Na semana passada, saiu no Observador um artigo sobre a hipótese de Pedro Nuno Santos vir a formar um novo Partido. A ideia tinha a sua candura e também fazia um certo dó. Candura porque parecia saída dos planos ingénuos de uma criança, que confunde o seu pequeno mundo com a realidade. Pensar num Partido gizado por Pedro Nuno Santos resulta num alfobre burlesco, de coreografias trapalhonas ao som de música cada vez mais desafinada, com os artistas vestidos com falsa pompa a pantomimar em cima de uma caixa de cartão para dois bêbados; à frente do grande aparelho político do país, Pedro Nuno Santos repeliu gente aos magotes; no entanto, imagina-se um Partido criado por ele, não como uma espécie de Aliança ainda mais tristes, mas como uma tradução portuguesa do Partido de Mélénchon: só mesmo nas cabeças infantis que julgam que os pais ganhariam as eleições caso se candidatassem à Presidência da República.
Ninguém gosta de revelar a uma criança que o Pai Natal não existe; mas o mais aflitivo no episódio nem é a desproporcionalidade entre o peso que se atribui a Pedro Nuno Santos e o esforço a que ele não sujeita a balança da opinião pública; o que é verdadeiramente triste é vê-lo regressar, depois de ser atirado para fora da política com toda a violência. O que é que leva alguém que foi maltratado publicamente, que recebeu a mais cruel e taxativa rejeição pública, a voltar ao lugar em que foi infeliz? Só uma humilhante dependência, da qual é difícil deixar de sentir pena. Como é que um homem que, aparentemente, consegue ter um bom trabalho, que pode fazer vida longe disto, volta, sabendo que não poderá lançar-se nos vôos que sonhou, que todos os dias lhe lembrarão as promessas não cumpridas de importância, poder e protagonismo? Só mesmo por vício, e um vício violento, auto-destrutivo, daqueles a que ninguém gosta de assistir.
O mais interessante no artigo do Observador, porém, não eram os reflexos de ex-trela caída de Pedro Nuno Santos; o mais revelador eram as declarações dos senadores da esquerda, Ferro Rodrigues e Francisco Louçã, a quem a peça perguntava pelas hipóteses de surgir, sob a égide do antigo comissário de bordo-mor da TAP, um partido de “esquerda populista”. É revelador porque o que estes filósofos estranham não é Pedro Nuno, é o termo “esquerda populista”. Ferro Rodrigues diz solenemente, com aquela hombridade dos puros, que “o populismo é de extrema-direita”, e que para ele a esquerda nunca é populista.
Ou seja, para Ferro Rodrigues a esquerda está, por definição, isenta do perigo do populismo. É difícil perceber sequer o que é que isto poderá querer dizer. Que a esquerda, se lhe foge a boca para promessas que não pode cumprir, tem um acesso imediato de afonia? Apaga-se-lhe o cérebro quando surge a tentação de pensar em ideias populares mas prejudiciais? E como é que isto se fará? Trata-se de um superpoder inoculado quando se lê Eduard Bernstein? É um truque que se ensina nas escolas de quadros do PS, apertar o nariz até desmaiar quando nos vem à cabeça um pensamento populista?
É curioso que Ferro Rodrigues imunize a esquerda contra o populismo, como se houvesse uma contradição entre os termos, porque os primeiros avisos contra o perigo populista (ainda com outro nome, claro) vêm precisamente dos únicos que, para ele, estão sujeitos ao vírus. Quando surge a Revolução Francesa, quando depois migra para o resto da Europa, são precisamente os Exilados, ou em Portugal os mais ferozes adversários dos franceses, como José Acúrsio das Neves, que alertam para aquilo a que hoje chamamos populismo como uma das maiores fraquezas da democracia. Ao estar dependente da vontade popular, a democracia está desprotegida contra fenómenos que a manipulam com recursos pouco escrupulosos, ou falsamente necessários. É impossível conseguir dar a toda a gente o grau de informação sobre todos os assuntos que um especialista tem; e qualquer pessoa sabe que muitas ciências surgem contra-intuitivamente, o que dá muitas vezes a soluções erradas um lastro muito mais fácil de seguir do que a outras que podem ser mais sérias, mas mais difíceis de explicar. Foi assim que, durante muito tempo, a direita francesa explicou o surgimento de Napoleão; vem daí o desdém daquela a que Ferro Rodrigues chamou “extrema-direita” pela democracia: da ideia de que não são os votos que compram a legitimidade de uma ideia verdadeira.
A tentativa de fazer do populismo um património exclusivo da extrema-direita é, portanto, além de anti-histórica, incompreensível. A menos que no dicionário de Ferro Rodrigues haja uma definição privada de “populismo”, não se consegue perceber o que é que Ferro Rodrigues pode querer dizer? Não há populismo na esquerda porquê? Porque as ideias de esquerda são verdadeiras, e por isso, mesmo quando são populares, não são populistas? Nesse caso, que seja corajoso e diga claramente: o populismo não é só de extrema-direita, é de toda a direita, e toda a direita é populismo. Se acredita que é na esquerda que está a verdade, e que é isso que distingue um populista de um popular, então qualquer voto na direita é populista.
É claro que nos estamos a esquecer de duas hipóteses igualmente plausíveis. É bem possível que Ferro Rodrigues não estivesse, na verdade, a dizer nada, e que ensaiasse apenas uma daquelas frases grandiloquentes que causam um certo efeito político; que não tenha ideia nenhuma sobre o que é o populismo, que se tenha lembrado de que haveria um aparato qualquer que pareceria bem-montado com aquelas palavras, e lá saíram elas; acontece, no entanto, que Francisco Louçã como que confirma a tese; e que alguém se lembrasse de juntar palavras e surgisse este cadáver esquisito, seria uma coisa; mas quando são dois, já sugere uma escola de pensamento.
Louçã vai mais longe que Ferro Rodrigues e, além de considerar a expressão, “populismo de esquerda”, “perigosa” e “armadilhada”, como um verdadeiro teórico que entra na análise munido da mais rigorosa precisão de conceitos, explica que o único populismo concretizado na Europa foi o nazismo. Desaparece a precisão, entra a trituradora, o populismo é nazi, o nazismo é populismo, e a coisa entra no terreno em que Louçã quer. Com uma frase, já os populistas são uns proto-nazis, e tudo isto com um truque que a esquerda trouxe há muitos anos para a discussão académica e que continua a dar os seus frutos. Alguém, algum dia, teve a ideia de que o teórico tinha direito a definir os seus próprios conceitos. Até certo ponto, nada contra. É importante que uma pessoa possa explicar sobre que é que está a falar. O que Louçã faz, porém, é outra coisa. É restringir um conceito, como se estivesse a balizá-lo para uso próprio, mas para depois usar a versão corrente com o significado que lhe atribuiu. O “único populismo concretizado foi o nazismo”. Perceberíamos, com boa vontade, se isto pretendesse remeter o uso da expressão para um momento histórico particular, da mesma maneira que se percebe que um cientista político só use a palavra fascismo para se referir aos fenómenos dos anos 20/30. Mas Louçã quer fazer uma coisa diferente – não quer restringir o fenómeno, quer contaminá-lo. O populismo concretizado é nazi significa que os populistas existentes hoje ainda não concretizaram aquilo que querem.
Há uns anos, escrevi sobre um livro de Rui Zink, um Manual do Bom fascista, que mais do que um retrato do fascista, é um bom retrato de Louçã e Ferro Rodrigues. Por vezes, quando estão tão embrenhadas nos seus ódios, as pessoas constroem uns pretensos monstros que encarnam todos os males, mesmo os mais contraditórios. É mais ou menos assim o populismo de Ferro e Louçã. Não assusta como eles pensam, só mostra que ainda acreditam em monstros debaixo da cama.