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Oito respostas sobre as eleições locais no Reino Unido, que podem marcar o fim do "duopólio tradicional" Tories-Labour

Sondagens para eleições locais colocam Reform como partido mais votado, Verdes em ascensão, conservadores em queda e Labour como derrotado. Mas Starmer recusa saída face a resultado "sem precedentes".

Madalena Moreira
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Na última vez que os britânicos foram às urnas, no final de fevereiro, os Verdes saíram vitoriosos e o Reform ocupou o segundo lugar, atirando o Labour, do primeiro-ministro Keir Starmer, para o terceiro lugar. Esta foi apenas uma eleição especial de um círculo eleitoral do norte de Inglaterra com cerca de 77 mil eleitores. Contudo, esta quinta-feira, quando trinta milhões de pessoas por toda a Grã-Bretanha se deslocarem às urnas para as eleições locais em Inglaterra e para as eleições legislativas regionais na Escócia e no País de Gales, o Labour deverá sofrer uma nova derrota. Não apenas uma derrota, mas uma derrota “sem precedentes”, afirmam os especialistas britânicos.

Um estudo conduzido por Stephen Fisher, professor de sociologia política na Universidade de Oxford, citado pelo The Guardian, estima que o Labour deverá perder 74% dos lugares que detém e que vão agora a votos — o valor mais alto para um primeiro-ministro em funções desde 1993, altura em que o governo local do Reino Unido foi alvo de uma remodelação. O Labour não deverá ser, porém, o único derrotado das eleições locais. As sondagens preveem que também o Partido Conservador deverá perder vários eleitos.

“Vamos ver recordes a serem quebrados”, resume John Curtice, cientista político britânico e comentador da BBC. “As sondagens sugerem que o duopólio tradicional Conservadores-Labour enfrenta o seu principal desafio desde o seu aparecimento na década de 1920. O pressuposto básico da política britânica — o de que não há espaço para um partido à direita dos Tories e à esquerda do Labour — desapareceu”, argumenta o especialista. É precisamente desses espaços que devem emergir os grandes vencedores destas eleições locais: à direita, o Reform de Nigel Farage, à esquerda, os Verdes de Zack Polanski.

Para além de um “terramoto” na política britânica moderna, as eleições podem ter um efeito mais direto e a curto-prazo e colocar em risco a permanência de Keir Starmer no número 10 de Downing Street. O líder do Executivo recusou uma e outra vez abandonar o cargo, mas a pressão dentro e fora do Labour continua a acumular-se. Com o aumento do custo de vida, a crise na relação com os EUA e os escândalos em volta da nomeação do embaixador Peter Mandelson, Starmer pode não sobreviver a mais um golpe. Ou, nas palavras de um alto responsável trabalhista ouvido pela BBC: “Quantas vezes é que se pode carregar no botão de reset antes de as pessoas se aperceberem que não está ligado a nada?”.

Onde e para que órgãos é que votam os britânicos?

Os cerca de trinta milhões de eleitores que podem votar esta quinta-feira dividem-se em três frentes. Uma parte irá votar nos 5.013 lugares disponíveis em 136 autarquias locais. Outra parte irá votar nos lugares para Holyrood (Parlamento escocês) e Senedd (Parlamento galês). Vão ainda a votos sete câmaras municipais de Londres: Croydon, Hackney, Lewisham, Newham, Tower Hamlets e Watford.

Mais de metade dos lugares em aberto nas autarquias estão a ser defendidos pelo Labour, que controla 2.557 lugares. Os Conservadores surgem em segundo lugar, com 1.362 lugares e os Democratas Liberais (Lib-Dems) em terceiro, com 684 lugares. Os Verdes têm, neste momento, 142 lugares e o Reform apenas dois lugares. Os restantes assentos são controlados por partidos ainda mais pequenos e independentes, segundo números da empresa de sondagens YouGov.

As urnas abriram em toda a Grã-Bretanha às 7h da manhã desta quinta-feira e fecham às 22h. Depois disso, os votos serão contados e anunciados ao longo da madrugada e do dia de sexta-feira, com quatro localidades de Londres a anunciar resultados só no sábado.

O que esperar das eleições na Escócia e em Gales?

Olhando em primeiro lugar para as eleições legislativas na Escócia e em Gales, as sondagens destas duas corridas marcam logo um tom pessimista para a noite do Labour. Na Escócia, onde todos os 129 lugares do Holyrood vão a votos, os estudos de opinião dão nova vitória, com maioria absoluta, ao Partido Nacional Escocês (SNP). Contudo, o resultado dos nacionalistas escoceses deve-se menos ao seu bom desempenho no governo regional e mais a um mau desempenho do Labour no Executivo britânico. O partido de Starmer não deve conseguir vencer um único círculo uninominal e conquistar apenas 15 lugares nas listas regionais, ficando em terceiro atrás do Reform, que deverá conquistar 20 lugares.

Já no País de Gales, a queda é ainda mais acentuada. O Labour venceu todas as eleições gerais em Gales desde 1922 e eleições regionais desde 1999, controlando o executivo galês desde que este foi estabelecido. Porém, no novo Senedd, que passará agora a ter 96 lugares, o Labour só deverá conquistar doze lugares e cairá para terceira força política, apontam as sondagens. A liderança regional será disputada entre o Reform e os nacionalistas de centro-esquerda do Plaid Cymru, que as sondagens colocam com apenas um deputado de diferença.

A que círculos eleitorais ingleses vale a pena prestar atenção?

No que toca às eleições locais em Inglaterra, a luta pela sobrevivência do Labour será travada em duas frentes: no norte de Inglaterra e em Londres. No norte de Inglaterra, a imprensa britânica destaca o distrito de Sunderland como um palco importante: o Labour controla o governo local desde 1973 — data em que as fronteiras atuais do distrito foram desenhadas — de forma ininterrupta, mas as sondagens indicam que o Reform pode ganhar, servindo de bússola ao desempenho da direita radical nesta região, que já foi um reduto do Labour.

"[Londres é o] resultado que mantém o número 10 [de Downing Street] acordado à noite."
Membro do Governo britânico à BBC

Olhando para o sul de Inglaterra, será possível, por outro lado, avaliar a noite dos “tories“. Ao longo dos últimos 30 anos, a região tem sido um palco de destaque para o Partido Conservador, mas as perdas podem sentir-se em várias direções: quer para o Reform, quer para os Lib-Dems. Exemplo desta segunda possibilidade é o distrito de Hampshire, que pode cair para os liberais. Mas as perdas dos Conservadores serão sempre menores do que as do Labour. Algumas sondagens indicam mesmo que o partido de Kemi Badenoch poderá recuperar bastiões que perdeu para os trabalhistas em 2022, nas últimas eleições locais — como é o caso de Westminster, em Londres. Este distrito é ainda mais relevante, pois será um dos primeiros a publicar os resultados, por volta das 3h30 de sexta-feira, o que permitirá tomar o pulso à noite eleitoral.

Porque é que Londres é tão importante?

Apesar das derrotas previstas em Gales, na Escócia e no norte de Inglaterra, é outro o “resultado que mantém o número 10 [de Downing Street] acordado à noite”, como descreveu um membro do Executivo à BBC. Trata-se do resultado em Londres, onde todos os 32 distritos vão a votos, num total de 1.817 lugares em disputa e cerca de seis milhões de eleitores. Apesar de a capital britânica não ser necessariamente um “bastião” do Labour, a capital é o “coração” do Executivo de Starmer, descreve a televisão pública.

Isto porque o próprio Starmer, o vice-primeiro-ministro, o ministro da Saúde e o ministro da Habitação foram eleitos para o Parlamento em círculos londrinos, assim como muitos dos líderes e dos nomes mais relevantes dentro do partido. Tony Travers, professor na London School of Economics, alertou, em declarações à BBC, que Londres pode sofrer um “terramoto político”. Por outro lado, Londres pode ser o reflexo perfeito de uma tendência visível a nível nacional, de ataques ao Labour tanto à esquerda como à direita.

O que explica o crescimento provável dos Verdes?

O Partido Verde foi fundado já em 1990, mas, nos últimos meses, sob a liderança de Zack Polanski, o partido reformulou-se. À matriz original ambientalista, sobrepuseram-se as preocupações com o aumento do custo de vida e a colaboração britânica nas ofensivas israelitas, primeiro na Faixa de Gaza e agora no Líbano. “Os Verdes já não falam muito sobre o ambiente agora”, resume o professor Tony Travers.

Contudo, depois do sucesso da eleição especial de fevereiro, Polanski enfrenta agora o seu maior teste à escala nacional: traduzir o aumento absoluto de votos que as sondagens atribuem ao partido em cargos públicos. O estudo de Stephen Fisher, professor de Oxford, estima que os Verdes deverão conseguir 450 lugares, enquanto um outro estudo, de Colin Rallings e Michael Thrasher, académicos do Centro de Eleições na Universidade de Exeter, também coloca o crescimento dos Verdes entre os 350 e 550 lugares. Este aumento deverá traduzir-se principalmente em Londres, com destaque para o bastião do Labour no distrito de Hackney, que as sondagens indicam que deverá cair para os Verdes com uma margem confortável.

De notar ainda que o sucesso dos Verdes parece ter ocupado o lugar que, tradicionalmente, pertencia aos Lib-Dems e que se pautava por capitalizar os períodos de impopularidade dos trabalhistas e conservadores. Contudo, as sondagens indicam que o crescimento dos liberais, a acontecer, deverá ser modesto, nunca passando dos 200 lugares.

O Reform vai conseguir afirmar-se como terceira força política?

Se Hackney, em Londres, é um exemplo do sucesso expectável dos Verdes, Barking and Dagenham, dois distritos a leste, deverão ser exemplo do sucesso do Reform. Porém, enquanto os sucessos dos Verdes deverão estar limitados à capital, o partido de Nigel Farage tem muito mais margem de manobra. As sondagens indicam que o partido deverá sair-se melhor nos distritos da classe trabalhadora branca que enfrenta dificuldades económicas, muito mais numerosos fora da capital, em regiões mais rurais.

Além disso, enquanto os Verdes só devem conseguir “roubar” votos à esquerda, o Reform tem uma piscina mais alargada e pode “roubar” tanto eleitores de classe trabalhadora ao Labour, como eleitores de direita ao Partido Conservador. Os especialistas apontam, portanto, o Reform como o vencedor mais expectável da noite eleitoral. O estudo de Rallings e Thrasher estima que o Reform deverá conseguir ganhar entre 650 e 2.000 lugares — por comparação, no pior cenário para os dois maiores partidos, o Labour pode perder 2.000 e os conservadores, 1.000.

Já o estudo de Fisher é ainda mais positivo para o partido de Farage, ao atribuir-lhe uns possíveis 2.260 lugares nas autoridades locais — três vezes mais lugares do que ocupa neste momento. Além de uma afirmação no poder local, o Reform pode — a confirmarem-se as sondagens — alcançar ainda uma vitória histórica a nível nacional: em números absolutos, deverá ser o partido mais votado.

Pode o Partido Conservador proteger-se de uma derrota pesada?

Quando, no ano passado, o Reino Unido foi a votos para outras eleições locais, o Partido Conservador estava “uma confusão total”. A confissão é feita por um membro do Governo-sombra de Badenoch à BBC, a dias das eleições. Contudo, a “confusão” não era nova e vinha a prolongar-se desde 2022, depois da queda de Boris Johnson, que levou a uma rápida sucessão de líderes (e primeiros-ministros) conservadores. Ora, os lugares que agora vão a votos foram palco de eleições pela última vez ainda antes de a “confusão” ter deflagrado, em 2022.

Quatro anos depois, a queda dos tories prevê-se promete ser acentuada: os estudos indicam que deverá perder entre 400 e 1.000 lugares. Uma queda simultânea do Partido Conservador e do Labour é rara na política britânica, já que uma das partes costuma conseguir capitalizar os maus períodos do outro lado do espectro, mas a emergência dos partidos pequenos pôs fim a esta bipolarização. Contudo, isso não chega para esmorecer o ânimo dos conservadores, ouvidos pela televisão pública.

Por um lado, os conservadores podem refugiar-se no facto de que, mesmo que percam centenas de lugares, não deverão ser o verdadeiro derrotado da noite, lugar reservado para Starmer. Por outro lado, os conservadores depositam em Kemi Badenoch uma confiança que não depositaram nos anteriores líderes e que muitos dos trabalhistas não depositam no primeiro-ministro. “Por esta altura no ano passado, nós não sabíamos se a Kemi ia aguentar. Agora sabemos”, assegura um responsável sénior do partido.

"Não queremos novos líderes, intrigas, pactos e conversas de transições que alienam o público."
Membro do Governo britânico ao The Guardian

O mau desempenho do Labour nas eleições pode ditar a queda de Starmer?

As sondagens não dão margens para dúvida: o Labour deverá perder centenas de lugares, muito provavelmente metade dos 2.557 que leva a votos. No seio do partido, circula já uma expectativa bem mais negativa, que reconhece, tal como estimam os estudos, que os trabalhistas podem perder mais de 75% dos lugares. A verdadeira questão para o partido de Starmer não é se vai sofrer uma derrota, mas como vai reagir à mesma. E, aqui, a doutrina divide-se.

“É terminal. Não vejo nenhuma forma de ultrapassar isto”, declarou um membro do Executivo à BBC. O sentimento é partilhado por alguns rostos próximos do primeiro-ministro como Angela Rayner, que era, até ao final do ano passado, vice-primeira-ministra e que estará a preparar-se para desafiar internamente a liderança de Keir Starmer.

No entanto, atentos às movimentações, os aliados do chefe do Governo já cerraram fileiras e deixaram avisos: Starmer não vai abandonar o cargo e quer é focar-se em “garantir que Trump não apaga os progressos por que o Governo lutou para fazer frente à crise do custo de vida”. “Não queremos novos líderes, intrigas, pactos e conversas de transições que alienam o público”, resume um destes trabalhistas, ouvido pelo The Guardian. O mesmo fenómeno verificou-se na semana passada, quando o Labour se uniu para impedir que Starmer respondesse perante uma comissão de inquérito sobre a nomeação de Mandelson.

Se, historicamente, o partido mais parecido com o Labour é o Partido Conservador, a linha atual dos trabalhistas procura precisamente evitar ter de enfrentar a “confusão” que assolou recentemente os tories que, perante repetidos escândalos e maus desempenhos, se confrontaram com uma rápida sucessão de líderes. Um membro do atual Governo de Starmer compara, à BBC, esta “confusão” ao fenómeno de doomscrolling, o consumo exagerado e compulsivo de conteúdos negativos online, que causa uma sensação de ansiedade ou de catástrofe iminente: “Não podemos fazer doomscroll da liderança“, alerta.