Durante pelo menos um ano, um grupo de trabalho para troca de mensagens entre agentes da PSP, com cerca de 70 membros, terá sido utilizado também para partilhar vídeos de detidos, maioritariamente migrantes, a serem severamente torturados, agredidos ou violados. Em julho de 2025, foram detidos dois polícias; em março deste ano, mais sete. Esta terça-feira, foram detidos outros 15 polícias e um civil — entre os novos agentes detidos, apurou o Observador junto de fonte ligada ao caso, está Mário Vaz Maia, polícia e irmão do cantor Nininho Vaz Maia.
Neste momento, os agentes da polícia estão detidos nas esquadras do Cometlis (o comando metropolitano da PSP de Lisboa), onde deverão permanecer até serem presentes a juiz de instrução para o primeiro interrogatório e para a aplicação das medidas de coação — um momento que poderá arrastar-se até ao final desta semana, devido ao elevado número de arguidos detidos, disse ao Observador fonte conhecedora do processo.
Poucas horas depois da detenção, algumas das vítimas estiveram presentes nas instalações do Cometlis e, sabe o Observador, conseguiram identificar “a maioria” dos suspeitos de ter participado nas situações de violência — alegadamente, por terem estado presentes nesses momentos a assistir ou, também, a gravar as agressões físicas e verbais.
Apesar de a maioria das vítimas ser de origem estrangeira, o Ministério Público não menciona, por enquanto, qualquer motivação racial na origem dos crimes de que os agentes da PSP são suspeitos.
O primeiro alerta para este caso chegou em julho do ano passado, quando Guilherme L. e Óscar B., dois recém chegados agentes da Polícia de Segurança Pública, foram detidos. Mais tarde, acabaram acusados pelo Ministério Público (MP) de crimes como tortura, abuso de poder, violação e roubo, entre outros, praticados em muitos dos casos contra pessoas vulneráveis. Mas os procuradores alertavam: o número de envolvidos poderia aumentar.
No início de março, três meses depois de ter sido deduzida a acusação contra os agentes de 23 e 26 anos, o número aumentou novamente, com a detenção de mais sete agentes da PSP. Aos crimes iniciais, acrescentou-se a tortura grave. Ponto final no caso? Ainda não. Esta terça-feira, o número de polícias detidos mais do que duplicou, com a detenção de 15 agentes e um civil — que será um segurança de discoteca.
A única acusação já conhecida, relativa a Guilherme e Óscar, é explícita na descrição pormenorizada dos atos cometidos por estes dois agentes: “Os arguidos escolhiam as suas vítimas entre os seres humanos mais fragilizados pela sua condição humana degradada, visando maioritariamente pessoas toxicodependentes, bem como indivíduos que cometeram pequenos delitos como furto, tráfico ou detenção de arma proibida para, em algumas dessas ocasiões, alimentar a dependência.” O despacho da procuradora Felismina Carvalho Franco continuava a revelar detalhes do caso: “Muitas destas vítimas têm nacionalidade estrangeira, e estão ilegais em Portugal, ou em condição de sem abrigo.” Os agentes eram acusados de aproveitar “a vulnerabilidade das vítimas para, de forma violenta, perversa, descontrolada/descompensada, exibindo mesmo requintes de malvadez, praticarem as suas ações, em total desrespeito pela integridade física das vítimas e em completo desrespeito aos direitos fundamentais e liberdades e garantias de cada cidadão”, abusando “da autoridade que lhes foi confiada pelo Estado português”.
Nessas “sessões de tortura” — a expressão é do próprio Ministério Público — a que as vítimas foram sujeitas, os agentes “espancavam, a soco, pontapés, bastonadas, e com recurso a gás pimenta, as suas vítimas que, por norma, se encontravam encurraladas, algemadas a um banco, em total vulnerabilidade e impossibilitadas de resistir ou de fugir”. Chegaram a socar detidos com luvas de boxe e a ‘crucificar’ uma mulher dentro da esquadra.
Foi o próprio ministro da Administração Interna — que desde a tomada de posse tem assumido uma postura “intransigente” de “tolerância zero” com os comportamentos desviantes dos polícias — que revelou que nesta terça-feira poderiam ocorrer “novas detenções” no âmbito da investigação às esquadras do Rato e do Bairro Alto, que seriam mais tarde confirmadas pela PSP. Já ao final do dia, em entrevista à CNN, Luís Neves assumiu que pode ter havido “um pacto de silêncio” entre os polícias envolvidos, mas recusou haver uma “cultura instalada” no seio policial que favorece estas práticas.
Ao Observador, Bruno Pereira, presidente do Sindicato Nacional de Oficiais de Polícia, não tem dúvidas em afirmar que este caso “manchará e muito” a polícia da qual faz parte. No entanto, defende a necessidade de perceber o nível de envolvimento de cada um dos agentes. “Não sabemos quais deles tiveram participação ativa, quantos tiveram participação omissiva e podemos ter alguns polícias que souberam do que se passou e não tiveram intervenção nos factos, mas omitiram a denúncia”. Afinal, o que está em causa?


Grupos de esquadra, grupos de turno e agentes que faziam circular os vídeos da tortura
A partilha de vídeos com conteúdos violentos — agressões praticadas no interior das próprias esquadras — circularam pelo menos durante um ano entre grupos onde chegavam a estar largas dezenas de agentes da PSP.
Ao Observador, fonte desta força de segurança explica como o WhatsApp se foi tornando uma ferramenta útil para a organização do trabalho diário nas esquadras — até ser transformado, nestes casos, numa plataforma de partilha e visualização de violações, atos de humilhação e agressões físicas contra cidadãos na sua maioria imigrantes e em situação vulnerável.
A fonte, que pediu para não ser identificada, explica que existem, em regra, pelos menos dois grupos: um que reúne todos (ou quase todos) os elementos de cada esquadra da PSP, onde podem estar efetivos de até 70 ou 80 elementos; e um outro grupo, o chamado “grupo operacional”, onde são integrados os elementos que habitualmente fazem determinado turno (por exemplo, o da manhã) e que podem reunir elementos de várias esquadras da mesma divisão. Aqui são partilhadas informações sobre casos em que a PSP tenha sido chamada a intervir e que possam ser úteis a um universo mais alargado de agentes.
Ainda existe outro tipo de subgrupos, de que podem fazer parte agentes de várias esquadras, e até de diferentes divisões, que tenham feito parte do mesmo curso de entrada na polícia.
É comum que um agente colocado numa esquadra, no momento em que é transferido para outra esquadra, se mantenha nos grupos de que fazia parte até esse momento. A partir daí, as partilhas funcionam “em cadeia”, de uns grupos para os outros, chegando a um universo de centenas de agentes e responsáveis da PSP.

Quantos agentes de quantas esquadras foram detidos até ao momento?
Até ao momento, há 25 detidos, mas apenas um não será agente da polícia. Segundo a CNN Portugal, trata-se de um segurança de uma discoteca, cujo envolvimento no caso estará a ser ainda investigado. De resto, entre os outros 24 detidos, há a certeza de que uma significativa maioria passou pela Esquadra do Rato ou do Bairro Alto, em Lisboa, onde se centraram as primeiras buscas.
Esta terça-feira, de acordo com a PSP, foram realizadas “14 buscas domiciliárias e 16 não domiciliárias, estas últimas em esquadras”. Contudo, isto não quer dizer que os polícias terão cometido os atos suspeitos em diferentes esquadras. A intervenção dos 14 magistrados do Departamento de Investigação e Ação Penal de Lisboa, auxiliada pela própria PSP, alastrou-se a várias esquadras uma vez que alguns dos polícias investigados já tinham sido transferidos para outros locais (também em Lisboa) desde a data dos factos em investigação (que terão começado, pelo menos, em maio de 2024).
Entre os 15 agentes detidos esta terça-feira estará ainda um chefe da PSP e um polícia que cumpria serviço no Aeroporto de Lisboa, onde foi intercetado pelos colegas responsáveis pelo caso.
A diferença temporal entre a primeira detenção e as mais recentes pode explicar-se, segundo o Ministério Público, devido aos prazos legais de prisão preventiva a que estavam sujeitos Guilherme e Óscar — apesar de terem a convicção de que houve mais pessoas envolvidas no caso, os procuradores decidiram avançar com a acusação sem esperar pelas novas detenções, para não correrem o risco de verem os dois suspeitos saírem em liberdade.
Na acusação, consultada pelo Observador em janeiro deste ano, é referido que um dos vídeos das agressões dos polícias aos detidos terá sido partilhado num grupo com 69 participantes, que, segundo relataram várias fontes, será utilizado para divulgar informação dos agentes, incluindo alguma atividade operacional.

Que crimes estão em causa e que relatos são conhecidos da acusação aos dois primeiros detidos?
Os comunicados oficiais da PSP sobre o caso seguem a mesma linha da única acusação já conhecida sobre esta investigação, que diz respeito a “diversos crimes”, incluindo “tortura grave, violação, abuso de poder, ofensas à integridade física qualificadas”, segundo se lê no comunicado enviado pela polícia às redações a 4 de março de 2026, quando foram conhecidas “sete detenções, nove buscas domiciliárias e sete não domiciliárias”.
Antes, a acusação consultada pelo Observador mencionava, além destes, o crime de “roubo”. Atos que teriam sido cometidos “na maioria contra pessoas vulneráveis”. O comunicado da PSP, desta terça-feira, volta a fazer referência aos mesmíssimos crimes sinalizados em março, acrescentando apenas as novas “14 buscas domiciliárias e 16 não domiciliárias” em esquadras da polícia.
Um dos primeiros factos imputados a Guilherme aconteceu no Cais do Sodré, a 10 de fevereiro de 2025, pelas 22h. João (nome fictício de uma das vítimas) estava com um amigo perto da Rua Nova do Carvalho (ou rua Cor de Rosa) quando foram avistados e seguidos por agentes da PSP, por suspeitas de tráfico de estupefacientes. João estava na posse de cinco gramas de haxixe — quantidade não criminalizada por se enquadrar nos limites para consumo pessoal — e começou a correr, sendo apanhado por um segurança de um bar e entregue a Guilherme.
https://observador.pt/especiais/policias-suspeitos-de-sessoes-de-tortura-na-esquadra-com-requintes-de-malvadez-e-luvas-de-boxe-mais-agentes-da-psp-podem-ser-acusados/
O fugitivo, brasileiro, foi levado para a esquadra do Bairro Alto e disse ao agente “que estava na posse de um pedaço de haxixe para o seu consumo, pedaço que se encontrava numa bolsinha que trazia junto com o maço de tabaco dele e com as mortalhas”. Depois de colocar os pertences do detido numa mesa, Guilherme “desferiu-lhe três chapadas na cara, com a mão aberta e com bastante força”. Ao mesmo tempo, juntou outro pedaço de haxixe ao que João trazia, de forma a que a quantidade de estupefaciente fosse superior à permitida para consumo. “O arguido Guilherme L. fez constar do auto de notícia de detenção e do auto de apreensão tal informação, dando uma aparência de legalidade à detenção, bem sabendo que tal não correspondia à verdade, e que colocava em causa a fé pública de um auto em juízo”, salientou a procuradora Felismina Carvalho Franco, que assinou a acusação. Depois, o agente tirou um cigarro do maço de João e começou a fumá-lo, enquanto lhe dizia: “… A minha vontade era te matar brasileiro filho da p***”.
De seguida, Guilherme pontapeou e deu chapadas ao detido enquanto lhe fazia perguntas. Devido às lesões provocadas pelo espancamento, o jovem não pôde trabalhar durante cinco dias. Foi a mãe de João quem, ao ver o estado da cara do filho, lhe pediu que metesse baixa médica. Por medo de represálias, João não fez queixa. Segundo a acusação, outro imigrante, da Gâmbia, respondeu a um processo-crime também porque Guilherme L. falsificou a quantidade de droga com que estava. O processo de João foi arquivado por “inexistência de indícios da prática de crime”.

Ahmed e Omar (nomes fictícios), de nacionalidade egípcia, também encontraram o polícia na mesma zona, em outubro de 2024. A dupla estava na rua cor de rosa quando viu cinco pessoas vestidas à civil a “desferir socos e pontapés num indivíduo africano”. Entre elas, encontrava-se Guilherme L.. Ao passarem pelo grupo, um dos cinco empurrou Ahmed, que questionou o que se passava. Omar tinha acabado de reparar que um dos “civis” tinha um walkie-talkie e o que lhe pareceu uma arma de fogo e suspeitou que fosse polícia, mas não conseguiu avisar o amigo. E as atenções do grupo de cinco viraram-se para eles.
Sob alegações do crime de resistência e coação a funcionário, os dois amigos, que não falavam nem entendiam português, foram levados para a esquadra da PSP do Rato, onde os agentes “desferiram nos ofendidos chapadas na cara, murros na cabeça, vários socos no corpo, no abdómen, zona das costelas, tudo como forma de intimidarem os ofendidos e os castigarem por se terem intrometido na detenção que estavam a concretizar na Pink Street”. “No uso das mesmas desferiu-lhes vários socos na cara e no corpo, como se ele fossem um saco de boxe, enquanto o arguido Guilherme L. filmava com o seu telemóvel o vídeo.”
Foi nesse mesmo mês que os agentes da PSP, segundo a acusação, violaram um homem em situação de sem-abrigo e tentaram fazer o mesmo a outro com um bastão extensível e um cabo de vassoura, na Esquadra do Rato. Quando um deles viu o amigo a ser violado, “entrou em pânico, começou a chorar de raiva, e pediu ao arguido Guilherme L., e demais elementos policiais que ali se encontravam, que deixassem o seu amigo em paz e se necessário lhe fizessem mal a ele, uma vez que [o amigo] estava visivelmente em sofrimento”, lê-se na acusação. De seguida, os agentes “exigiram e obrigaram os ofendidos a introduzir o cabo da vassoura no ânus um ao outro”, sem sucesso. Enquanto as vítimas choravam, Guilherme L., de cassetete em punho, obrigou-os a cantar “Parabéns a Você”, e filmou. O vídeo seria partilhado num grupo de WhatsApp de agentes da polícia. “Que lindo”, comentou um deles.
A partilha de vários conteúdos em grupos de WhatsApp é relatada pela procuradora, que também revela a descoberta de vídeos e fotografias incriminatórias no telemóvel dos arguidos. É o exemplo de um vídeo que mostra um imigrante caboverdiano que fora encontrado com uma faca em agosto de 2024, e que, algemado, acabou sujeito a “várias chapadas na cara, murros na cabeça, vários socos no corpo, no abdómen” tendo a arma do polícia apontada à cabeça como forma de intimidação. “Vamos-te matar”, prometeu Guilherme L.. A vítima tinha rastas que lhe foram cortadas por vários agentes, tendo sido encontrado um vídeo do momento no telemóvel do arguido, que acabou por ser partilhado num grupo de WhatsApp.
Além do vídeo, foram ainda divulgadas duas fotografias que mostram rastas no lixo e uma fotografia da vítima com a cara cabisbaixa. Ao falar da “sova” a que o homem foi sujeito, um dos polícias escreve “esse aí nunca mais se esquece”. “Vai andar na rua de cabeça baixa” e “quando vir a cor azul ele corre”, completa outro. “Vai acordar todo f***** amanhã”, acrescenta outro agente. “Ele levou tanto que entrou em choque mano”, “estava acordado mas não tava”, “ahahahahah foi pena não ter morrido esse paneleiro”, “Eu metia o gajo no tejo”, e “mano, se tivesse morrido távamos na merda”, são algumas das respostas.
Outro vídeo filmado no interior da esquadra do Rato mostra uma vítima de nacionalidade marroquina deitada no chão, a chorar, enquanto dois agentes lhe exigem que lhes beije as botas de serviço. Chorava “devido aos pontapés, socos e bastonadas de que tinha sido vítima enquanto os elementos policiais lhe diziam ‘Beija, Kiss, kiss, kiss, kiss, kiss c******’’ e outro ‘Welcome to Portugal’”. Um outro vídeo partilhado num grupo de WhatsApp com 69 participantes mostra uma pessoa que, algemada no tornozelo, foi pontapeada nessa zona por Óscar B., o outro arguido, e não só. Amir (nome fictício), é natural da Argélia e não fala português. Suspeito de roubo por esticão, acabou na esquadra do Rato e sob jugo de Guilherme L. e de outro agente, que lhe “algemaram ambas as mãos e pés (…) a um banco de madeira ali existente, como se estivesse crucificado numa cruz, impossibilitado de se mexer ou resistir”. Foi alvo de “vários socos, atingindo-o na cabeça e em toda a parte superior do corpo, e [os agentes] desferiram pontapés dados com a biqueira das botas de serviço que envergavam, atingindo-o nas canelas. Mais o atingiram com várias bastonadas pelo corpo todo”, relata a acusação. Ainda algemado, foi atingido com gás-pimenta.

Mais agentes podem ser detidos na sequência deste caso?
Tal como aconteceu na primeira, na segunda e na terceira intervenção das autoridades neste caso, a polícia não fecha a porta a mais detenções. Como referiu Bruno Pereira ao Observador, “ainda não se sabe de que forma serão indiciados estes detidos”, que até “podem ter sido detidos para serem sujeitos a diligências de recolhas de prova, reconhecimento, recolha de vestígios e recolha de prova digital”.
“Não sabemos a imputação concreta e objetiva de cada um dos 15. Mas não podemos olhar para isto de forma branda, indiscutivelmente temos aqui uma situação grave que põe em causa o nível de confiabilidade que as pessoas têm numa instituição em relação à qual sempre tiveram altos níveis de confiança e de respeito”. É o caso de Mário Vaz Maia, que subiu ao palco da Meo Arena, fardado, com o irmão Nininho. Ao que o Observador apurou, o suspeito terá contribuído na partilha dos vídeos, apesar de negar o seu envolvimento, mas não terá gravado nenhum dos conteúdos.
Resta agora aos magistrados do Ministério Público e aos polícias que colaboram na investigação perceber o nível de envolvimento dos suspeitos neste caso e dos restantes membros do grupo — que poderão ter tido uma participação ativa (contribuindo nas agressões) ou omissiva (não denunciando o caso, o que se torna particularmente grave quando acontece com polícias que têm o dever de denunciar qualquer crime de que tenham conhecimento).
“Perante a gravidade destes crimes, recairia sobre qualquer pessoa que tenha tido conhecimento, o dever de reportar hierarquicamente e depois ao Ministério Público”, explica Bruno Pereira, que identifica aqui a maior falha da polícia que permitiu o alastrar deste caso.
“Que mecanismos de controlo é que estão em vigor? Onde estão as lideranças intermédias e superiores, que atingiram níveis mínimos de supervisão? Temos poucos chefes e oficiais para uma estrutura tão grande. (…) Falta hierarquia horizontal, os agentes mais velhos têm um papel essencial a desempenhar no sentido de enquadrar, corrigir e acima de tudo impedir que este tipo de impulsos desviantes possam ter lugar”, denuncia. Além disso, refere defeitos no “processo formativo” e até nos equipamentos dos polícias — que, entende, com bodycams ou esquadras devidamente equipadas com videovigilância seriam demovidos de cometer estes atos.
Ainda assim, tal como o fez o Diretor Nacional da PSP ou o ministro da Administração Interna, o líder do sindicato destaca que foi a própria instituição que sinalizou e denunciou este caso às autoridades competentes. “Acredito piamente que a maior parte dos polícias que vestem esta farda, fazem-no com verdadeiro sentido de Estado, de missão e devoção à causa pública e ao dever. (…) Foi a PSP, com os seus investigadores que estão em colaboração com o MP, a levar por diante estes factos. Mostra que está empenhada em não tolerar este tipo de comportamentos. Não podemos admitir que haja pessoas a vestir uma farda que levem por diante este tipo de comportamento”.


O que aconteceu com os nove agentes que já tinham sido detidos?
Os primeiros dois elementos da PSP suspeitos de atos de tortura e violação na esquadra do Rato foram detidos há quase um ano, em julho de 2025. Em janeiro deste ano, o Ministério Público deduziu acusação contra esses dois agentes, Guilherme L. e Óscar B.
Em relação a esses dois agentes, já no final de abril foi conhecida a decisão de que vão seguir para julgamento. Na leitura da decisão instrutória, a juíza considerou que a prova recolhida durante a investigação é “ampla”, “vasta” e “coerente” e que, por isso, os dois agentes, de 23 e 26 anos, teriam mesmo de responder em tribunal pelos crimes de que estão acusados: um é suspeito da prática de 29 crimes, o outro é suspeito de sete crimes, entre os quais os de tortura, abuso de poder, violação e roubo.
Desde que foram detidos, estão em prisão preventiva — atualmente, no Estabelecimento Prisional de Évora.
Mas já no momento em que foram conhecidas as primeiras detenções ficava em aberto a possibilidade de haver mais visados neste caso. Por duas razões: a primeira, porque teria havido outros agentes da esquadra a assistir às agressões contra pessoas vulneráveis no interior da esquadra e, inclusivé, a filmar aqueles atos; a segunda, porque os vídeos das agressões e violações teriam sido partilhados em grupos WhatsApp, visualizados por outros elementos da PSP e nunca denunciados superiormente.
O segundo momento de detenções no âmbito deste caso aconteceu em março. Mais uma vez, o Ministério Público — coadjuvado pela PSP, a quem foi entregue esta investigação e de onde saiu a denúncia inicial — partiu para o terreno. No dia 4 desse mês foram detidos mais sete agentes.
As detenções estiveram relacionadas com agressões e abusos de poder também ocorridos na esquadra do Rato, mas foram realizadas no âmbito de um inquérito-crime próprio.
Mais uma vez, o comunicado da PSP sobre essa nova vaga de detenções referia suspeitas da “eventual prática de diversos crimes, designadamente, tortura grave, violação, abuso de poder, ofensas à integridade física qualificadas”. Dessa vez, foram também feitas nove buscas domiciliárias e sete não domiciliárias (nomeadamente em esquadras da PSP onde os agentes detidos estavam colocados nesse momento).
Três dias depois das detenções, os sete detidos ficavam a conhecer a medida de coação que lhes seria aplicada: tal como os dois primeiros, ficariam em prisão preventiva.
https://observador.pt/2026/05/05/esquadra-do-rato-ps-fala-em-motivo-de-repulsa-e-exige-investigacao-apos-mandados-de-detencao-de-15-policias/
No comunicado em que eram anunciadas as medidas de coação, o Ministério Público explicava que a medida que tinha sido proposta ao juiz de instrução se justificava pelo perigo de “continuação da atividade criminosa, perturbação grave da tranquilidade e ordem públicas e perigo de conservação e aquisição da prova”.

O que é que o ministro da Administração Interna tem dito sobre o caso?
Quando Luís Neves tomou posse como ministro da Administração Interna, a 22 de fevereiro, já os primeiros dois agentes da PSP tinham sido detidos. Uma semana e meia mais tarde, eram detidos outros sete elementos da força de segurança que, agora, Neves, antigo diretor da Polícia Judiciária, já tutelava diretamente.
A 8 de março, quatro dias depois dessa segunda vaga de detenções, o ministro pedia publicamente “desculpa” pelos comportamentos de elementos da PSP. “Quero dirigir-me às vítimas desses crimes e pedir, em nome do coletivo, um pedido de desculpa. A polícia é sempre o ombro amigo, o ponto de abrigo, sobretudo dos mais vulneráveis e das vítimas”, acrescentava o recém-chegado ministro.
https://observador.pt/2026/05/05/chega-acusa-mai-de-fazer-gala-de-acoes-contra-policias-e-agenda-debate-sobre-forcas-de-seguranca/
Numa tentativa de defesa da imagem da instituição, Luís Neves acrescentava a ideia de que “não são alguns, poucos, suspeitos da prática de crimes graves que colocam em causa a imagem de uma instituição mais que centenária e que tem dado muito ao país”.
Mas o tom foi também notando críticas à própria PSP. Por exemplo, quando, ainda em março, o ministro disse estar a acompanhar “com a maior preocupação” os desenvolvimentos deste caso e sublinhava que “não há lugar” nas políticas para atos de tortura, violações e humilhações como as que são imputadas aos agentes. “O Governo é absolutamente claro: não há lugar nas forças de segurança portuguesas para práticas de violência ilegítima, maus-tratos ou qualquer forma de violação dos direitos fundamentais. Sempre que existam indícios desses comportamentos, devem ser apurados e punidos nos termos da lei”.
Já esta terça-feira, na sequência da detenção de mais 15 agentes — já com um total de 24 elementos da PSP detidos —, Luís Neves recusou que haja uma “cultura institucionalizada” de violência na polícia. Mas concedeu que o caso pode ser revelador de um “pacto de silêncio”, pelo facto de dezenas de agentes terem conhecimentos de vídeos a circular e não reportarem esses atos à estrutura de comando da PSP. “Há facilitismo e aceitação de comportamentos indignos.”
Homicídios, violência nas redes sociais e tortura na PSP. Quem é a procuradora que está ligada ao caso das esquadras de Lisboa?
Assinou a acusação contra o autor do triplo homicídio numa barbearia da Penha de França, em Lisboa, em outubro de 2024. Foi responsável pela investigação a um jovem português, de 18 anos, suspeito de ser o mentor — através das redes sociais — de um assassinato numa escola de São Paulo. Esteve à frente do caso sobre a morte de Fábio Guerra, um agente da PSP assassinato por dois fuzileiros em frente à discoteca Mome, em Lisboa, em março de 2022.
E, agora, está ligada à investigação a atos de tortura, humilhação, agressões e abuso de poder por, pelo menos, 25 agentes da PSP contra pessoas vulneráveis. Felismina Carvalho Franco é a coordenadora de investigação da Unidade Especial de Combate ao Crime Violento do Departamento de Investigação e Ação Penal de Lisboa. Em janeiro, a procuradora quem assinou o despacho de acusação contra os dois primeiros agentes da PSP suspeitos de tortura nas esquadras do Rato e do Bairro Alto.
No inquérito investiga-se a eventual prática de diversos crimes, designadamente, tortura grave, violação, abuso de poder, ofensas à integridade física qualificadas.
[Ao décimo dia em Nova Iorque dá-se o homicídio brutal. As últimas horas, o que aconteceu no quarto 3416 e a confissão de Renato sobre como matou Carlos Castro. O acesso aos ficheiros da investigação permite reconstituir toda a investigação ao crime. Ouça o quinto episódio de “Os ficheiros do caso Carlos Castro”, o novo Podcast Plus do Observador, narrado pela atriz Joana Santos, com banda sonora original de Júlio Resende. Pode ouvir aqui, no site do Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir também aqui o primeiro episódio, aqui o segundo, aqui o terceiro episódio e aqui o quarto episódio]
