António Tavares teve muitas vidas: foi advogado, jornalista, diretor de um jornal regional e autarca na Câmara Municipal da Figueira da Foz, cidade onde vive. Nascido no Lobito, em Angola, em 1960, veio para Portugal em 1975, na ponte aérea pós-25 de Abril, e viveu o resto da adolescência desenquadrado, recolhido em si mesmo. Os livros estiveram sempre lá. Ainda estão. O também professor de Economia no ensino secundário, agora aposentado, estreou-se na escrita de romances em 2014, com As Palavras Que Me Deverão Guiar Um Dia”, uma homenagem à literatura; e no ano seguinte publicou O Coro Dos Defuntos, vencedor do Prémio Leya.
Na sua nova obra, A Arte Pendular Do Baloiço, António Tavares cruza encontros e desencontros ficcionais com acontecimentos marcantes da história recente do país. Em especial, o desastre de Camarate (Loures), no dia 4 de dezembro de 1980, véspera de eleições presidenciais. A aeronave caiu pouco depois de levantar voo rumo ao Porto, vitimando os sete passageiros, entre eles o primeiro-ministro, Francisco Sá Carneiro; a companheira, Snu Abecassis, fundadora da editora Dom Quixote; e o ministro da Defesa, Adelino Amaro da Costa. Após dez comissões parlamentares de inquérito, não se apurou se foi acidente ou atentado. Em 2006, o caso prescreveu sem que alguém tivesse ido a julgamento.
“Em Portugal nunca há culpados”, lê-se na contracapa do livro, que toca outras feridas, como a ação das FP-25 (Forças Populares 25 de Abril) ou a queda da Ponte de Entre-os-Rios. Conversámos sobre o assunto com o autor, e ele recorreu a uma imagem de Eduardo Lourenço para nos caracterizar como povo: vamos a caminho do futuro numa carruagem-cama. Ou seja, a dormir.

Formou-se em Direito em Coimbra, onde também se pós-graduou em Direto da Comunicação. Foi advogado, jornalista, fundador e diretor do jornal regional A Linha do Oeste, vereador e vice-presidente da Câmara Municipal da Figueira da Foz, professor de Economia no ensino secundário. Fez muitas coisas diferentes, além de ser escritor. Agora está aposentado. Como são os seus dias?
Levanto-me muito cedo e, normalmente, vou escrever. Sinto que, pelo fresco da manhã, a escrita é mais produtiva. À tarde saio um bocadinho, vou até uma esplanada, levo sempre um livro. E assim me vou entretendo. Neste momento, é uma vida ligada à leitura, à escrita e ao acompanhamento da situação política.
Já disse que se considerava, antes de tudo, leitor. Como nasceu esta sua relação tão próxima com a literatura, que até é a matéria do seu primeiro romance?
Sim, [o romance] é um bocadinho sobre descobrir o mundo através dos livros, e depois construir também um mundo com base nos livros. Sempre gostei de escrever, sempre pensei que um dia gostaria de ter um jornal e de ser jornalista. Desde muito cedo estive ligado ao teatro, o teatro para adultos, o teatro juvenil, e escrevi peças. Depois eram os amigos a desafiar-me: escreve uma coisa com mais fôlego. Um dia, fiquei duas semanas de férias e acabei por escrever um romance, que foi o meu primeiro livro, As Palavras Que Me Deverão Guiar Um Dia.
Demorou apenas 15 dias a escrever esse primeiro livro. O Coro Dos Defuntos, com o qual ganhou o Prémio Leya, também foi escrito em dois meses.
Sobre o primeiro, eu tinha as notas todas para construir a obra, porque vinha anotando uma série de ideias há muito tempo. Portanto, foi ver onde estavam essas notas e como as poderia utilizar para suportar aquela história. A história tem a ver com a biblioteca itinerante da Gulbenkian, com a leitura. Os dois protagonistas vivem num sítio inóspito, numa velha sucata, mas gostam de ler; gostam sobretudo de passear, de navegar no tempo através da leitura. Digamos que a leitura os embala um bocadinho no baloiço. Vencido esse primeiro desafio, e ante a possibilidade de poder ver reconhecido o valor do livro, achei que já não podia parar.
Escreve sempre de maneira torrencial?
Não. Escrevo com alguma rapidez, mas cada vez mais vou voltando atrás. A nossa sensibilidade vai-se apurando, se calhar também alguma técnica, e ficamos mais sensibilizados para o erro, para a incoerência, para as pequenas falhas que sempre acontecem quando se está a trabalhar uma história. Mas é um facto que a primeira escrita é muito rápida. Porque eu tenho urgência. Quando as coisas se metem na minha cabeça, tenho urgência em livrar-me delas. A fila é grande.
Precisamente sobre a biblioteca itinerante da Gulbenkian: foi por aí que começou a sua relação com os livros?
Em grande parte, sim. Estacionava quase à porta da minha casa, em Angola, onde nasci. Normalmente, a carrinha chegava ao fim do dia e ali ficava, com as luzes acesas, como se fosse um farol a chamar por nós, pela miudagem. Havia sempre muitos utentes desse carro-biblioteca. Depois comecei a gostar de ler outras coisas, a partir de uma adolescência tardia. Quando vim de África, vivi dois, três anos muito só. Tive dificuldades de integração. Também vim numa idade complicada…
Tinha 15 anos.
Sim. Não conhecia as pessoas. E estava tudo a mudar. E a mudança era muito dinâmica, muito rápida. Para não ser atropelado por isso tudo, acho que me refugiei um pouco em mim, e o que fazia era procurar ler. E escrever alguns poemas, também, que nunca viram a luz do dia.
Veio com a sua família na ponte aérea de 1975, no pós-25 de Abril. E foi para onde? Para o Porto?
Sim, fui para [Vila Nova de] Gaia, mais propriamente para Carvalhos.

De que modo é que esse período, essas dificuldades de integração, se refletem na sua obra?
Procurei retratar pessoas que eram um bocadinho como eu, sobretudo num dos romances em que abordo essa matéria, Homens de Pó [de 2019, sobre o verão quente de 1975]. Os Homens de Pó são um grupo de africanos que vêm para aqui fugidos da guerra e tinham o mesmo problema que eu tive, um problema de identidade. Eu sou o quê? Sou português, sou angolano, sou americano, sou europeu? E, além desse problema de identidade, era um problema de… agora, qual é o meu caminho? No fundo, isto era equiparável ao país. O país perdeu o império e também houve uma busca de identidade. Vamos para a Europa, vamos para uma terceira via? Tudo isto estava por delinear. As pessoas que retrato no Homens de Pó também estão em busca da sua identidade. Por isso é que hesitam muito entre sair de Portugal ou permanecer, de acordo com a sua história individual. Mas vivem num não-lugar: trabalham numa autoestrada e vão vivendo ao longo da autoestrada, que vai avançando. Portanto, não vivem numa rua com um número de porta; vivem em contentores, num quilómetro de autoestrada que vai mudando. É uma metáfora dessa procura de um lugar, porque o que se coloca aí é a procura do solo, do meu solo, do sítio onde ponho os pés e que é meu. Durante muitos anos, senti-me, de certa forma, apátrida, embora toda a minha cultura seja europeia. Não sei muito sobre os africanos, julgo que sei muito mais sobre os europeus. Mas essa questão da pátria também se me colocou.
Já encontrou o seu lugar?
Aquele lugar dá-nos referências indispensáveis para estarmos na vida com os outros, acho que sim. Embora, às vezes, se suscitem algumas dúvidas. Houve uma altura em que se fez uma tertúlia com escritores figueirenses – a Figueira é pródiga em pessoas que escrevem – e fui o último a falar. Quando comecei, alguém da plateia disse: ó António, tu não és escritor figueirense, és angolano. E eu, que já tinha dado esse assunto como assente, fui para casa a pensar: afinal, pensava que me sentia figueirense, mas os outros não sentem que eu o seja. Portanto, retomei outra vez essa busca.
A Arte Pendular do Baloiço, o seu mais recente romance, cruza a ficção com acontecimentos marcantes da história recente de Portugal, com destaque para o desastre aéreo de Camarate. Como chegou a este livro, e porquê esse tema?
Foi um conjunto de coincidências. Eu tinha uma historinha, que é a história da vidinha, como dizia o O’Neill, a vidinha dos seres insignificantes, que todos os dias se levantam para ir para o trabalho e regressar a casa ao fim do dia. Vivem neste movimento pendular. Tento sempre dar identidade à sociedade, àquilo que somos, e essa busca faz com que me interesse por assuntos como este, de Camarate. A ideia surgiu-me num dia qualquer: por que é que andamos, durante anos e anos, sem saber se o que aconteceu, se foi um atentado ou um acidente? Quando comecei a ler sobre o assunto, vi que havia ali um conjunto de coisas dissonantes, muitas incoerências, muitas divergências, e que o resultado, parecendo fácil de alcançar, ninguém ousava trazê-lo para a luz do dia. E depois associei isso à nossa forma de estar. Eduardo Lourenço dizia: os portugueses vão para o futuro de carruagem-cama. Ou seja, vão a dormir. Eduardo Lourenço chamava-lhe passividade cívica. Somos donos dessa passividade cívica, como uma criança que anda num baloiço. É bom ser embalado e não ter de resolver coisas difíceis. Deixar o baloiço oscilar. Agora, saltar do baloiço e ir à procura de qualquer coisa já não tem muito a ver connosco.
Camarate é a demonstração disto. Dá para escavar ali e encontrar muito do que somos. O mesmo em relação à atividade das FP-25 naquela altura histórica. Repare, não houve culpados, não houve julgamento, não houve nada. Camarate é uma tragédia que está em aberto e é uma grande história. O interessante é que parece que desde o início se fez por não haver nada. Todos os descuidos que se foram sucedendo, desde logo os destroços do avião ficarem no local cinco dias à espera de ser removidos, num sítio de fácil acesso a qualquer pessoa, razão pela qual apareceram depois pedaços de metal que nem sequer pertenciam ao próprio avião, sem qualquer resguardo, sem qualquer vigilância… Desde o início se abanou os ombros, se deixou que as coisas fossem andando e que a sociedade esquecesse. O problema é que estas feridas ficam todas em aberto, acontece muitas vezes.

Lemos na contracapa que em Portugal não há culpados. Outros acontecimentos que aborda, como a queda da Ponte de Entre-os-Rios ou a ação das FP-25, reforçam em si essa conclusão?
São dois exemplos claros de situações em que não há culpados. Embora eles até tenham aparecido, no caso de Camarate. Houve um indivíduo que fez uma conferência de imprensa a dizer: fui eu que fiz a bomba, fui eu que pus a bomba. Mesmo assim, o Ministério Público não o acusou. Parece que não havia qualquer interesse em saber exatamente o que tinha acontecido.
Essa ideia transparece também no discurso do narrador, um investigador da Polícia Judiciária. A certa altura, ele diz que, mesmo no seio da polícia, parecia que ninguém estava interessado em chegar a uma conclusão.
Logo o primeiro relatório da comissão de inquérito dá a entender que a polícia não fez tudo o que poderia e deveria ter feito quando ainda estava tudo quente. Porque depois as coisas vão-se desintegrando, vão-se perdendo, o interesse das pessoas vai relaxando… Lá está, o baloiço começa a oscilar e já não queremos saber de nada disso, queremos é o baloiço. No fundo, ser embalados. Repare, os proprietários do avião, na véspera ou na antevéspera de irem prestar declarações a uma comissão de inquérito, foram encontrados, marido e mulher, mortos num apartamento. Parece um bocado estranho o proprietário do avião ter morrido na véspera de ir prestar declarações. E a situação foi resolvida de uma forma muito simples. Os cadáveres estavam caídos, os corpos estavam nus, cada um tinha uma toalha de banho perto de si, a polícia deduziu que iam para o banho, houve uma fuga de gás e morreram de morte natural. E esquece-se todo o contexto à volta daquelas pessoas. Esta é a forma fácil de resolver as coisas. Põe-nos todos de bem uns com os outros, mas não resolvemos o problema; não ficamos a saber, efetivamente, o que se passou.
Como foi o seu processo de investigação, ou de preparação, para escrever este livro?
Andei a ler aquilo que está publicado. Os relatórios das comissões de inquérito estão todos publicados pela Assembleia da República. Pesquisei na imprensa da época e em alguns livros. Infelizmente, há um livro ao qual não tive acesso, da autoria de um familiar de [António] Patrício Gouveia, uma das vítimas. Esse livro [Os Mandantes do Atentado de Camarate – O Envolvimento Americano, de Alexandre Patrício Gouveia] está esgotado, não consegui encontrá-lo, mas presumo que, pelas citações que vi dele, seja interessante para seguir algumas pistas que estavam em cima da mesa da investigação.
Na história ficcional há algum elemento de verdade? É tudo imaginação?
É tudo imaginação. Há um conjunto de pessoas que não se conhecem, que vivem em sítios diferentes, e o acidente de Camarate faz com todos se conheçam. Porque um é bombeiro, o outro é enfermeiro, o outro é o mecânico da avioneta… Estas pessoas vão encontrar-se, depois, na sua vidinha do dia-a-dia, do absurdo do quotidiano, como dizia Camus. Não há ali nada de grandiloquente. Claro que, no caso das FP-25, no caso do julgamento e do desmantelamento da organização, há uma personagem que é um bombista que chega a um momento de dúvida. Essa personagem começa a ter problemas de consciência devido aos chamados danos colaterais, porque, quando se punham bombas, nunca se sabia quem é que ia passar, e houve situações em que morreram pessoas que estavam ali por azar.
Está a trabalhar em algum projeto novo?
Publiquei [em 2024] um livrinho de contos [Mesmo Não Indo, o Tempo Vai] e gostei de me dedicar a esse formato. Neste momento, tenho já muitos em prancha, passíveis de ser editados. Acho que vou apostar nisso. Tenho também um trabalho de investigação sobre autores, poetas e prosadores da Figueira da Foz, para dar a conhecer a literatura que se fez nos últimos 60 e poucos anos na Figueira da Foz, e que deve sair entretanto.