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Portugal sem a referência mas com ambição no Giro das homenagens e de Jonas contra os outros: a história 109 de uma prova de amor infinito

Sem Almeida e Carapaz, Vingegaard é super favorito a vencer um Giro que pode surpreender e revelar novos nomes. Prova começa na Bulgária e acaba em Roma. Portugal conta com Nelson, Eulálio e Morgado.

Tiago Gama Alexandre
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Está na estrada a 109.ª edição da Volta a Itália, a corrida do amore infinito. Terminada a época das clássicas e de grande parte dos Monumentos da temporada – sobra apenas a Lombardia, que se disputa em outubro –, o pelotão aponta agora às provas por etapas e às decisões nas corridas de três semanas. Como manda a tradição, corsa rosa inaugura a época em que tendem a aparecer novos protagonistas, embora a evolução que o ciclismo atravessou – e atravessa – nos últimos anos tenha mudado essa perspetiva, dado que os ciclistas são cada vez mais polivalentes e tendem a estar presentes em todas as especialidades da modalidade. O que é certo é que o Giro de Itália, que foi bastante aguardado pelos portugueses ao longo dos últimos meses, perdeu o seu ingrediente principal nos últimos dias e transformou-se numa competição insossa e que parece resolvida à partida. Mas será mesmo assim?

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A edição deste ano da principal corrida italiana conta com 3.468 quilómetros (média de 165,1 por etapa) e apenas um contrarrelógio, de 42 quilómetros, logo após o segundo dia de descanso. Em termos de dureza, este Giro tem 48.700 metros de desnível positivo acumulado, perdendo cerca de 3.500 metros em relação à edição passada, que terminou com a vitória de Simon Yates. O britânico despediu-se da Visma-Lease a Bike e do ciclismo no final do ano, pelo que não está em Itália a revalidar o título. Outra das novidades é a estreia da Bulgária como palco da grande partenza, com a Volta a Itália a começar fora do seu país pela 16.ª vez. Nesse sentido, esta edição conta com três dias de descanso, em detrimento dos habituais e regulamentares dois. Como tem sido habitual, a medida excecional foi autorizada pela União Ciclista Internacional (UCI) para permitir que as equipas possam viajar da Bulgária até Itália sem qualquer contratempo, algo que tem sido característico em termos de Grandes Voltas nos últimos anos. Para além disso, a prova começa numa sexta-feira, em vez de sábado.

Ao longo das três semanas, as 21 etapas dividem-se ainda em oito etapas planas, sete de média montanha e cinco de alta montanha, com este Giro a contar com sete chegadas em alto. A prova começa bem junto à costa do Mar Negro, com uma ligação plana entre Nessebar e Burgas. Contudo, logo ao segundo dia, o terreno começa a entortar e a extensa etapa entre Burgas e Veliko Tarnovo (221 quilómetros), termina numa ascensão de 3,5 quilómetros a 7,5% de inclinação e em pavé. Por fim, a jornada búlgara termina com um dia para os sprinters, entre Plovdiv e Sófia. Já em território transalpino, o pelotão ingressa, na primeira semana, pelos Abruzos, passando pela etapa mais extensa desta edição (244 quilómetros), que termina numa das chegadas em alto mais temíveis: o Blockhaus, que vai ser subido pela vertente mais dura, com 13,6 quilómetros a 8,4% e pendentes acima dos 10% nos últimos dez quilómetros. A semana termina no norte, com uma etapa ao estilo de clássica e uma chegada em alto, em Corno alle Scale, nos Apeninos, que volta à prova 22 anos depois.

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A segunda semana começa com o contrarrelógio na Toscana, numa equipa que serve de homenagem a Gino Bartali. A partir daí seguem-se três dias de média montanha que podem pender para os sprinters, mas no fim de semana voltam as dificuldades, com o pelotão a chegar ao Vale de Aosta, para subir o Gressan, em Pila, pela primeira vez nos últimos 30 anos. Esta subida conta com 16,6 quilómetros a 7%, chegando num final de um dia com mais de 4.400 metros de acumulado em 133 quilómetros. Segue-se Milão, que recebe o Giro pela 90.ª vez num final ao sprint que marca a transição para a última semana.

A 16.ª tirada disputa-se integralmente na Suíça, tendo um final em alto em Carì. De volta a Itália, as contas da Volta a Itália resolvem-se nas Dolomitas, com a 19.ª etapa a perfilar-se como a mais dura, tendo cinco montanhas de montanha, entre elas o Passo Giau, que é a Cima Coppi (ponto mais alto) desta edição, e o regresso a Piani di Pezzè, para recordar a vitória de Marco Pantani em 1992. É aí que está, precisamente, a Montagna Pantani deste Giro, que Afonso Eulálio conquistou em 2025, no Mortirolo. No penúltimo dia, a corsa rosa vai até Piancavallo (subida duas vezes) para homenagear as vítimas do terremoto de Friuli, em 1976, com a prova a terminar em Roma pela oitava vez.

O “quilómetro Red Bull” volta a registar-se neste edição da Volta a Itália e, apesar de ter este nome, “foge” à ideia original do termo, consistindo apenas num sprint em todas as etapas, à exceção do contrarrelógio. A novidade para este ano prende-se com a atribuição de pontos para uma classificação específica, independente da geral dos pontos, que entrega a maglia ciclamino. Assim, os três primeiros bonificam seis, quatro e dois segundos, ao passo que são distribuídos 15, oito, cinco, três e um pontos para os cinco primeiros. No final, o ciclista que colecionar mais pontos nos quilómetros Red Bull vence a nova classificação.

Todos contra Jonas e Jonathan: o que esperar desta Volta a Itália

No que respeita às 23 equipas presentes na primeira Grande Volta do ano, a grande novidade prende-se com a Unibet Rose Rockets que, depois de não ter sido convidada para a Volta a França e a Volta a Espanha, vai estrear-se neste capítulo em Itália, apresentando-se com Dylan Groenewegen como cabeça de cartaz. Pinarello Q36.5, Polti VisitMalta e Tudor completam o lote de wildcards atribuídos pela organização, podendo assim juntar-se às equipas do World Tour: Alpecin-Premier Tech, Bahrain-Victorious, Decathlon CMA CGM, EF Education-EasyPost, Groupama-FDJ United, Lidl-Trek, Lotto Intermarché, Movistar, Netcompany Ineos, NSN, Red Bull-Bora-hansgrohe, Soudal Quick-Step, Jayco AlUla, Picnic PostNL, Visma, UAE Team Emirates-XRG, Uno-X Mobility e XDS Astana.

Como seria de esperar, Jonas Vingegaard é a figura desta Volta a Itália, tornando-se ainda mais favorito depois das desistências de João Almeida, que contraiu um vírus no início da temporada e ainda não recuperou, continuando limitado em termos de treinos e preparação, e de Richard Carapaz, que optou, juntamente com a EF Education, focar-se totalmente na preparação da Grande Boucle. O dinamarquês lidera um bloco da Visma competente, mas aparentemente abaixo daquele que vai marcar presença na Volta a França, igualmente em seu apoio. Sepp Kuss e Wilco Kelderman são os principais escudeiros do ciclista de 29 anos que, caso consiga vencer este Giro, vai completar o lote das três Grandes Voltas, juntando-se a Jacques Anquetil, Eddy Merckx, Bernard Hinault, Felice Gimondi, Alberto Contador, Vincenzo Nibali e Chris Froome. Acima de tudo, alcança esse registo primeiro que Tadej Pogacar, o seu grande rival. Victor Campenaerts apresenta-se como uma aposta altamente válida para o contrarrelógio e as etapas mais rápidas, com Timo Kielich, Bart Lemmen, Davide Piganzoli e Tim Rex a completarem a equipa liderada por Arthur van Dongen.

https://twitter.com/giroditalia/status/2050922854510649677?s=20

Jonas chega a Itália com apenas 15 dias de competição, mas com sinais bastante animadores e que o colocam acima do que fez no arranque de 2025. Paris-Nice e Volta à Catalunha foram as únicas provas feitas pelo nórdico na antecâmara deste Giro, ficando na retina exibições dominadoras e quatro vitórias em etapas. Em França venceu com 4.23 minutos de vantagem para Daniel Martínez (Red Bull). Em Espanha fez 1.22 a menos que Lenny Martinez (Bahrain). E na Volta a Itália tudo indica que será igual. Ainda assim, o seu bloco de apoio pode ficar aquém nas etapas de alta montanha, o que pode jogar contra si na altura das decisões. Nesse ponto, a Red Bull apresenta-se com duas opções a ter em conta na geral: Jai Hindley, vencedor em 2022, Giulio Pellizzari e Aleksandr Vlasov, quarto em 2021. Os experientes Nico Denz, Gianni Moscon e Ben Zwiehoff juntam-se a Giovanni Aleotti e Mick van Dijke. Certo é que a Visma venceu duas das últimas três edições do Giro, conhecendo como ninguém a corsa rosa.

Para além disso, Vingegaard vai ter de lidar com uma enorme pressão mediática e dos adeptos, por conta do seu estatuto e do feito que está praticamente à sua mercê. Em termos de condições de corrida, a dureza do Giro, a semana final com muita montanha e o próprio contrarrelógio assentam que nem uma luva ao dinamarquês da Visma, mas há um fator a ter em conta: as condições climatéricas. Apesar de ter nascido no norte da Europa, Jonas Vingegaard já mostrou, no passado, ter muitas dificuldades em lidar com o frio extremo e, apesar de já ter corrido em Itália, nunca esteve presente numa Volta a Itália que, ao longo de três semanas, tem temperaturas bastante baixas e com a neve a aparecer na corrida. Contudo, o controlo dessa circunstância está perfeitamente ao seu alcance, como mostrou no Paris-Nice.

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Sem o seu líder e com Isaac del Toro lesionado, a Emirates parte para o Giro aparentemente longe de atormentar os dias da Visma, mas com capacidade para o fazer. Adam Yates é o líder, embora Jay Vine e Jan Christen estejam à altura de assumir a capitania caso seja necessário. Igor Arrieta, Mikkel Bjerg, Jhonatan Narváez, Marc Soler e António Morgado completam o lote de opções. A ter em conta está também a equipa britânica de Egan Bernal, que a partir desta prova passa a ter a Netcompany como principal patrocinador. O vencedor de 2021 continua à procura da sua melhor versão depois da grave lesão que sofreu e promete luta pela geral, contando com o apoio de Thymen Arensman, que foi sexto em 2023 e 2024. Derek Gee-West e Giulio Ciccone (Lidl), Damiano Caruso (Bahrain), Felix Gall (Decathlon), Ben O’Connor (Jayco) e Enric Mas (Movistar) completam o lote de favoritos à geral. Apesar de nunca ter estado numa Grande Volta, Mathys Rondel (Tudor) é uma opção a ter em conta para as contas da geral e da luta pela juventude, depois de ter sido quinto na Volta aos Alpes e oitavo no Paris-Nice.

Apesar de se encontrar envolvida na luta pela geral e, eventualmente, pela classificação da montanha, a Lidl tem como principal objetivo revalidar a camisola dos pontos que venceu nos últimos dois anos, com Mads Pedersen (2025) e Jonathan Milan (2024). O italiano volta a correr em casa e espera conquistar a maglia ciclamino pela terceira vez, repetindo o feito de 2023 e de há dois anos. Com Matteo Sobrero e Max Walscheid e os lançadores Simone Consonni e Tim Torn Teutenberg, a equipa alemã apresenta-se com o melhor comboio desta edição. A lutar com Milan estarão Kaden Groves (Alpecin), Groenewegen, Pascal Ackermann (Jayco), Tobias Lund Andresen (Decathlon), Paul Magnier (Soudal) e Arnaud de Lie (Lotto), que parte para a prova envolvido num episódio de doença contagiosa que assolou a clássica Famenne Ardenne, com origem em esterco de vaca.

O veterano, a surpresa e o estreante: Portugal com três ciclistas em prova

Sem João Almeida em competição, o lote de portugueses presentes neste 109.º passou para três. O mais experiente é Nelson Oliveira, que vai estar pela quarta vez em Itália e participar na sua 23.ª Grande Volta, tendo concluído todas. Apesar de não ganhar há quase dez anos, o português de Anadia é uma das cara do projeto da Movistar, podendo ser uma ajuda para Mas em todo o tipo de etapas e uma opção válida para o contrarrelógio, embora tenha perdido velocidade de ponta nos últimos anos. A temporada nem começou bem para o atleta, que partiu a clavícula em fevereiro, numa sessão de treinos. Nelson é o português com mais participações em provas de três semanas, à frente de Acácio da Silva (20) e Joaquim Agostinho (19) e o sexto ciclista no ativo com mais Grandes Voltas, a três de Wout Poels (Unibet), que também está em competição.

Apesar de Nelson Oliveira ser o único que conhece o sabor da vitória em provas deste nível, a principal aspiração portuguesa para esta Volta a Itália mora em Afonso Eulálio. A estreia do figueirense no World Tour não podia ter corrido melhor e, em pouco tempo, Eulálio passou de um autêntico desconhecido para um ciclista de confiança no seio da Bahrain. Para isso valeu, em parte, a grande estreia que teve no Giro do ano passado, em que entrou para a história no Mortirolo. No final do ano foi nono nos Mundiais do Ruanda, num resultado brilhante e que esteve ao alcance de poucos. Olhando à equipa da Bahrain, Santiago Buitrago e Caruso são os líderes, mas estão longe de ser opções altamente fiáveis na luta pela geral. Nesse sentido, Afonso Eulálio pode aproveitar para continuar a evidenciar-se e a marcar a sua posição na equipa, embora parta na segunda linha e possa ter de se resignar à luta por etapas.

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Aos 22 anos, António Morgado é o mais novo da comitiva portuguesa, mas aquele que chega em melhor forma ao Giro. Começou a época, uma vez mais, em grande plano, vencendo com categoria o Troféu Calvià e a Figueira Champions Classic, prova que já tinha conquistado em 2025. A partir daí, o Bigode Voador começou a preparar a presença em Itália, naquela que é a sua estreia em Grandes Voltas. Em comparação com Oliveira e Eulálio, Morgado é aquele que deverá ter menos liberdade na sua equipa, não passando de um escudeiro de Yates. Ainda assim, caso as circunstâncias de corrida o permitam, é um classicómano por natureza e uma aposta a ter em conta na luta por uma etapa. Para além disso, o ciclista das Caldas da Rainha promete dar espectáculo, com os seus ataques de longe na Figueira da Foz a servirem de amostra. É o atual bicampeão nacional no contrarrelógio e pode alcançar um resultado positivo nessa especialidade. Resta saber como se vai adaptar a uma prova de três semanas.

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