O título deste artigo parece indicar que vou falar de um filme sobre a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa – não deixa de ser uma boa ideia … -, mas não, embora o que tenha visto há dias no encerramento da exposição “Os expostos da roda de Lisboa”, no Galeria de Exposições temporárias do Museu de S.Roque, tenha material para 89.929 filmes. Nesse dia apresentava-se também o Catálogo sobre a mesma, no Centro Cultural Brotéria que, com a Casa Ásia e aquele Museu, integra o Polo Cultural de S.Roque. Era véspera do Dia da Mãe, e celebrava-se desta forma o quinto centenário da morte de Dona Leonor.
Foi ela que criou a Roda, uma das grandes obras de Misericórdia que acolheu cerca de 270 mil criancas, entre a segunda metade do século XVII e o final do século XIX. Ela é o centro desta grande instituição para quem se deve dirigir o olhar de quem a quer conhecer. Foi o que nos confessou com uma palavra Francisco d’Orey Manoel, responsável do Arquivo Histórico da Santa Casa quando lhe perguntamos “o que é o mais importante na exposição de todos estes sinais das crianças expostas?”: “Dona Leonor”. E repetiu: “Dona Leonor”.
Voltemo-nos então para esta Rainha, em cujo coração começou a famosa, mas muito desconhecida Roda – e a Exposição desmascara três grandes mitos… – pela simples razão que ela foi um coração que desde cedo “rodou” de amor pelos pobres de uma Lisboa atribulada. 78 anos antes, uma mulher igualmente grande, e também celebrada na semana passada, santa Catarina de Sena, lutou também pelos mais pobres, mas de outra forma, o que serve também para conhecermos melhor a mulher que aqui nos traz hoje.
Leonor era culta, mas Catarina, por seu lado, era uma mulher analfabeta que no entanto falava com o Papa para docemente lhe exigir que fosse homem, que voltasse a Roma e chamasse as coisas pelo seu nome. Leonor não escreve ao papa mas conversa com o rei, seu venturoso irmão, e ainda no luto de uma viuvez a fazer três anos, faz 12 homens bons lerem o Compromisso fundador da Misericórdia de Lisboa explicitando as Suas 14 obras, corporais e espirituais, ao pé das quais os 15 Ods da ONU são meros wanna be goals. Porque ignoram a fonte dos propósitos…Sim, sem uma perspectiva de transcendência, não sejamos ingénuos, está visto onde nos levam os esforços humanitários, ou devo fazer aqui um desenho?
As duas santas mulheres – uma canonizada e a outra não, mas “Dona” – não se põem num convento a rezar – o que seria uma hipótese, fosse essa a sua vocação – e decidem lutar na rua. Catarina escolhe a Ordem Terceira do Carmelo, Leonor funda a Santa Casa. Ambas ancoradas na fonte da Misericórdia, que é o nome de Deus, como lembra um livro do Papa Francisco, a sublinhar que a Misericórdia não é uma ONG, mas tem uma cara e um nome: Jesus Cristo.
Podem multiplicar-se palavras, mas quem ignora o Logos (=Palavra criadora), passa ao lado. E “ao lado” não passaram aqueles que ao exporem as suas crianças na Roda pediam explicitamente o Baptismo em Cristo, os bébés que vemos na Capela da Anunciação da Igreja de S.Roque – um tesouro ainda por descobrir, a Igreja, e o Museu de S.Roque, o sacramento do Baptismo e muito mais….
Terá sido por isso que a Comemoração do nascimento de dona Leonor tenha sido concluída com uma peça de Haydn, tocada na Igreja de S.Roque pela Metropolitana, As sete últimas palavras de Cristo na Cruz. O nosso problema (veja-se como o mundo que construimos, nós e os nossos filhos , está a rebentar pelas costuras, é este o problema) é que muitas vezes a arte – que é, com os santos, essa grande apologia do Cristianismo – é apenas tomada como momento zen, sem âncora na realidade, esgotando-se no momento da fruição como uma evasão estético sentimental sem consequências, sem levar as mãos à massa. Uma misericórdia de plástico, que não sabe aquecer os corações, porque apenas focada em desempenhos e métricas quejandas.
Leonor, a mulher que fez das apostas a necessária fonte de receitas, conhecendo o clamor da água do rio e dos choros[31] – das mulheres, dos bebés, e de homens, sabe Deus quem – apostou alto, jogou tudo, foi a primeira a jogar. Os seus dois bébes morreram muito precocemente, mas o seu coração não deixou de rodar e gerou um empreendimento sem igual, que está em rodagem há quase seis séculos. A Roda parou em 1870, mas a Misericórdia essa é imparável porque tem uma fonte infinita, e porque há corações que decidem acolhê-la contra tudo e contra todos. Desde o da viúva que dá tudo o que tem, uma moeda, e que nada é nas balanças feitas por mãos humanas, ao das quase 400 misericórdias que pelo nosso Portugal fora demonstram que em Portugal o dogma da fé nunca morrerá, como disse em Fátima a Rainha das Rainhas.
Uma Casa que dá, e por isso a quem muitos recorreram e ainda hoje recorrem e de quem tudo se exige. Quando peço muito, não é por acaso que me dizem: “pensas que eu sou a santa casa ou quê?”
Uma Casa que apesar de escândalos que a mancham – e que muitos se comprazem em destacar – mas são impotentes para a destruir, muitos são os que continuam a deixar os seus bens a uma Mãe que sabe administrar. Desde o seu início que a Santa Casa tem o trunfo do serviço das Benemerências, que acolhe os que não querem deixar “órfão” o seu património e o querem pôr ao servico de quem mais precisa. Este é também “sinal” do que esta Casa é e será. Do dente de ouro ao Palacete, a diversidade do que é recebido fala por si, e será porventura Material para uma outra Exposição?