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(A) :: "O Papa não vem dar uma mensagem política. Vem dar uma mensagem cristã." Entrevista ao organizador da viagem de Leão XIV a Espanha

"O Papa não vem dar uma mensagem política. Vem dar uma mensagem cristã." Entrevista ao organizador da viagem de Leão XIV a Espanha

Pela primeira vez em 15 anos, um Papa volta a Espanha. Em entrevista ao Observador, o coordenador-geral da organização fala do desafio logístico e do significado político e espiritual da viagem.

João Francisco Gomes
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Os espanhóis esperavam há década e meia por uma visita papal. Do ponto de vista religioso, Espanha é paradoxal: sendo um dos países culturalmente mais católicos da Europa, é ao mesmo tempo um dos exemplos mais claros do processo de secularização e afastamento da religião em curso no continente europeu nas últimas décadas. A última visita de um Papa ao país aconteceu no verão de 2011: foi Bento XVI, a pretexto da Jornada Mundial da Juventude (JMJ) desse ano, realizada em Madrid. O Papa Francisco, que ao longo do seu pontificado deu prioridade a viajar para as periferias, visitando múltiplos países africanos e asiáticos e deixando a Europa para segundo plano, nunca visitou Espanha. Agora, dentro de exatamente um mês, os católicos espanhóis vão receber novamente a visita de um chefe da Igreja Católica.

O Papa Leão XIV chega no dia 6 de junho a Madrid para uma visita de sete dias dividida em três etapas: além da capital, onde se encontrará com os Reis e visitará o Congresso, o líder da Igreja Católica passará ainda por Barcelona (para uma visita histórica à Sagrada Família) e pelas Ilhas Canárias (com o tema da imigração no centro da agenda). Será a quarta viagem apostólica do Papa norte-americano, eleito há um ano para suceder a Francisco no Vaticano.

Numa entrevista ao Observador a um mês da chegada de Leão XIV a Madrid, o coordenador da viagem, o professor universitário espanhol Yago de la Cierva, explica que, apesar da crescente secularização que a sociedade espanhola atravessa, há “sinais de esperança” e uma visita papal pode servir para animar a Igreja no país. O principal responsável pela organização da viagem de uma semana explica em que ponto estão os preparativos e resume de forma muito direta a missão de quem planeia uma viagem papal: “Proporcionar ao Papa um altifalante para que desperte as consciências das pessoas de boa vontade” e para que possa “lançar uma mensagem de paz quando o mundo está cheio de guerras”.

Especialista em comunicação de crises e atual presidente da Fundação Universidade Villanueva (ligada ao Opus Dei), Yago de la Cierva tem um longo percurso profissional e académico, mas foi um ponto específico do seu currículo que levou os bispos a chamarem-no para organizar a viagem do Papa: em 2011, foi ele quem esteve aos comandos da máquina logística por trás da visita de Bento XVI a Espanha (uma viagem na qual chegou a tentar que fosse o piloto de Fórmula 1 Fernando Alonso a conduzir o papamóvel, pedido que lhe foi negado por razões de segurança). Em dezembro de 2025, quando a possibilidade de uma visita de Leão XIV ao país se começou a desenhar, o cardeal José Cobo, arcebispo de Madrid, chamou-o para organizar a passagem do Papa pela capital; depois, a Conferência Episcopal Espanhola pediu-lhe que assumisse as rédeas de toda a visita.

Ao Observador, Yago de la Cierva explica que na origem desta viagem está um plano antigo do Papa Francisco de visitar as Ilhas Canárias, um dos epicentros do drama das migrações. É àquele arquipélago espanhol que, ao longo dos últimos anos, têm chegado milhares de migrantes oriundos de África através da perigosa Rota Atlântica — uma realidade que tem estado no centro de forte tensão política em Espanha entre o governo e a extrema-direita, particularmente no delicado tópico dos imigrantes menores que chegam sem estarem acompanhados pela família. Nas Canárias, Leão XIV deverá encontrar-se com migrantes e com ONGs católicas que se têm dedicado a cuidar deles, mas Yago de la Cierva garante que o Papa não vai ao arquipélago deixar uma mensagem política. “Vem dar uma mensagem cristã, que é: nenhuma sociedade deve deixar ninguém para trás.”

https://observador.pt/2026/02/20/colocada-a-ultima-pedra-na-torre-central-da-sagrada-familia-a-igreja-mais-alta-do-mundo/

O momento mais simbólico de toda a viagem deverá, contudo, ser a passagem de Leão XIV por Barcelona, onde vai inaugurar a Torre de Jesus Cristo — a mais alta e a última da Sagrada Família, a imponente basílica projetada por Antoni Gaudí que se encontra em construção desde 1882 e cuja estrutura exterior ficou este ano completa com a colocação do crucifixo que encima a torre de 172,5 metros. A inauguração da torre por Leão XIV acontece justamente no dia em que se comemora o centenário da morte de Antoni Gaudí, cujo processo de beatificação se encontra em curso no Vaticano.

Na entrevista, gravada poucos dias antes da divulgação do programa oficial detalhado da visita (entretanto divulgado esta quarta-feira pelo Vaticano), Yago de la Cierva fala sobre os menos de quatro meses que teve para preparar toda a viagem, sobre o modo como o evento será financiado e também sobre a forma como Leão XIV poderá utilizar a “plataforma” proporcionada pela viagem a Espanha (um dos países europeus que têm sido mais críticos da intervenção militar norte-americana no Médio Oriente) para fazer ouvir a sua voz no mundo — sobretudo depois de a recente viagem a África ter criado a ocasião para o tenso debate público entre o Papa Leão XIV e o Presidente dos EUA, Donald Trump, acerca da guerra no Irão.

Falta cerca de um mês para o Papa chegar a Espanha. Em que ponto estão os preparativos?
Já fizemos os concursos para as contratações de cenários, ecrãs gigantes, sistemas de som e casas de banho portáteis. Também — e isto é o mais importante de tudo — já se prepararam os conteúdos dos atos principais, e também já lançámos o financiamento. Nesta viagem há financiamento público, tanto nas Canárias como na Catalunha, enquanto em Madrid o financiamento é privado. Por isso, falámos com muitas empresas para que nos ajudem com donativos e patrocínios para a visita. Portanto, os três planos — conteúdos; preparação e logística; financiamento — estão muito avançados.

Tiveram muito pouco tempo para preparar a viagem, cerca de quatro meses. Como foi? Uma corrida contra o tempo?
Sim, porque aconteceram três coisas. O Papa só tomou a decisão da viagem em janeiro. A viagem anterior, a quatro países africanos, foi muito complicada de preparar. Por isso, a equipa das viagens esteve muito ocupada com uma viagem mais difícil. Ao mesmo tempo, também houve mudanças na Secretaria de Estado [do Vaticano], porque mudou o Substituto [para os Assuntos Gerais, Paolo Rudelli], de quem dependem as viagens do Papa. E além disso também é uma equipa nova. Portanto, coincidiram estes quatro fatores que fizeram com que tenhamos tido muito pouco tempo para nos prepararmos. Na Jornada Mundial da Juventude — eu fui o diretor executivo da JMJ [de 2011 em Madrid] —, tivemos 23 meses. Agora, tivemos um pouco menos de quatro meses.

O programa dos sete dias do Papa em Espanha

O Vaticano divulgou esta quarta-feira a agenda completa da viagem do Papa a Espanha.

A primeira paragem é na capital, Madrid, onde o Papa terá um encontro com os Reis de Espanha e vários elementos das autoridades estatais e da sociedade civil.

Leão XIV visitará ainda um centro de acolhimento social da Cáritas, terá uma vigília com jovens na Praça de Lima e presidirá à missa de Domingo na Praça de Cibeles.

Ainda na capital, Leão XIV vai encontrar-se em privado com elementos espanhóis da Ordem de Santo Agostinho, a que pertence, e terá um encontro com o mundo da cultura na Movistar Arena.

No último dia em Madrid, Leão XIV reúne-se com o primeiro-ministro, Pedro Sánchez, e visita as Cortes, discursando perante os deputados do Congresso. Ainda terá um encontro com os bispos espanhóis, uma visita à catedral da Almudena, um encontro com a comunidade diocesana de Madrid no Santiago Bernabéu e um encontro com os voluntários que trabalharam na visita.

Leão XIV segue depois para Barcelona, onde terá uma vigília de oração no estádio olímpico Lluís Companys, visitará uma prisão e rezará o terço em Montserrat.

No dia 10 de junho, dia do centenário da morte de Gaudí, celebrará a missa na Basílica da Sagrada Família, inaugurando também a Torre de Jesus Cristo. Antes disso, reúne-se com as organizações de caridade da diocese de Barcelona.

Os últimos dois dias serão passados nas Ilhas Canárias, onde Leão XIV terá várias iniciativas ligadas às questões das migrações, incluindo um encontro com organizações de acolhimento de migrantes, um encontro com migrantes e outro com organizações que se dedicam à integração dos migrantes.

Além disso, terá também um encontro com o clero local e celebrará uma missa no porto de Santa Cruz de Tenerife.

Quando os bispos espanhóis o convidaram para coordenar a viagem, imagino que a sua experiência na JMJ de 2011 tenha contribuído. O que é que lhe pediram? Que caderno de encargos lhe entregaram?
Esta viagem nasce como [um conjunto de] viagens soltas. O Papa Francisco tinha prometido ir às Canárias e os preparativos estavam avançados, mas ficou doente e não pôde ir. Quando o Papa Leão lhe sucedeu, disse que iria cumprir o desejo do Papa Francisco. Depois, o Papa também aceitou o convite para inaugurar a Torre de Jesus, na Sagrada Família, e o aniversário [centenário da morte] de Antoni Gaudí é em 10 de junho. Por isso, essas duas etapas eram fixas e as iniciativas foram dos bispos locais, tanto em Barcelona como nas Canárias. Depois, quando o Papa decidiu isto, pediu ao cardeal de Madrid, o cardeal José Cobo, para visitar Madrid. Disse: “Vou a Barcelona e às Canárias, antes quero ir a Madrid.” Aí, a iniciativa é do Papa. Quando o Papa disse que iria a estes três sítios, pediu-se à Conferência Episcopal que coordenasse tudo o que era próprio dos três, que são quatro [nas Canárias serão visitadas duas dioceses], sítios. Eu já estava como diretor técnico do comité de Madrid, com outra pessoa. A Conferência Episcopal, para trabalhar melhor, decidiu que os de Madrid estariam na Conferência Episcopal. Por isso, digamos que tenho dois papéis: como diretor técnico de Madrid e como coordenador geral de toda a Espanha. Da Conferência Episcopal, o que me pediram foi que ajude as quatro dioceses que serão visitadas para que tenham tudo aquilo de que precisam: apoio nas acreditações, que têm de ser nacionais; apoio na comunicação, nas redes sociais, no site, nas acreditações de jornalistas, que são nacionais; apoio no logótipo, que é único; o lema, que é só um; o hino, que é único; o sistema económico, que tem de ser igual para se poder fazer uma auditoria final. É isto que fazemos. Na Conferência Episcopal, apoiamos as quatro dioceses.

Como disse, o Papa Francisco já queria visitar as Canárias. Porquê as Canárias em concreto?
Porque o Papa Francisco dava muita importância ao drama da imigração. De facto, uma das suas viagens de maior impacto foi a Lampedusa. As Canárias são o outro cenário da imigração europeia, a chamada Rota Atlântica. Lampedusa é a Rota Mediterrânica. Mas a Rota Atlântica traz mais gente, é mais perigosa, morre mais gente e tem um impacto maior. Por isso, o Papa Francisco queria voltar a apelar à consciência dos europeus sobre os problemas da imigração vindo às Canárias.

Ele falou da “globalização da indiferença” em Lampedusa. Queria repetir esse gesto?
Queria repetir esse gesto — e é o que o Papa Leão vai repetir. Vai ser diferente, porque o acolhimento nas Canárias foi muito apoiado pela Igreja. Portanto, o Papa, além de pedir ajuda à Europa, creio que vai felicitar as instituições da Igreja, os cristãos que apoiaram muito os imigrantes.

Sabemos, como dizia, que a Rota Atlântica nas Canárias é uma das mais perigosas. Mas também sabemos que tem sido um ponto muito tenso da vida política espanhola, sobretudo a legislação sobre os imigrantes menores não acompanhados. Como estão a preparar esta parte da viagem? Há uma intenção de despolitizar o momento? Ou, pelo contrário, é um momento explicitamente político?
O mais importante nas visitas dos Papas é o que dizem os Papas. São duas coisas relevantes. A partir de onde quer falar? E o que quer dizer? Ele escolheu as Canárias para enviar uma mensagem à Europa. O que quer dizer? Os organizadores da viagem em Espanha, aquilo que precisamos de fazer é colocar-lhe uma plataforma, um microfone, para que diga o que quer dizer como líder espiritual e como pastor da Igreja Católica. Apoiamo-lo, mas é ele quem decide o que diz.

Mas, em Espanha, qual é a perceção da sociedade, dos partidos políticos? Qual a expectativa sobre a mensagem do Papa?
Não nos dirigimos aos partidos políticos, porque ele não vem dar uma mensagem política. Vem dar uma mensagem cristã, que é: nenhuma sociedade deve deixar ninguém para trás. Isso vale para os imigrantes, vale para as mães grávidas em situações de dificuldade, vale para os idosos, vale para os doentes, vale para os incapacitados, vale para os ignorantes. Não é uma mensagem política, é uma mensagem religiosa. Como vai reagir a sociedade? Creio que muito bem. A sociedade espanhola tem uma grande admiração e carinho por todos os papas em geral, e quer conhecer o Papa Leão, que ainda não conhece. Não me preocupa a questão política. Provavelmente, aquilo que sabemos é o que ele disse na viagem a África. Quando lhe perguntaram sobre a imigração, a primeira coisa que ele disse foi: acredito na autoridade do Estado para regular a imigração. Esse foi o primeiro ponto. Em segundo lugar, há que ajudá-los. É uma mensagem muito coerente com a mensagem cristã, que tem as suas nuances, não é uma mensagem simples, há que ter tudo em atenção. Não é “entrem todos” ou “não entre ninguém”. A Igreja não pensa assim.

"O mais importante nas visitas dos Papas é o que dizem os Papas. São duas coisas relevantes. A partir de onde quer falar? E o que quer dizer? Ele escolheu as Canárias para enviar uma mensagem à Europa."

Esta é a primeira vez que Espanha recebe um Papa desde 2011. O Papa Francisco nunca visitou o país. Isso foi algo que aborreceu os espanhóis?
Não sei se aborreceu ou não. O que é certo é que temos muita vontade de o ter connosco. Além disso, estamos particularmente contentes porque há muitas cidades que o quiseram receber — Santiago de Compostela, Saragoça, Sevilha, muitos sítios —, e a resposta do Papa foi: estejam tranquilos, esta é a primeira visita a Espanha. Portanto, todos estão muito contentes e isso nota-se quando vamos às autoridades, aos presidentes de câmara, aos presidentes das comunidades autónomas. Há um acolhimento absolutamente entusiasmado por ter o Papa na nossa terra.

Os dados parecem mostrar uma Espanha que está num processo de secularização, como toda a Europa. Continua a ser um país culturalmente católico, como Portugal e outros, mas o número de praticantes está em queda, bem como o número de casamentos, de batismos, etc. Espanha é um exemplo de uma Europa onde a religião parece ter perdido a importância que teve no passado?
Não há dúvidas de que Espanha sofreu, como o resto da Europa, uma descristianização forte. Ao mesmo tempo, há muitos elementos que fazem pensar que há sinais de esperança. Aumentou o número de seminaristas, aumentou o número de pessoas que pedem o ensino da religião nas escolas públicas, que puseram o X na declaração fiscal para contribuir para as despesas da Igreja. Há muitas conversões de adultos. É certo que também há muitos dados que são tristes. Um menor número de batizados, abaixo dos 50%; um número muito baixo de matrimónios cristãos, sem dúvida. Precisamente por isso, é importante que venha o Papa, que anime os católicos e que, àqueles que não são católicos, lhes diga que a Igreja é um grande sítio para se viver.

Enquanto Francisco preferiu as periferias do mundo, visitou muitos países, mas poucos na Europa, o Papa Leão estará, com esta viagem, a ver a Europa como um lugar de missão no século XXI?
Não sabemos porque é que o Papa escolheu Espanha como a sua primeira viagem europeia, sem contar com o Mónaco. Mas estamos especialmente felizes por ter escolhido Espanha, ainda antes dos Estados Unidos, ainda antes do Peru, antes que os dois países que o Papa Francisco também não visitou, a Argentina e o Uruguai. Estamos muito contentes. Porque é que Espanha poderá ser uma prioridade? Não o sabemos, mas parece-nos muito bem.

Não necessariamente Espanha, mas a Europa: pensa que o Papa Leão se está a voltar mais para a Europa do que o Papa Francisco?
Não o sabemos, porque esta será a sua primeira viagem europeia.

E o que pensa sobre o modo como Espanha se está a preparar para a visita? Muito se tem escrito sobre o regresso dos jovens à religião, como mencionou. Nota isso, por exemplo, no envolvimento dos jovens na preparação da visita?
Totalmente. A preparação baseia-se em voluntários. Em Madrid já vamos nos 16 mil voluntários. Em Barcelona já conseguiram todos os voluntários de que precisam. Os voluntários, também jovens, nas Canárias também estão com bom ritmo. Há entusiasmo e, como acontece em Espanha, há entusiasmo, curiosidade e também um pouco de ignorância — por isso queremos que a visita possa ajudar a aproximar muitos jovens de Deus e da Igreja.

A primeira paragem da viagem será em Madrid. Provavelmente será a parte mais política da viagem, com encontros com o Congresso e com os Reis. Sabemos também que as viagens são momentos em que a voz do Papa é mais escutada a nível global — aconteceu isso com esta viagem a África e com a troca de palavras com Trump sobre a guerra no Irão. Pensa que a viagem a Espanha, que é também um dos governos europeus mais críticos de Trump, pode trazer novos momentos de intervenção política do Papa?
Em Madrid terá encontros em chave, não diria política, mas em chave de visita de Estado. O Papa é, ao mesmo tempo, um líder espiritual e um chefe de Estado. Quando vai a um país, tem de exercer as duas condições. Portanto, em Madrid, onde estão as autoridades do Estado, será recebido pelo Rei, receberá as autoridades públicas e visitará as Cortes. Porque as Cortes e o Rei estão em Madrid. Mas, depois, quando terminar essa fase da visita de Estado, começa a visita pastoral, que é maioritária, também em Madrid. Em Madrid estará um pouco mais tempo do que em Barcelona e, portanto, a parte pastoral é a parte mais importante da viagem.

E o que pensa sobre a mensagem política que o Papa poderá trazer?
Espanha está numa situação polarizada, como o resto da Europa. Por isso, qualquer coisa que diga, não apenas o Papa, mas qualquer pessoa, será interpretada, em alguns casos, como uma tomada de posição política. Mas não é o caso. Este Papa fala, fundamentalmente, de religião. Ensina o Evangelho. Ensina o Evangelho aos poderosos, ensina o Evangelho aos políticos, ensina o Evangelho aos fiéis e ensina o Evangelho aos não-crentes. Mas é sempre o Evangelho.

Depois de Madrid, o Papa irá a Barcelona, onde o momento central será a inauguração da Torre de Jesus Cristo, na Basílica da Sagrada Família. Provavelmente será o momento mais simbólico de toda a viagem, projetará a viagem na história. Como estão a preparar este momento?
Estamos a prepará-lo muito bem. É o centenário de Gaudí e não se pode dizer que um centenário chegue de surpresa. Será um momento muito importante, o momento central da viagem, porque a viagem gira em torno dessa data. Mas nunca saberemos, até que aconteça, se é o que mais vai a ficar para a história da viagem. Poderá haver muitas surpresas.

Mas será um momento que ficará para a história com a inauguração da torre, o culminar da construção.
Não, o edifício continuará em construção, provavelmente, até 2037.

Mas já chegou à altura máxima.
Chegámos à altura máxima, mas ainda continua muito por fazer. Eles dizem, por brincadeira: ainda nos faltam muitos atos com vários papas.

Já falámos sobre a última paragem da visita, nas Canárias, com o drama dos migrantes no centro da agenda. O Papa vai encontrar-se com migrantes, ONGs? O que vai acontecer?
Com todos os protagonistas destes dramas. Migrantes recém-chegados, migrantes já integrados, pessoas que cuidaram deles, pessoas que os ajudaram a sobreviver e a integrar-se. O fenómeno migratório é um fenómeno muito complexo e o Papa quer estar em contacto com todos os que participam nessa rota migratória atlântica.

Li na imprensa espanhola que a viagem custará cerca de 15 milhões de euros e que terá um retorno de 100 milhões…
Não o sabemos.

Estimado.
Como ainda não temos a agenda, não sabemos os atos e não sabemos quanto vai custar. E não sabemos o retorno. Saberemos quando ele regressar. Temos a experiência de 2011, quando a Jornada Mundial da Juventude custou 47 milhões e o retorno foi de 352 milhões. É mais ou menos sete vezes mais do que o que se gasta. Mas não sabemos quanto serão os gastos porque, até termos a agenda, não podemos fazer o orçamento.

"Esse é o objetivo da viagem. Confirmar os católicos na fé e lançar uma mensagem, particularmente importante hoje, de paz quando o mundo está cheio de guerras. Estamos muito felizes por proporcionar ao Papa um altifalante para que desperte as consciências das pessoas de boa vontade."

Quem vai pagar a viagem? Como foi a estrutura de financiamento?
A estrutura de financiamento tem três partes. Há algumas administrações públicas que ajudam, na Catalunha e nas Canárias. Em Madrid é financiamento privado. Temos três fontes de financiamento. Em primeiro lugar, os ofertórios dos fiéis nas missas — já fizemos um e ainda teremos mais dois — e muitos donativos de fiéis. Em segundo lugar, temos contribuições em espécie de empresas, que nos ajudam com um milhão de garrafas de água, cobrindo os seguros, cobrindo os transportes, cobrindo os autocarros. E a terceira são contribuições económicas de empresas médias, pequenas e grandes. No entanto, como não sabemos de quanto dinheiro vamos precisar, estamos a pedir e as coisas vão muito bem. O acolhimento é francamente generoso por parte de empresas, pequenas e grandes. No entanto, ainda não temos os dados.

E a contribuição do Estado, na Catalunha e nas Canárias, é porque esperam um retorno?
A contribuição nas Canárias é porque é a primeira vez que ali vai um Papa. Há uma tradição nas ilhas, que estão muito longe da Espanha peninsular, de os governos das ilhas financiarem muitas atividades para que tenham lugar nas Canárias. E financiam também porque veem que é uma ocasião absolutamente histórica. Na Catalunha financiam porquê? Porque sabem que vai ter muito retorno e que vai beneficiar a imagem da Catalunha no mundo, e reforçar o carácter de ícone mundial da Sagrada Família. Isso interessa à Generalitat do ponto de vista civil, não religioso. Em Madrid é diferente. As instituições públicas ajudam-nos, com a cedência de espaços. E a administração geral, ou seja, o governo de Espanha, não ajuda em dinheiro, mas encarrega-se do que é normal nas visitas de Estado, que são as questões da segurança e as deslocações do Papa.

Também coordenou a JMJ em 2011. Como compara as duas ocasiões?
Bom, são viagens muito distintas. Uma foi apenas a uma cidade e agora são cinco. A JMJ tinha um carácter muito internacional e esta é mais nacional, embora provavelmente venham muitas pessoas de Portugal e de França. Na JMJ tivemos 23 meses de preparação e nesta tivemos quatro. O mundo mudou muito nestes 15 anos. Mudou o modo de comunicar, as redes sociais são omnipresentes. Mudou também a situação política. E, sem dúvida, também mudou a Igreja. Portanto, mudou tudo. O que têm em comum? Trabalhar com a mesma metodologia, com os mesmos sistemas, com o mesmo esforço de transparência, de uma forma muito profissional. São viagens muito diferentes.

Mudou também a projeção da voz do Papa, não? Talvez por isso dizia há pouco que o vosso objetivo é preparar uma plataforma, um microfone, para o Papa dar a sua mensagem ao mundo.
Esse é o objetivo da viagem. Confirmar os católicos na fé e lançar uma mensagem, particularmente importante hoje, de paz quando o mundo está cheio de guerras. Estamos muito felizes por proporcionar ao Papa um altifalante para que desperte as consciências das pessoas de boa vontade. Como diz o lema, “levantai o olhar”. Colocar o olhar nas coisas importantes.