel. Nessa época, o Sporting realizou 42 jogos. O avançado, das 41 partidas em que participou, foi substituído apenas numa. Nos restantes 40, cumpriu todos do primeiro ao último minuto.

Foi no Sporting que Wolfswinkel chegou a pintar o seu Mustang de bege, “para evitar ferir as opiniões dos adeptos” e respeitar as regras em Alcochete, revelou na mesma entrevista ao Expresso. “O que me relaxa também é guiar o meu carro. Um Mustang de 66, que trouxe da Holanda. Descapotável. Bonito, ? O problema é que era vermelho. Mandei-o pintar de bege pelo Sporting, para evitar ferir opiniões dos adeptos”.

Uma saída no verão para Norwich fechada em fevereiro para o Sporting pagar contas

A saída de Wolfswinkel dos leões efetivou-se no verão de 2013. O Norwich gostou do rendimento do avançado (45 golos e quatro assistências em 88 jogos) e pagou cerca de dez milhões de euros para levar o neerlandês para Carrow Road. Mais: esse acordo foi fechado ainda em fevereiro, antes das eleições do clube, para debelar problemas de tesouraria. No entanto, a realidade ficou longe das expetativas: um golo em 27 jogos na época 2014/2015 ditaram um empréstimo ao Saint-Étienne na temporada seguinte, na qual o avançado melhorou os seus números, depois de marcar por noves vezes em 39 partidas.

Mais tarde, o avançado admitiu ao L’Équipe que não se sentiu feliz em Inglaterra. “Numa cidade como Lisboa e num país como Portugal, era tudo muito relaxante. A atmosfera e a cultura eram perfeitas para mim. Passei de um grande clube para um mais pequeno, com pouca história, como o Norwich”, afirmou. “Gostei de lá viver. Contudo, quando o futebol não é bom – e não era –, não me sentia feliz“, concluiu. Em entrevista ao jornal O Jogo, o avançado disse ainda que houve a possibilidade de regressar. “Passaram-se coisas estranhas…Mas enfim. Eu estava mesmo muito entusiasmado por poder voltar, as coisas não me tinham corrido bem no Norwich, e pensava que estávamos muito próximos do acordo. Mas quando cheguei a Alvalade, as coisas eram diferentes no papel em relação ao que tínhamos conversado”, revelou.

Depois do empréstimo ao Saint-Étienne, o regresso ao Norwich foi apenas por um jogo, na temporada 2015/2016, e antecedeu nova cedência por empréstimo, desta feita ao Betis, onde o avançado apontou três golos em 19 ocasiões. Foi depois dessa experiência que o avançado voltou a transferir-se em definitivo. O Vitesse pagou 600 mil euros pelo avançado e promoveu o regresso de Wolfswinkel ao futebol neerlandês, com 23 golos em 37 partidas.

O primeiro troféu como jogador profissional e o maior susto da carreira (e da vida)

O regresso foi apenas de uma época, uma vez que o Basileia pagou 3,5 milhões de euros pelo passe do avançado, no mercado de verão que antecedia a época 2017/2018. Nos RotBlau, Wolfswinkel apontou 37 golos em 115 jogos e ainda conquistou uma Taça da Suíça. Foi no Basileia que o neerlandês fez questão de frisar que nunca tinha esquecido os verde e brancos, antes de uma partida frente ao Benfica, que terminou com uma vitória do Basileia por 5-0. “É um jogo especial para mim, porque parte do meu coração ainda está com o Sporting, onde passei um período fantástico. Tenho ótimas memórias do meu tempo lá, por isso defrontar o Benfica dá-me algo mais”, afirmou então o avançado.

Foi também nos suíços que o avançado atravessou o maior susto da carreira (e da vida). Durante uma pré-eliminatória da Champions com o LASK Linz, Wolfswinkel sofreu uma pancada violenta na cabeça. Esse incidente, em agosto de 2019, viria a denunciar, através de um exame, um aneurisma cerebral que já lá estava antes da pancada e que o obrigou a fazer uma pausa na carreira de cerca de seis meses.

Depois do Basileia, já muito após a recuperação, seguia-se um regresso em definitivo ao futebol neerlandês, de onde Wolfswinkel nunca mais sairia. O Twente contratou o ex-Sporting a custo zero no verão de 2021. Foi lá que o avançado apontou 62 golos em 191 jogos e alcançou uma Taça dos Países Baixos.

Na última vez que pisou um relvado em Portugal – o do Dragão, em julho do ano passado –, Wolfswinkel fez questão de recordar o Sporting. “Sporting sempre. O Sporting tem um lugar muito especial no meu coração, por isso é que também é bom voltar aqui. O Sporting será sempre o meu clube”, disse na sequência da vitória do FC Porto diante do Twente (2-1), numa partida de preparação.

A despedida do Twente para não “fazer número”

Esta época leva dez golos em 31 partidas disputadas. Ao contrário do Wolfswinkel de 2012/2013, já não é o totalista de outros tempos. Essa condição adensou-se principalmente a partir do último mês de dezembro. Desde essa altura, o avançado cumpriu mais de meia hora de jogo por apenas seis ocasiões. Poderá ter sido por isso que Wolfswinkel, no último mês de abril, disse ao Voetbal que não ficaria no Twente apenas “para fazer número”. Mas já tinha na altura uma certeza sobre a possibilidade de vir a representar outro clube: “ou fico mais um ano no Twente ou retiro-me”. Optou pela segunda hipótese e anunciou a decisão, em conjunto com o clube, esta quarta-feira.

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No vídeo partilhado esta quarta-feira por clube e jogador é possível ver uma camisola do Sporting entre as de todos os clubes que Wolfswinkel representou. O neerlandês disse que “chega um momento em que sentes: já chega. É hora”. Chegou esse momento para o avançado de 37 anos. Ficaram para trás 230 golos em 649 jogos, além de duas internacionalizações pela seleção neerlandesa. “O que começou como um sonho, tornou-se numa vida. Uma vida cheia de disciplina, sacrifícios e momentos altos inesquecíveis, mas também com ‘passos atrás’ que me tornaram mais forte”, afirmou. “Dei tudo o que tinha. Em todos os treinos, em todos os jogos, em todos os momentos. Sempre com um sorriso”, acrescentou, garantindo que o futebol moldou-o na pessoa que é hoje.

Agora, diz o avançado, vem aí “um novo capítulo, um novo desafio, fora dos relvados”, mas garante que não é “um adeus ao futebol”, mas sim uma despedida à sua “carreira como atleta profissional”. O Sporting já reagiu, entretanto, ao anúncio do seu antigo atleta. “Parabéns pela carreira e boa sorte nesta etapa, Leão”.