A cerca de três semanas do arranque de Roland Garros, rebentou o escândalo no seio do segundo Grand Slam da temporada. A organização do torneio francês pode ter em mãos sérios problemas na antecâmara do início do mesmo, já que os tenistas estão descontentes com a distribuição dos prémios do torneio, o chamado prize money, desta edição. De acordo com a Federação Francesa de Ténis (FFT), os prémios desta edição cifram-se num recorde de 61,7 milhões de euros, prevendo-se um aumento de 9,53% face ao ano anterior. Entre aqueles que aderiram à rebelião estão grandes estrelas dos circuitos ATP e WTA, como Jannik Sinner, Carlos Alcaraz, Aryna Sabalenka e Coco Gauff. Segundo o Tennis Majors, Iga Swiatek, Jessica Pegula, Madison Keys, Jasmine Paolini, Emma Navarro, Qinwen Zheng, Paula Badosa, Mirra Andreeva, Alexander Zverev, Taylor Fritz, Casper Ruud, Daniil Medvedev, Andrey Rublev, Stefanos Tsitsipas e Alex de Minaur também estão presentes na lista que contempla mais de 20 tenistas.
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Na origem desta revolta está a diferença substancial entre a receita que organização tem através da venda de bilhetes e o valor que é distribuído pelos protagonistas do espetáculo, lê-se no comunicado conjunto que está assinado por mais de 20 tenistas da elite mundial. Nessa nota, os atletas queixam-se de terem recebido apenas 15,5% da receita gerada pela venda de bilhete em 2024, valor que caiu para os 14,9% este ano e passa para os 9,53% se se tiver em conta toda a receita, numa altura em que a organização prevê bater recordes só na venda de bilhetes, que deverá ultrapassar os 400 milhões de euros. Como solução, os tenistas querem que os Grand Slams estejam ao nível dos Masters 1.000, que distribuem 22% pelos jogadores.
Este ano, está previsto que o vencedor receba 2,8 milhões de euros, com metade a ir para o finalista vencido. Quem ficar nas meias-finais arrecada 750 mil euros, ao passo que os quartos de final valem 470 mil, os oitavos 285 mil e a eliminação na primeira ronda 87 mil. De notar que os valores são transversais aos circuitos masculino (ATP) e feminino (WTA) e que a organização comprometeu-se a aumentar os prémios na fase de qualificação para o quadro principal e nas primeiras rondas deste, com essa subida a fixar-se nos 12,9%. O objetivo passa por ajudar os jogadores com menor ranking a pagarem as despesas que têm ao longo da época. Contudo, as estrelas consideram essa medida insuficiente e falam de um problema que é estrutural.
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“Sem nós não havia torneio nem entretenimento. Merecemos uma percentagem maior. Vamos ver até onde conseguimos chegar, se será necessário que as jogadoras cheguem ao ponto de fazer um boicote. Hoje em dia, acho que nós, raparigas, podemos unir-nos, estar juntas e apostar em tudo, porque estamos a assistir a situações que são muito injustas para as jogadoras. Acho que, mais cedo ou mais tarde, vamos chegar a esse ponto. Quando nos apercebemos dos números que geram e vemos o que os jogadores recebem… acho que somos nós que fazemos o espetáculo. Acredito que, em algum momento, vamos boicotar os Grand Slams. Sinto que é a única forma que temos de lutar pelos nossos direitos, não há outra”, alertou Sabalenka durante o Masters 1.000 de Roma, que decorre até 17 de maio e antecede o início do torneio francês.
Já Aryna Rybakina, a número dois do mundo, colocou-se ao lado da sua principal rival. “Acho que as melhorias de que precisamos não se limitam aos Grand Slams nem se resumem apenas aos prémios monetários. Muitas pessoas não têm consciência de que os impostos são muito altos. Podes ganhar mais, mas grande parte vai para os impostos. Se a maioria decidir boicotar, claro que me vou juntar. Não haverá problema”, assumiu a cazaque, que reiterou ainda a sua preocupação com questões relacionadas com a saúde, as reformas e a representação dos atletas. Sobre esses pontos, o movimentos dos tenistas exige melhores planos de saúde, seguros de maternidade e uma estrutura mais sólida de pensões para a reforma, medidas que consideram deficitárias quando comparado com o que aconteceu noutros desportos.
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O El Confidencial acrescenta que a revolta dos jogadores começou a fazer-se sentir na temporada passada, tendo estes decidido enviar uma série de pedidos formais aos quatro Grand Slams. O Open da Austrália e o Open dos Estados Unidos atenderam aos perdidos dos jogadores e aumentaram os seus prémios 16% e 20%, respetivamente, algo que não aconteceu com Roland Garros, onde as condições até terão piorado. Em França, os tenistas pretendiam um crescimento anual de 14%, o que colocaria os prémios do torneio nos 61,7 milhões, o que revela um aumento de 5,3 milhões. A falta de resposta por parte dos organizadores pode traduzir-se no boicote. Apesar de estarem afiliados à Federação Internacional de Ténis através da Grand Slam Board, os Grand Slams são independentes e organizados pelas federações dos países anfitriões, que fixam os seus prémios e tomam as suas decisões sem a intervenção da ATP e da WTA.