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(A) :: Em recuperação

Em recuperação

Entre a ironia e a cintilação do humor de que os ingleses têm o segredo e exclusivo planetário, Carlos disse tudo, sem excluir nada. Foi sábio e decisivo. Que as democracias o abençoem (ou ele a elas)

Maria João Avillez
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1 Um privilégio isto de sem pré-aviso sermos testemunhas de uma obra de arte perfeita em forma de discurso, que nos apanha, construindo-se à nossa frente, ao vivo e em directo, na trivialidade de um dia: o verbo, o propósito, o argumento e o seu fundamento. E a forma: o gesto, o tom, a graduação das pausas, o brilho intermitente do olhar, conforme o foco era o elogio, a observação ou a discordância polida.

Um grande momento só possível de ser vivido com aquela minúcia que nos traz o súbito enlevo com que nos descobrimos subitamente enlevados. Falo do Rei de Inglaterra, who else? Ainda estou a recuperar (já lá volto).

2 Claro que como aqui notou Alexandre Borges com amarga ironia no seu último texto de há dias, já temos, nós e o país, doutoramentos que cheguem em “recuperações”. Segundo as contas do Alexandre a pátria ganhou o hábito de “recuperar” desde pelo menos 1508, não iria tão longe: talvez não fosse preciso entortar tanto a cabeça para olhar para trás cinco séculos, podemos ficar só no XXI: dele somos espectadores menos crentes e mais inconvictos (a palavra existirá?) na “recuperação” como modo de vida de sociedades feitas de gente normalmente constituída. Mas enfim. E então, recuperação por recuperação, prefiro ao contrário: escolher eu própria aquilo de que quero recuperar, ficando de caminho – e afortunadamente – livre de planos, algarismos e datas oriundas de afanosos “recuperadores”, dentro e fora de portas.

Foi com este exercício que me entretive ultimamente, à margem a bem dizer de tudo. Da guerra e da paz, dos ossos do ofício; de maçadinhas da vida doméstica, do leque da minha impaciência militante, sempre a abrir-se; do (irremovível) facto de “em Portugal o óbvio é que é difícil” como dizia o meu benfeitor Ruben A. E por vezes, sim, até da guerra e da paz, tão reais quanto irreais.

3 Então é isto: o recente discurso de Carlos III nos Estados Unidos foi uma obra de arte – que outro nome lhe dar? – diplomática, política, cultural, civilizacional. Na actual maré baixíssima do uso da palavra como instrumento político, Carlos redimiu a política, tonificou a aliança transatlântica, honrou os melhores valores da civilização. O Ocidente bem lhe pode agradecer. Fê-lo ao lado do inconfiável dono da casa e diante dos representantes da grande América que parece já não o ser, mas que Carlos, com prodigiosa subtileza e o mais nobre emprego da diplomacia de que me lembro recentemente, tratou como se fosse. Ralhando-lhe com boas maneiras.

Não se recupera disto de pé para a mão. Nem do conteúdo nem de uma aristocracia assim entendida – quem diria que ele e o outro são irmãos? Entre camadas de finíssima ironia e a cintilação do melhor humor de que os ingleses têm o segredo e o exclusivo planetário, Carlos disse tudo, sem excluir nada. Foi rigoroso, sábio, decisivo. Que as democracias o abençoem (ou ele abençoe as democracias, não sei).

4 É a própria Ilda David que nos recupera de nós mesmos com o melhor da (sua) natureza humana. Desde o seu primeiro risco num papel ou da inaugural pincelada numa tela, suplanta a designação de artista plástica, está além. Nem ocorreria defini-la. Acompanho há muito o que faz para além de me encontrar com ela, com feliz frequência, nas paredes cá de casa. À hora a que escrevo num domingo de sol, Ilda está a caminho de Veneza onde a convite do Vaticano – o que será o mesmo que dizer, adivinho eu, a convite de José Tolentino de Mendonça – para participar na Bienal de Veneza, justamente no Pavilhão da Santa Sé. Foi por ela própria que o soube, não esqueço nem a sua espantada emoção (“foi assim tão de repente”…), nem a sua gratidão a Deus ou aos deuses por ter sido uma escolhida e não uma chamada.

Conversámos as duas na Galeria Ratton onde estreava uma série de estudos, esboços, projectos, inspirados na sua devoção à natureza que se deixavam ver por entre tracejados de luz e manchas de elementos vegetais. Fazia-o “em diálogo” com Lurdes Castro, senhora da sombra e poucas coisas superam um jogo no feminino a que também se pode dar o nome de “diálogo”.

5 Tenho tido a maior dificuldade em recuperar da quantidade industrial de riso de que fui “acometida” ao ver uma peça chamada “Super Star”. Foi no Estoril um destes dias, era no Casino, gosto mais de teatros, mas o que interessa é o que pode ocorrer em cima de um palco mesmo que dum casino, à vertiginosa velocidade do som, assente num surpreendente guião e em quatro actores ultra inspirados. A história desta “Super Star” é de um autor francês – do qual nada absolutamente sei, Stefan Cuvelier, a não ser que é mestre no quid pro cuo e maestro de fatais trapalhadas que resultam do que parecia ser mas afinal não era; da ambiguidade entre verdade, talvez mentira, afinal ilusão, ou finalmente nada disso.

Uma “marivaudage” (de Marivaux, dramaturgo que nasceu em 1688 no mesmo mês e dia que eu), era jornalista e adorava fabricar riso. Ou “boulevard” dirão alguns, nadando na desconfiança, entre o tédio e o bocejo. Seja o que for, é subtil, capaz da surpresa, solto, veloz e felizmente também despretensiosíssimo. Isto é, o riso não é intelectual, é só normal (novo bocejo?), embora exija “recuperação”: ri-se muito.

Ana Brito Cunha é simplesmente formidável no talento e na agilidade com que valsa entre o cómico e o burlesco. Mas a “Super Estrela” (Aldo Lima) vertiginosamente equivocada quanto a si mesma, o “canalizador romeno” (José Pedro Gomes) que afinal não era canalizador, e Vasco Pereira Coutinho, não lhe ficam atrás. Ninguém ali fica atrás, nem á frente de ninguém, o quarteto não é de cordas.

6 Em Portugal hoje ri-se pouco, quase sempre só à custa dos outros. Longe vão os gloriosos tempos de Herman em que a criatividade levava a melhor sobre a ideologia ou o ressentimento, mas se eu pudesse dar corda ao país para ele rir, daria. Mesmo que a sugestão – já estou a ouvi-los – embarace quem sabe se até ao cancelamento: rir? Com o país, os portugueses, os outros povos todos, o mundo, as flotilhas, as guerras no estado em que estão? O cabisbaixo ambiente não permitiria, enxote-se ideia e mate-se o riso. E no entanto, que bom foi ter testemunhado que apesar do perigo que ronda – que é imenso, que é verdade e que é pesado – o riso ainda se solta, se pousa em nós, e não parte.