Um dos principais nomes do calendário da ModaLisboa, e que veste figuras públicas sendo uma das mais populares a apresentadora Catarina Furtado, Nuno Baltazar aceitou um desafio diferente, e vestiu uma santa. O criador português foi o responsável por dar uma nova imagem a Maria Madalena da Igreja de Santa Catarina, em Lisboa. A mesma foi revelada ao público na mais recente procissão do Enterro do Senhor, que se realiza todos os anos na sexta-feira santa na Calçada do Combro, em Lisboa.
O desafio foi lançado pelo pároco da igreja, o Padre Jorge Anselmo, que pediu uma roupa nova para a santa diretamente ao designer. “Isto começou porque uma escuteira nossa viu uma série televisiva, acho que foi na Netflix, sobre Maria Madalena, e ficou fascinada. Então, ela dizia-me: ‘Padre Jorge, eu não gosto nada de ver a imagem da nossa Santa Maria Madalena, da nossa igreja. Tem o vestido tão velho, tão gasto, temos que pensar numa coisa nova.'”, recorda o responsável pela paróquia ao Observador. A santa, que fica exposta na sacristia da Igreja de Santa Catarina e sai à rua na procissão do feriado que antecede a Páscoa, usava um vestido roxo com uma capa amarela com aplicações em dourado e um véu sobre os cabelos, peças que já estavam “descoloridas e gastas pelo tempo e pelo sol”. “É uma imagem de roca talvez de início do século XX. Não está sequer datada nem nada. Ou seja, é uma imagem cujo valor, em termos locais, é sobretudo devocional. É a devoção que as pessoas têm por ser uma das imagens do Calvário, que sai à rua na Sexta-feira Santa no Enterro do Senhor.”

A ideia de dar uma nova imagem a Maria Madalena começou a crescer entre os escuteiros, até que a primeira oportunidade de abordar o designer português surgiu. “No arraial do Santo António do ano passado, em Santa Catarina, há uma outra escuteira que me diz: ‘Padre Jorge, está cá o Nuno Baltazar, posso meter conversa com ele? E perguntar se ele gostava de fazer o vestido para a Santa Maria Madalena?’ E o Nuno foi muito simpático, muito recetivo, disse que sim”, conta o Padre Jorge Anselmo. A ideia de vestir uma santa não era propriamente nova para o designer: dois amigos próximos, Filipe Faísca e Dino Alves, já tinham criado peças para duas imagens de Nossa Senhora das Dores, pertencentes à mesma paróquia, há alguns anos. Ao Observador, Nuno Baltazar recorda este primeiro contacto. “Através do Dino Alves conheci uma das senhoras que dá apoio à paróquia e ela lançou-me o desafio de vestir também uma santa. Depois, em conversa com o Padre Jorge fui desafiado a que fosse a Maria Madalena, que é uma figura muito importante, principalmente também na posição do enterro, que é um dos pontos altos durante o ano na Igreja.”

Entretanto, o tempo passou e o assunto ficou, de certa forma, adormecido. Até o padre encontrar-se por acaso com o designer na rua em março deste ano. “Estava-se a aproximar a procissão do enterro, que é na sexta-feira santa, e é a procissão em que a imagem de Santa Maria Madalena sai à rua, percorre toda aquela zona do bairro Alto e São Bento. Faltava mesmo um mês, e eu vejo o Nuno na rua, subia a calçada do Combro. Fui ter com ele e disse: ‘lembra-se de termos pedido se o Nuno podia pensar num vestido novo para a imagem de Santa Maria Madalena? Mas agora já é tarde, falta um mês ou menos’ E ele disse: ‘não, não há problema nenhum”.


Santa viajou até ao Porto
O designer já conhecia a história da santa, por ter sido criado num ambiente católico. Diz que em determinado momento “zangou-se com a estrutura” da Igreja, e que já não se considera católico, mas mesmo assim, entende que esta também é uma forma de representar e homenagear outras mulheres. “Espelha muito aquilo que é também a história e do que é que acontece a tantas mulheres. Por esta estrutura patriarcal que tem medo de uma mulher empoderada, livre, com um pensamento estruturado. Aquilo que fazem é subjugar, é tentar diminuir e pisar em cima daquilo que é a figura da mulher na sociedade. E acho que Maria Madalena é uma das grandes representações de tudo isso”, destacou Nuno Baltazar, que nas últimas duas edições da ModaLisboa apresentou coleções em que teve as mulheres da sua vida (amigas, familiares e clientes) como principais inspirações. “Na minha perspetiva, o objetivo era acrescentar, dignificar e dar uma outra visibilidade a esta santa que tem sido tão maltratada ao longo dos séculos dentro do próprio seio da Igreja Católica”.


Para executar a tarefa, o criador pediu a ajuda do historiador Nuno Resende, com o objetivo de perceber melhor a história desta figura. “Ajudou-me bastante nessa pesquisa. Queria que todas as minhas escolhas tivessem um sentido, um significado, e que pudesse também simbolizar um novo caminho para a imagem da Maria Madalena”, diz o designer.
O próximo passo foi conhecer a estátua de roca e levá-la ao atelier do designer, no Porto. “Felizmente tive essa autorização da parte do Padre, de poder trazer a Maria Madalena até ao Porto. Seria muito menos interessante estar a desenvolver essa imagem sem ter a figura comigo. É uma escultura de madeira, a forma como a roupa entra, como veste, tudo isso é muito específico, não é como uma pessoa de carne e osso”, explica Nuno Baltazar.


O amarelo, o tecido rasgado e os cabelos soltos
Ao pensar nos novos trajes, Nuno Baltazar fez questão de preservar um elemento: a cor. “A cor amarela em arte sacra tem uma conotação com a prostituição e com a loucura, e portanto essa cor tinha também um resquício dessa imagem que foi perpetrada durante tantos séculos dentro da Igreja Católica. Mas eu achei que, de certa forma, a cor do amarelo também já fazia parte dessa história, porque inevitavelmente toda essa fase da imagem dela faz parte dessa história, não deve ser apagada”, explica o designer, que então aproveitou as particularidades do tecido. “O meu foco foi trabalhar a partir dessa ideia do amarelo, mas um amarelo elevado. Escolhi um tom de azeite, muito mais escuro e sofisticado, que remetia para a origem dela. Ela terá sido uma mulher com posses, vinda de uma localidade de pessoas abastadas, e portanto essa riqueza dela também se deveria refletir na cor. E no fundo numa evolução de uma cor que não deixa de fazer parte da sua história, mas cuja conotação eu queria que fosse claramente alterada”.
Também a história de Maria Madalena vê-se refletida no processo de criação da peça, feita com uma base de sarja de lã em que a textura apresenta-se com o mesmo tecido rasgado em tiras e unidas pela aplicação de meias tachas em todo o vestido. “Em determinada época associou-se Madalena à mulher adúltera mencionada no Evangelho. Também São João diz que Jesus a tinha libertado de sete demónios. Por isso há ali elementos de uma vida que de algum modo foi sofrida. Por um motivo ou por outro. Uma vida que não foi propriamente tranquila até encontrar Jesus”, explica o Padre Jorge Anselmo, que analisa os elementos do vestido criado por Nuno Baltazar que fazem referência a esta história. “O vestido tem uma primeira fase em que o tecido é todo rasgado. Claro que depois no conjunto final o trabalho é tão bonito, tão impecável que quem olha nem se apercebe disso. Mas que para mim remete para quando a vida também é rasgada, por acontecimentos ou atribulações. Houve todo esse trabalho de rasgar tiras de tecido como uma vida que também é rasgada por situações mais difíceis. Mas depois tudo isso foi unido e nas pontes, junto aos pontos de união, passou a ter várias fitas com pérolas, que remete já para outra dimensão. A Madalena, apóstola dos apóstolos, aquela a quem Jesus ressuscitado aparece em primeiro lugar e diz: ‘vai anunciar aos meus irmãos que estou vivo’.”


Outro pormenor que Nuno Baltazar fez questão de alterar, preservando os cabelos verdadeiros e originais da escultura, foi o penteado. “O cabelo estava apanhado antes, e agora eu fiz questão de que ele estivesse solto e sem qualquer tipo de véu em cima, porque também diz a história que ela terá secado os pés de Cristo com os seus próprios cabelos. Portanto essa imagem do cabelo solto e também feminino, acho que era muito importante de recuperar para a imagem, e é assim que ela é muitas vezes representada na pintura e na escultura”, explica o designer. Aqui a ajuda partiu da cabeleireira Helena Vaz Pereira, que tratou, lavou e penteou a estátua de Maria Madalena.
A imagem ficou pronta a tempo da procissão, saiu à rua na sexta-feira santa com o vestido e penteado novos, e surpreendeu os fiéis. “A reação foi que a imagem de Maria Madalena tinha voltado a ter toda a dignidade que merecia. Depois o espanto e a surpresa pela beleza do resultado. Porque foi a parte das vestes, mas também toda a parte do penteado. Os cabelos também foram todos tratados e penteados de novo — há muito tempo aquele cabelo não recebia cuidados”.

Baltazar também participou da procissão, e assume que se sentiu emocionado. “Não só na procissão em si, mas também em todo a encenação, já dentro da igreja de Santa Catarina. De facto é muito dramático, é muito intenso e por muito que eu sinta que dentro de mim a fé terá desaparecido, a emoção que ela provoca não desapareceu. Acho que as igrejas têm essa grande capacidade: as pessoas entram e a maioria delas está em silêncio, em prospeção, em devoção, há de facto uma mística muito grande dentro destes espaços. Aquela igreja, especificamente, é uma igreja de acolhimento de pessoas, de fés de origens diferentes e sentiu-se imenso naquele dia: a presença de pessoas de nacionalidades completamente diferentes, vários tipos de cristãos, não todos exatamente da mesma estrutura, e o Padre Jorge fez questão de referir isso e falar a todas as comunidades que no fundo habitam esta paróquia e estão bem integradas. Se a igreja fosse toda assim eu, se calhar, não tinha perdido a fé.”