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(A) :: Para Angola e em Força!

Para Angola e em Força!

Se querem encontrar os responsáveis do tipo de descolonização que tivemos, procurem no pós 25, mas igualmente no antes.

Pedro Barros Ferreira
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Na Alemanha a expressão “Apunhalados pelas costas” começou a ser usada após a rendição aos Aliados, na I Guerra Mundial, por parte dos militares alemães desmobilizados – aos milhões – que se organizaram em milícias: os Freikorps. Protestavam contra o que consideravam ter sido uma traição por parte: Dos políticos, dos capitalistas judeus e do próprio Imperador. A tese da traição foi usada durante muito tempo, mas a verdade e o actual estado da arte é que, com a entrada da América na guerra, a Alemanha estava exaurida e seria uma questão de tempo. Nada havia a fazer.

Mas e se tivessem sido (traídos)? O que significa usar uma expressão de quem estava do lado errado da história? Que gostava que a Alemanha tivesse ganho a I Guerra Mundial? Ou é, apenas, uma provocação barata? Ou é – para onde me inclino – ignorância verbalizada em estilo brejeiro de galifão do subúrbio? É que, até Hitler, quando se aproximou do poder, deixou de a usar. Passou a preferir afirmar que iria vingar a traição, repor a “verdade”. Essa é a – grande – diferença entre aves de capoeira e verdadeiros revolucionários (mesmo os do lado errado, os adeptos da barbárie, como Hitler, Mao e Estaline). É que os últimos falam do futuro e não, constantemente, do passado.

Num estilo – para pior – diferente daquele que foi protagonizado, durante décadas, por parte do CDS (num tempo muito mais próximo do evento em causa, com quase todos os intervenientes vivos e cujo objectivo era reclamar por compensações aos lesados) o nosso aprendiz de Duce da porcalhota, veio acusar o 25 de Abril (presumo) de apunhalar – pelas costas – os chamados retornados. Ou seja, que o 25 era a causa da descolonização.

Com esta forma simplista, podemos afirmar que o crime hediondo de Buíça, levou à queda da monarquia, 2 anos depois. Só que, obviamente, o regime não caiu por culpa do assassino. A verdade é que não se aguentou contra meia dúzia de maduros que se juntaram no Marquês de Pombal.

{Os regimes, os Governos e os Impérios, caem estrondosamente porque as fundações apodreceram e os mesmos não foram capazes de se regenerar em tempo e a tempo}

Assim e da mesma forma, não foi por causa de um tresloucado Gavrilo que começou a I Guerra Mundial. A Alemanha precisava da guerra para atingir os seus interesses geoestratégicos. E, nesta sequência de exemplos, não foi por responsabilidade de um holandês comunista que Hitler se tornou ditador. Sê-lo-ia sempre.

Serve este intróito para concluir que a descolonização aconteceria sempre.

Acreditar que, sem o 25 de Abril, não teria existido descolonização é acreditar que sem o assassinato de El Rei D. Carlos viveríamos numa monarquia, que sem o homicídio do Arquiduque não teria existido a I Guerra, e que sem o incêndio do Reichstag não tinha acontecido o Holocausto. Claro que cada um pode acreditar no que quiser, que é para isso que serve a liberdade.

Muitos, modificam o discurso para “a forma como a descolonização foi feita”.  A forma, portanto. Ora a forma é algo que ninguém discute: Tudo pode ter, sempre, outra forma. E a outra forma podia ter começado no Estado Novo. Vejamos;

  1. Contra os ventos da história e sem olhar para os exemplos do Império Britânico, Francês, Belga e até da Espanha de Franco que não conseguiu – ou quis – defender o Marrocos espanhol, Portugal fomentava a emigração para as colónias.
  2. Estes colonos podiam ter emigrado para França ou para a Alemanha (como muitos) mas, acreditando na perenidade da situação colonial, avançaram – maioritariamente – para Angola e Moçambique. {Franco, em Espanha, lançou um programa a promover a emigração para a Europa, em 300 mil pessoas por ano, como forma de estancar a pobreza, bem como de equilibrar a balança externa e o stock de divisas, que estavam na penúria. Ler Andrée Bachoud, Biografia de Franco}
  3. Por paradoxal que possa parecer – e é – a grande vaga de emigração para Angola e Moçambique iniciou-se depois de rebentarem os conflitos com as guerrilhas.
  4. Nas colónias, os portugueses que emigraram construíram as suas vidas, com trabalho (aproveitando as riquezas existentes) e investiram no futuro, pois tinham a segurança que era prestada por parte das Forças Armadas portuguesas e, acima de tudo, com a confiança que depositavam em Salazar (que afirmava que Portugal nunca abandonaria as suas possessões).
  5. Para manter este status quo, perto de 1 milhão de jovens portugueses, de Portugal, interrompeu o seu normal percurso de vida, para permitir aos colonos a sua permanência em África. A falácia que as colónias eram factor de riqueza para Portugal e que o PIB português beneficiava muito das colónias é desmentido por factos (Ler Sardica, Em torno de Abril (..)).
  6. Não obstante o sacrifício de uma geração de portugueses, os colonos exigiam mais e melhor: Em Moçambique um grupo de colonos, sitia e apedreja uma messe de oficiais, acusando-os de nada fazerem. Antes do 25 de Abril.
  7. Igualmente antes de Abril de 74 e durante décadas, os colonos – com a excepção do Eng.º Jorge Jardim em Moçambique – não lutaram nem se organizaram, seriamente, na defesa de uma independência branca. Porquê? Porque a metrópole não o permitia (e porque se sentiam protegidos). Mas, vendo o que foi a independência branca na Rodésia, tenho dúvidas que tivesse funcionado. Mas é um mas.

[Na época dos Descobrimentos e face à incapacidade demográfica da Pátria, Portugal privilegiou as relações com os poderes autóctones e promoveu a célebre mestiçagem (ler Damião Rodrigues/Aires Oliveira: História da expansão e do Império português). Salazar pretendeu desviar a sangria que se verificava para a Europa, promovendo a emigração para as colónias – Angola e Moçambique – tentando: Por um lado dar substrato à nossa permanência em África e, por outro, reduzir a emigração europeia que era esmagadoramente ilegal.]

Resumindo: Os colonos foram deixando-se ficar, quer por inércia, quer por imposição da metrópole, quer ainda por acreditarem no Governo e em Salazar – depois em Caetano. Quem falhou aos colonos? Quem os incentivou a emigrar – contra o que seria lógico (usando-os como peões) – ou quem, depois do 25, já não conseguia – ou queria – colocar os homens em combate? Para uns parece que foram, unicamente, as tristes e perigosas figuras de Rosa Coutinho e Otelo entre outros (sim, foram criminosos) na sua “performance” descolonizadora. O meu texto não pretende desculpabilizar estes, mas, tenta não esquecer os outros. É que foi tudo mau e o mexilhão é que perdeu. Assim, quem apunhalou quem, pelas costas? Não terão sido ambos?

As Forças Armadas portuguesas, sustentaram o império na medida das suas capacidades, com heroísmo, talento e patriotismo. O relato de episódios pouco edificantes, passados após o 25 são uma falta de respeito – quer da parte de quem os relata (como se fossem uma prática generalizada) quer por parte dos poucos que os praticaram – a todos os que lutaram (muitos ficaram feridos para a vida e muitos outros morreram) pela defesa do império e, em particular, dos seus conterrâneos que optaram por emigrar para África (a esmagadora maioria dos portugueses não emigrou nem para Àfrica nem para lado nenhum). Lembrar esses acontecimentos pode ser importante, mas, fazer dos mesmos uma causa para a descolonização que tivemos, é aberrante. Muitos dos soldados e oficiais que se recusaram a combater após o 25, tinham estado debaixo de fogo e a lutar, semanas antes do golpe em Portugal.

Pretender que soldados, sargentos e oficias de baixa patente, perdidos no meio do mato, sabendo que na metrópole a situação era altamente confusa, tinham a obrigação de colocar a sua vida em risco na defesa de um ideal difuso é abstruso. Sabemos que existiu quem quisesse contrariar a maré, mas não é um Paiva Couceiro que faz a Primavera (como se viu em 5 de Outubro de 1910).

Querem corrigir erros passados? Deem o nome da rua ao Marcelino da Mata e a outros do mesmo calibre, aumentem as pensões dos deficientes das Forças Armadas ainda vivos. Façam coisas com impacto actual e futuro. E, se querem encontrar os responsáveis do tipo de descolonização que tivemos, procurem no pós 25, mas igualmente no antes. É que o 25 de Abril é uma consequência do Estado Novo e da aberração que foi o Dec. Lei que provocava uma ultrapassagem – na carreira – por parte dos milicianos aos oficiais do quadro permanente (muitos deles já tinham duas e três comissões no ultramar). E a descolonização é uma consequência inevitável da história dos povos no séc. XXI. A forma da descolonização é que pode ser uma consequência de Abril, embora Spínola já tivesse, em tempo, avisado que a guerra só tinha uma saída: a da Política. O que me parece justo é que, se, p.ex., relativamente à escravatura, usamos – e bem – as condições históricas, sociais, religiosas (e outras) – à época – para compreender o fenómeno, no que diz respeito à descolonização sejamos reducionistas. Nas páginas do Observador, o historiador João Pedro Marques tem vindo a desconstruir mitos e falácias relativamente à escravatura perpetrada por Portugal. No que respeita à descolonização é imprescindível que se faça o mesmo. Até prova em contrário, serei sempre defensor das Forças Armadas portuguesas.

Não sou retornado e, se calhar – sei lá eu – tenho nos meus antepassados quem tivesse sido esclavagista. Faço parte da – esmagadora – maioria dos portugueses: Aquela maioria que não gostava do Estado Novo, mas não desertou; que não emigrou para lado nenhum; que esteve na Fonte Luminosa porque não queria o comunismo. Prefiro, pois, orgulhar-me de Portugal ter abolido a escravatura em tempo útil, de ter acabado com a pena de morte antes de muitos, e que tenha acolhido – com sacrifício económico, financeiro e social – quase 1 milhão de pessoas: uns retornados, outros refugiados.

Um político que pretende ser um estadista, tem de dar o salto da feira do Rei das Panelas (era uma coisa que existia na Feira Popular) para alguém que, no mínimo, seja consequente. Se fomos apunhalados pelas costas, então que se tenha a coragem para dizer: Para Angola e em força! Vamos recuperar o que é nosso, vamos corrigir a traição que nos foi imposta! Só que dizer isso, ou seja, ser consequente, não é para heróis de pacotilha que nem marchar sabem (mas abanam flores LGBT).