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Patti Smith: "Vou fazer 80 anos. Estes são os piores tempos que já vivi e o meu país é uma das grandes razões"

Fez da poesia punk e do punk poesia e, aos 79 anos, regressa com um novo livro, "Pão de Anjos". Em entrevista, fala sobre memória, luto, escrita, imaginação e o desejo de um mundo melhor.

Joana Moreira
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Do outro lado do Atlântico, a partir de Nova Iorque, Patti Smith atende o telefone. Reconhecemos-lhe a voz encantatória, que se demora em cada palavra que parece vir de um lugar mais profundo. Durante cerca de meia hora, a cantora e escritora norte-americana responde como quem atravessa a própria memória, cada pensamento surge como um pequeno desvio meditativo, nunca apressado, nunca superficial.

Figura central da cena artística nova-iorquina na transição entre os anos 60 e 70, apelidada de “Madrinha do Punk”, influência inquestionável na cultura pop-rock nas décadas que se seguiram e em contínua atividade (e sempre atenta às vanguardas), Patti Smith (Chicago, EUA, 1946) construiu uma obra que atravessa décadas e géneros, da música à poesia, da performance à escrita.

Se, por um lado, o seu álbum de 1975, Horses, é frequentemente incluído nas listas dos melhores álbuns de todos os tempos — o mesmo que celebra o 50.º aniversário com uma digressão que ainda decorre —, também enquanto escritora Patti Smith se afirmou de forma consistente. O livro de estreia, Apenas Miúdos (2011, Quetzal), foi distinguido com o National Book Award e tornou-se um clássico contemporâneo da literatura de memórias, um portal mágico para os dias do Chelsea Hotel e de Nova Iorque no fim dos anos 1960. Agora, e vários títulos depois, está de volta com Pão de Anjos, um livro que os editores descrevem como o seu mais íntimo e visionário — uma travessia que vai da infância à consagração artística, versando sobre assuntos sobre os quais Smith raramente escreveu ou mesmo falou em público.

Foi a propósito deste novo livro, publicado em abril em Portugal com a chancela Quetzal, que acontece esta entrevista, em que percorremos algumas das memórias que moldaram a artista, de uma infância dura marcada pela precariedade, mas também pela imaginação, até à sua formação artística e espiritual. Mas Patti Smith abre-se também ao presente: fala sobre o luto, a criação como forma de resistência e a forma como a nossa identidade bebe das nossas influências. Aos 79 anos, permanece com o mesmo olhar inquieto sobre o estado do mundo, marcado por guerras, uma crise ambiental e uma urgente responsabilidade coletiva.

Nos minutos finais, já depois de desligado o gravador, houve ainda tempo para um aparte, expressando a vontade de regressar a Portugal, de explorar o norte do país em particular. Do outro lado da linha, confidencia, o sorriso quase audível, ainda o seu apreço por vinho do Porto. Tem uma garrafa do seu ano de nascimento guardada, oferecida por uma pessoa “muito especial”. “Está mesmo à minha frente”, diz-nos, espera abri-la em dezembro, no próximo aniversário: fará 80 anos.

Neste livro, Pão de Anjos, parece regressar ao ponto de partida: à infância, à família e às questões espirituais que a têm acompanhado desde muito cedo. Por que sentiu a necessidade de voltar ao princípio?
Bem, na verdade, tive um sonho. Não tinha intenção de escrever este livro, mas sonhei que tinha recebido uma encomenda. E, dentro dela, estava um livro que eu tinha escrito, já totalmente concluído. Era branco, com uma fita branca, e estava dividido em quatro secções, com quatro vestidos. O primeiro era um vestido da minha infância e falava da minha infância. O segundo era o vestido que o Robert Mapplethorpe me deu, outro vestido branco, e falava de arte. O terceiro era o vestido que o meu irmão me deu, outro vestido branco, e falava da vida pública e de rock and roll. E o quarto era o meu vestido de noiva, e falava de amor. Era um livro tão bonito e, durante semanas, assombrou-me, não me saía da cabeça. Senti que talvez fosse suposto escrever este livro. Foi aí que decidi que iria escrever o livro com que sonhava.

Costuma seguir os seus sonhos? Não digo no sentido de ambição, mas de forma literal: tornar real aquilo que sonha?
Há alguns sonhos com os quais estamos apenas a gastar stress e energia a tentar perceber coisas pelas quais passámos. Mas há alguns sonhos, para mim, que são como sinais e ouço-os sempre. Muitas vezes sonho com algumas das minhas canções, como [My] Blakean Year ou Wing. Tenho certas canções em que acordei com elas, estava a sonhar com ela e depois escrevi-a. Os sonhos, para um artista, podem ser… Bem, para toda a gente, podem resolver certas coisas. É como se a imaginação funcionasse enquanto dormimos.

Causa alguma inveja ouvir isso para quem não se lembra de sonho nenhum. Sempre foi assim, desde criança, sempre teve muitos sonhos?
Sim, mas especialmente depois de ter tido escarlatina. Tive febres muito altas durante alguns dias. Eu adoecia bastante quando era criança e tinha muitas febres, que me provocavam sonhos muito intensos. Mas o meu pai não sonhava. Dizia sempre, e por isso digo-o também, “sim, sonho, só não me lembro”.

Sim, já ouvi essa teoria.
Acho que sou só uma daquelas pessoas que tem sonhos muito intensos. Não me lembro de todos, mas de alguns lembro-me. Alguns são tristes, como quando sonho com alguém que perdi — o meu marido ou outra pessoa —, e sonho que estamos sentados a conversar. Acordo feliz e depois percebo que era um sonho. Mas tento prestar atenção aos meus sonhos.

Mencionou o facto de ter estado doente em criança. Neste livro, aborda as circunstâncias difíceis em que cresceu, a instabilidade económica, as várias doenças, as mudanças frequentes. Como acha que tudo isso moldou a sua sensibilidade — e não apenas como artista?
Talvez isso me tenha tornado mais resiliente. Ter passado por tantas doenças também me deu a confiança de que poderia continuar a sobreviver. Mas, apesar de termos passado por muitas dificuldades quando era jovem, a maior dificuldade era quando não havia comida suficiente. Eu adorava os meus irmãos, eu sabia ler, tinha muitos livros. Não posso dizer que tenha tido uma infância infeliz. Havia amor. Eu sentia amor. Por isso, para mim, especialmente por parte dos meus irmãos, todo esse amor foi uma dádiva. Acho que foi o amor e a confiança deles em mim que me deram força para fazer as coisas que fiz mais tarde na vida. Tive muita sorte nesse aspeto.

Uma das histórias da sua infância que recorda é a “história da tartaruga”, um dia em que desapareceu e as pessoas na escola ficaram muito preocupadas, chamaram os seus pais, inclusivamente, e quando regressou disse apenas tinha estado “em lado nenhum”, onde, revela-nos, avistou uma grande tartaruga. Mas quando o seu pai lhe pediu que o levasse a esse “lado nenhum”, nem sinal dela.
Sim [risos].

Pode explicar melhor o que é esse “lado nenhum” e o que isso significa para si?
O que é estranho é que… Como disse, sei que aquilo aconteceu, a enorme tartaruga saiu da água. Havia grandes tartarugas quando eu era jovem. Sentei-me com ela e ela estava a falar comigo. É tudo o que me lembro, e passaram muitas horas. Até hoje, não consigo dizer-lhe a si nem a ninguém o que aconteceu. Porque, para mim, pareceu que só tinham passado alguns minutos. De alguma forma mergulhei no meu subconsciente, ou no subconsciente da tartaruga, e fui levada para… como se fosse para a Terra do Nunca. Sinceramente, não faço ideia de onde fomos. Tudo o que posso dizer é que é outro reino da imaginação, muito precioso e difícil de encontrar. Mas foi um acontecimento real. Aconteceu mesmo.

Ao ler o livro, é fácil criar uma grande empatia pela figura do seu pai, mas, já perto do fim, revela uma descoberta, também para si, tardia: ele não é o seu pai biológico. Escreve que durante algum tempo foi “impossível escrever” e que se sentiu “forçada a questionar tudo o que tinha escrito”. O que significa “questionar tudo” e como é que encontrou o caminho de volta à escrita?
Muitas vezes, especialmente quando se é conhecido, as pessoas escrevem todo o tipo de coisas sobre nós. Escrevem livros sobre nós. Algumas coisas são verdadeiras, mas muitas são inventadas ou resultam daquilo que um assessor de imprensa disse. Queria escrever um livro sobre a minha vida em que tudo fosse verdade, que não houvesse exageros nem boatos. Mas, de repente, não sabia como processar ou o que fazer com esta nova informação. Senti que, na promessa que fiz a mim mesma de tornar tudo verdade, não sabia como explicar que o meu pai me criou, mas que não era o meu pai biológico. Parei de escrever, e demorei a voltar, não por estar zangada ou triste ou algo do género, mas porque não tinha a certeza do que fazer com esta informação.

Uns dois anos depois percebi que o melhor era simplesmente contar a verdade. E foi isso que aconteceu. Não tinha conhecimento dessa informação e queria contar a verdade sobre isso, mas também mostrar às pessoas que descobrir coisas novas sobre nós próprios não é necessariamente algo mau. Claro que fiquei muito surpreendida e até triste porque amo muito o meu pai, mas, por outro lado, também fiquei grata a este outro, ao meu pai biológico. Ele deu-me vida com a minha mãe. E esta descoberta também explicava, de certa forma, certas características que eu tinha, que descobri que ele tinha e que a minha família não tinha. Eu parecia-me com ele. Ele tinha muita bravata, era um pouco arrogante como eu, mas trabalhador. E adorava arte. Descobri que algumas das coisas em que eu era tão diferente em relação à minha família, afinal, tinham uma fonte real. Demorei um pouco a perceber como escrever isto de uma forma compreensiva e simples… Espero ter conseguido.

É irónico que nas primeiras páginas de Pão de Anjos escreva que “questionar tudo” era o seu mantra desde miúda por influência precisamente do pai que acreditava ser o seu, biologicamente falando.
Sim, era assim que o meu pai era, ele questionava tudo. Aprendi a questionar tudo, quer fosse sobre religião, história ou tudo o que fazíamos. Mas, no fim de contas, sinto que continuo a estar muito grata. Tomei o meu pai, Grant [Smith], como modelo, e, por isso, sou muito parecida com ele. E, no meu sangue, está o meu outro pai. Acontece que tenho dois pais. Um que nunca conheci.

Escreve que foi a sua filha que a ajudou a descobrir essa parte do seu passado, as suas raízes — uma filha que deu para adoção quando era jovem. Como é que essa reaproximação com ela mudou a sua compreensão da sua própria história e de si mesma?
Não é assim tão complicado. Ela encontrou-nos e… faz parte da nossa família. Mas é muito reservada. Concordei com ela em manter a vida e os pensamentos dela em privado. O que posso dizer é que ela é amada e faz parte da nossa família. Foi muito bonito que tenha sido ela, entre todas as pessoas, a ajudar-me a encontrar o meu pai, que também era avô dela.

Alguma vez tinha tentado restabelecer o contacto com ela?
Essas coisas são pessoais. Não quero falar sobre isso.

O seu trabalho é marcado pela perda — Robert Mapplethorpe, o seu marido, Fred Smith, o seu irmão, amigos íntimos. Qual é o papel da criação num momento de perda? A arte pode ser, de certa forma, uma maneira de sobreviver ao luto, ou são dois processos separados, distintos?
O luto e a perda são algo à parte, são como se fossem um animal próprio. Não se consegue realmente tornar melhor fazendo outras coisas. Podemos melhorar-nos a nós mesmos. Quando o Robert morreu, por exemplo, só escrevi Apenas Miúdos muito mais tarde. Escrevi outra pequena série de poemas chamada The Coral Sea, e escrevi-a freneticamente. Estava tão perturbada com a morte do Robert que a única coisa que conseguia fazer era escrever obsessivamente esses poemas.

Isso ajudou-me a superar naquele momento, mas não me ajudou, ao longo dos anos, a sentir menos tristeza ou a sentir menos a sua falta. Ainda no outro dia disse o quanto sentia a sua falta. Sempre que tenho uma exposição de arte ou faço algo de que ele gostaria… Sinto saudades do Robert todos os dias. Ele era tanto um amigo como um irmão, o meu namorado quando era jovem… Mas éramos tão próximos e ligados pela arte… Quanto ao meu marido, tenho os meus filhos. Vejo-o nos meus filhos. Mas são coisas distintas [o luto e a criação]. Isto é, sou uma trabalhadora. Tenho de trabalhar, seja como for. Às vezes trabalho mesmo quando estou a passar por algo doloroso, mas tenho tendência a ter dificuldade em escrever depois de uma grande perda. Não escrevi durante muito tempo depois da morte do Fred. Foi muito difícil para mim processar a sua perda, mas também sou uma pessoa responsável. Quando ele morreu, tinha dois filhos pequenos. Continuei a fazer coisas, a ser produtiva e, espero, a fazer algo que valesse a pena. Fui criada para trabalhar. O meu pai trabalhava numa fábrica, a minha mãe era empregada de mesa, trabalharam toda a vida. Fomos ensinados a trabalhar. Seja escrever um poema ou dar um concerto, para mim é tudo trabalho. Tento apenas fazer o meu trabalho. Quando, por vezes, a dor volta — sinto falta do Sam Shepard ou do meu irmão —, às vezes tenho de parar o que estou a fazer. Sento-me, penso e espero que a onda passe. Às vezes é uma onda de tristeza muito forte. Mas vai passar. Vai desaparecer. A tristeza vem e vai. E, bem, temos de continuar.

"O luto e a perda são um animal próprio. Não se consegue realmente tornar melhor fazendo outras coisas. Quando a dor volta — sinto falta do Sam Shepard ou do meu irmão —, às vezes tenho de parar o que estou a fazer. Sento-me, penso e espero que a onda passe. Às vezes é uma onda de tristeza muito forte. Mas vai passar. Vai desaparecer. A tristeza vem e vai. E, bem, temos de continuar"

Ainda a propósito do seu pai, um dos episódios que recorda é a primeira vez que ele a levou a um museu. Quão importante foi para si, sendo uma criança que talvez não tivesse um acesso tão facilitado à arte, essa descoberta?
Acho que talvez tenha sido uma coisa boa… Eu tinha livros, tinha muitos livros. Lia todo o tipo de livros. Via imagens de arte em revistas ou livros, mas nunca a tinha visto ao vivo. Ir a um museu de arte aos 12 anos, vê-la diante de mim e poder sentir todo o trabalho, digamos, místico por trás dessas obras, isso transformou-me realmente. Talvez tenha razão. Talvez, se tivesse visto aquilo toda a minha vida, não teria sido tão especial, mas não faço ideia. Tudo o que sei é que vê-lo naquele dia mudou a minha vida.

Conta que estava a ler a introdução do livro Queer, de William S. Burroughs, quando percebeu que queria ser escritora. O que a tocou particularmente nesse texto?
Sempre quis escrever. Quis ser escritora quando li o Pinóquio, mas queria referir-me ao que William menciona na introdução desse livro quando conta que, acidentalmente, alvejou e matou a sua esposa, a Joan. Ele diz que o facto de ter matado a sua esposa — a morte dela — foi, em parte, responsável por ele se ter tornado escritor. Este acontecimento traumático e a necessidade de se expressar constantemente depois disso fizeram dele um escritor. Comecei a pensar nos acontecimentos que nos levam a querer ser escritores… Alguns poderão dizer que foi um chamamento de Deus ou das musas, outros dirão: “Porque isto aconteceu na minha vida”, ou “li aquele livro…”. Há coisas, influências na vida de uma pessoa, que nos impulsionam.

Não tenho a passagem aqui comigo, mas sei que ler essa introdução — porque eu era amiga do William e falávamos sobre muitas coisas — me tocou profundamente. Porque o William parecia ser tão independente, tudo vinha dele próprio. E, nessa introdução, percebi que nem tudo vem apenas de nós próprios. Somos os nossos irmãos, somos os nossos pais. Somos… eu sou o Bob Dylan. Eu sou o Picasso. Somos as coisas e todas as pessoas da nossa vida. Todas as influências ajudam a que nos tornemos em quem somos, mas, no final, somos nós próprios. Não sinto que seja outra pessoa senão eu mesma, mas sei que todas estas pessoas me influenciaram.

"Os artistas podem inspirar. Podemos compor uma canção. Podemos manifestar-nos. Podemos doar dinheiro. Podemos sair à rua. Mas precisamos de pessoas. Muitas pessoas dizem: “Bem, não deveria todo o artista manifestar-se?” E eu respondo sempre: Todos se deveriam manifestar. Todos os seres humanos. É isso que sinto. Não é uma responsabilidade apenas dos artistas — é de cada um de nós"

Falando de referências, há muitas neste livro: muitos escritores, muitos textos. De alguma forma, ficamos a conhecê-la também como leitora. Uma das referências que recupera é o poema de Emily Dickinson, Esta é a minha carta ao mundo. Sente que a sua obra — e este livro em particular — é uma carta? E, se sim, dirigida a quem?
Bem… este livro, em particular, é, para mim, a minha carta. É a minha carta ao mundo. É a minha carta a dizer-me para contar às pessoas, dizer ao leitor: sim, é sobre mim, mas é sobre o percurso de como nos tornamos quem somos. Se me tirassem da equação, se tirassem o meu nome do livro, é apenas o contar de coisas pelas quais todos passamos. Todos nós temos uma infância. Todos nós talvez tenhamos doenças, dificuldades, sonhos — sonhos que são abandonados ou destruídos. Temos perdas, descobrimos coisas que nunca soubemos sobre nós próprios. Viajamos. Por isso, espero apenas que o livro dê às pessoas coisas com que se identifiquem, ou certas coisas que lhes possam ser úteis ou inspiradoras. Dessa forma, talvez não tivesse pensado nisso, mas talvez seja a minha carta. Veio até mim num sonho e depois escrevi-a — e estou a devolvê-la.

No final do livro, escreve: “Não mudei assim tanto”. Aos 79 anos, em que é que mudou?
Quando se é jovem temos muito mais arrogância. Era menos empática. Estava muito concentrada no que estava a fazer, era impulsiva, todas essas coisas necessárias para as tarefas que tinha em mãos quando era jovem. Mas, nesta fase da minha vida, consigo dar um passo atrás e ser mais compreensiva com as pessoas. Consigo ser menos crítica. Além disso, estou mais velha, por isso já não sou tão ágil fisicamente como era. Eu corria rápido. Agora corro muito devagar [risos]. Tantas coisas mudaram, mas não a minha imaginação e o meu entusiasmo por novas aventuras e por escrever mais uma história. Ver que a minha imaginação está intacta… Sabe, essas coisas são boas. Quer dizer, aos 79 anos mudamos fisicamente, claro, tenho agora muitos desafios físicos que não tinha há 10 anos. Mas, por outro lado, a minha imaginação está tão forte como nunca.

E a sua memória? Ao ler estas páginas, algumas recordações são extremamente vívidas. Mantinha diários ou a sua memória é simplesmente extraordinária?
Tenho uma memória forte da infância e, como os meus irmãos e eu trocávamos as nossas histórias vezes sem conta — tal como o Robert e eu fizemos —, elas ficaram gravadas na minha memória. E sempre mantive diários ao longo de toda a minha vida, sim. Mas muitas coisas vieram da memória que tinha delas. Também consultei o meu álbum de bebé, que a minha mãe fez e que me dizia exatamente para onde nos mudámos, coisas da minha infância. Depois, a minha irmã ainda está viva — perdi o meu irmão ainda jovem —, por isso, quando não me conseguia lembrar de algo, ligava-lhe e partilhávamos a memória juntas, e ela tornava-se muito vívida, permitindo-me escrever sobre isso.

Uma espécie de consultora histórica.
Sim. A minha irmã, a Linda, era exatamente isso. Gosto dessa expressão. Ela é como um anjo, diz sempre a verdade e tem uma memória fantástica. Conseguíamos encaixar algumas coisas. Eu não me lembrava de certas coisas e ela também não, mas conhecíamos sempre as histórias. Então conversávamos sobre elas… Isso talvez tenha contribuído para torná-las mais vívidas quando estava a escrever.

“Estamos a viver os piores tempos que já vi na minha vida e vou fazer 80 anos em dezembro. Estes são os piores tempos e o meu próprio país é uma grande parte da razão. Estou não só profundamente envergonhada e zangada, como isto me enche de tristeza. É muito difícil provocar mudanças num país tão dividido"

Diz que a idade lhe trouxe mais empatia e compaixão, mas, ao longo da sua carreira, sempre assumiu posições públicas contra a guerra, em prol de direitos humanos, do clima, da Palestina. Os artistas têm hoje uma responsabilidade política maior ou sempre a tiveram?
Todas as pessoas têm responsabilidade. E os artistas podem inspirar as pessoas. Podem talvez inspirá-las a fazer mudanças ou a usar a sua voz. Se forem conhecidos, podem manifestar-se de uma forma que talvez atraia alguma atenção da comunicação social. Mas é uma responsabilidade humana básica. Não quero dizer que toda a gente deva marchar e protestar, mas todos devem contribuir para tornar o nosso mundo melhor.

Quando as pessoas me perguntam: “Bem, o que posso fazer? Sou mais velho. Não sou uma pessoa política. O que posso fazer?”, respondo simplesmente: sê uma boa pessoa, irradia amor, ajuda o teu vizinho — qualquer pequeno gesto para tornar o nosso mundo mais unido, mais bondoso. Neste momento, estamos a viver os piores tempos que já vi na minha vida, e vou fazer 80 anos em dezembro. Estes são os piores tempos que já vivi. E o meu próprio país é uma das grandes razões pela qual são os piores. Estou não só profundamente envergonhada e zangada, como isto me enche de tristeza. Mas não posso fazer muito. Não tenho qualquer poder político real. Especialmente na América, sou muito mais respeitada ou conhecida na Europa e até na Ásia do que no meu próprio país. Também por causa das minhas convicções políticas: fui contra a guerra no Iraque — a chamada “guerra”: foi uma invasão. Não estamos em guerra com o Irão. Nós é que o bombardeámos. Criámos um ato de guerra. E o que Israel está a fazer ao Líbano, o que Israel fez à Palestina, tudo isso é desumano, ter de viver com isto… Por outro lado, há pessoas que estão a morrer à fome em países que nem sequer aparecem nas notícias.

O mundo está em crise, também do ponto de vista ambiental. A quantidade de incêndios no nosso planeta, e estas guerras tornaram o nosso clima ainda mais terrível. Há muito que nos revolta, nos indigna, e os artistas não chegam. É preciso que todos — todos. Como é que o Gandhi conseguiu a mudança? Era um homem só, mas inspirou milhões de pessoas a agir, a fazer o seu próprio sal, o seu próprio tecido. E, com milhões de pessoas, conseguiram derrubar o colonialismo e conquistar a sua liberdade. Portanto, não é um homem, ou um artista, ou dez artistas, ou cinco estrelas de cinema. Têm de ser milhões e milhões de pessoas a levantarem-se e a dizer: “Não vamos aceitar isto. Não vamos aceitar.” E o meu país, claro, é um país muito grande, um país enorme. É muito difícil provocar mudanças num país tão dividido.

O país e o mundo estão, de facto, muito divididos, polarizados. A minha pergunta era se, apesar de tudo, a arte e os artistas podem mobilizar, uma canção como a Power To The People
Compreendi a sua pergunta, mas estou a dizer que isso não basta. Os artistas podem inspirar. Podemos compor uma canção. Podemos manifestar-nos. Podemos doar dinheiro. Podemos sair à rua. Mas precisamos de pessoas. Precisamos de pessoas. É isso que estou a dizer. Muitas pessoas dizem: “Bem, não deveria todo o artista manifestar-se?” E eu respondo sempre: “Todos se deveriam manifestar. Todos os seres humanos.” É isso que sinto. Não é uma responsabilidade apenas dos artistas — é de cada um de nós.

“Fui contra a guerra no Iraque, a chamada "guerra": foi uma invasão. Nós não estamos em guerra com o Irão: nós bombardeamo-los. Criámos um ato de guerra. E o que Israel está a fazer ao Líbano, o que Israel fez à Palestina, tudo isso é desumano"

No livro escreve que o século XXI não se desenrolou como a sua geração imaginava, “sem harmonia universal, sem renúncia à guerra”. Como lida com essa desilusão? Onde encontra a esperança?
Temos de ter esperança, mas… a Palestina foi completamente destruída. Não tenho esperança pelos milhões de hectares de culturas e oliveiras que foram bombardeados e depois regados com produtos químicos. Não tenho esperança pelas pessoas que perderam todas as suas famílias, todos os seus filhos, tudo o que tinham… Não tenho… o que se pode dizer sobre esta situação? Não tem conserto. Só posso esperar que, de alguma forma, encontremos uma solução para podermos reconstruir. Foi por isso que escrevi a canção Peaceable Kingdom. E a letra diz que “talvez um dia sejamos fortes o suficiente para reconstruí-lo”. Podemos reconstruir, mas não podemos trazer de volta os mortos. Não podemos trazer de volta as crianças mortas. Não podemos trazer de volta as plantações destruídas. E é muito doloroso, mas terei sempre esperança. Enquanto tiver fôlego, tenho esperança. Estamos vivos todos os dias. Temos a possibilidade de fazer mudanças, de fazer coisas novas, de fazer algo de bom. Mas estamos a passar por tempos muito, muito difíceis — e isso também é mau para o nosso ambiente, talvez o mais importante de tudo. A menos que a humanidade faça algo, o que nos vai acontecer a nível ambiental? Por isso, tenho esperança porque é assim que sou. Sou uma pessoa otimista. Estou feliz por estar viva. Mas, em termos práticos, estamos em tempos muito conturbados. Ainda assim, não quero terminar com uma nota sombria. Adoro a vida. Estou feliz por estar aqui todos os dias. Estive toda a manhã a trabalhar num novo livro.

Sobre o que trata?
Comecei a escrevê-lo durante a pandemia. É, na verdade, uma espécie de… é um livro sobre entrar num mundo paralelo na esperança de aprender a salvar o nosso ambiente. Mas é muito poético… de certa forma, poético. Sabe, é um pouco como os meus livros, como O Ano do Macaco. Mas é mais ficção. A ideia por trás não é ficção, porque diz respeito ao nosso ambiente, mas a história é ficção. Estou a trabalhar nisso. Gosto de escrever… autoficção. Não sei se leu, por exemplo, o M Train?

Sim, li.
Bem, no M Train há o Continental Drift Club, lembra-se? Aqui regressa, e vamos para um mundo paralelo. É isso que estou a escrever.

Esse mundo paralelo fez-me pensar numa frase deste livro: “O artista procura o paraíso na vida — aquilo que não pode ser alcançado”.
O que acontece é que com a arte e com a escrita se pode alcançar qualquer coisa. E, por isso, talvez, se a nossa imaginação o conseguir, a humanidade também possa ter esperança de o alcançar. Mas queria dizer, antes de terminarmos, que o facto de estar zangada, de coração partido ou profundamente preocupada, não significa que não consiga expressar alegria. E, como disse, estou feliz por estar viva. Continuo a fazer o meu trabalho. Mas estou consciente, a cada minuto, do sofrimento dos outros.