Detido pelo atentado a Donald Trump a 25 de abril, Allen Cole foi na terça-feira formalmente acusado de tentativa de assassinato do Presidente dos Estados Unidos da América (EUA), agressão de um agente federal, transporte de armas com intenção de cometer crime grave, e disparo de arma de fogo. Um dia antes, ouviu um juiz pedir-lhe desculpa pelas condições em que esteve em prisão preventiva.
A decisão do grande júri federal adicionou assim um novo crime aos três pelos quais Allen Cole tinha sido indiciado: o engenheiro californiano é acusado de balear um elemento dos serviços secretos dos EUA, quando rompeu a barreira de segurança no jantar da Associação dos Correspondentes da Casa Branca, no hotel Washington Hilton. O agente fardado, apenas identificado na acusação pelas iniciais V.G., foi atingido no colete à prova de bala.
“A acusação formal de hoje [5 de maio] sublinha uma verdade simples: existem provas de que este arguido pretendia assassinar o Presidente e de que baleou um agente do Serviço Secreto dos EUA após atravessar o país com um arsenal de munições para atingir os seus objetivos”, afirmou a procuradora federal Jeanine Pirro, citada na nota de imprensa divulgada no site oficial da Procuradoria de Columbia. “O uso da violência para expressar dissidência é, na sua essência, antidemocrático. Iremos procurar a pena máxima prevista na lei contra qualquer pessoa que viaje para o Distrito de Columbia para praticar tais atos”, continuou Pirro.
“Os factos deste caso são claros: Cole Allen viajou para Washington D.C. com o intuito de assassinar o Presidente Trump e membros seniores da sua administração, e atacou agentes das forças de segurança federais durante o processo — tendo sido travado apenas por pessoal de segurança corajoso que se interpôs no caminho”, acrescentou o diretor do FBI, Kash Patel, igualmente citado no comunicado. “Este FBI tem trabalhado 24 horas por dia, 7 dias por semana, neste caso desde a noite do ataque, e continuaremos a fazê-lo até que a justiça seja feita”, sublinhou.
Juiz “perturbado” pelas condições da prisão preventiva
Cole Allen, que ainda não apresentou a sua defesa às acusações iniciais, aguarda agora pelo dia 11 para ouvir em tribunal a leitura desta acusação formal (que, se for condenado, lhe pode valer a prisão perpétua). Mas já não nas mesmas condições que indignaram um juiz federal na segunda-feira depois de os seus advogados terem alertado uma vez mais para a forma como estava a ser tratado.
No fim de semana, numa sessão no tribunal municipal de Washington, D.C., Cole Tomas Allen, de 31 anos, deixou de estar sob o “estatuto de vigilância do risco de suicídio”, por pressão da defesa. “Ele não cometeu qualquer infração desde que entrou [na cadeia] e não representa perigo para ninguém na prisão”, argumentou a advogada Tezira Abe. Nada explicaria, assim, que tivesse estado quase 24 horas por dia em isolamento, numa cela almofadada, asfixiante e de luz sempre acesa, denunciou a jurista. Nem que até a Bíblia e o capelão lhe tivessem sido negados, mesmo sendo a religião parte da vida do suspeito, continuou Tezira Abe que apontou ainda dificuldades em falar com o seu cliente. Aliás, sublinhou a defesa, a avaliação médica não apontou qualquer tendência suicida, pelo que não se justificava este regime.
https://observador.pt/2026/04/30/defesa-do-suspeito-de-tentar-matar-donald-trump-nao-contesta-prisao-preventiva-mas-critica-confinamento-em-solitaria/
A descrição das condições em que Cole Allen esteve detido incomodou o juiz Zia Faruqui que se revelou “perturbado” com o que ouviu, segundo a agência de notícias Reuters. Salientando que as alegações contra Allen são “extremamente graves”, recordou, no entanto, que a prisão preventiva não deve ter um caráter punitivo. Por outro lado, frisou que o detido não tinha histórico criminal, criticando o atropelo aos seus direitos na cadeia, destacando ainda que os acusados do assalto ao Capitólio, em janeiro de 2021, tinham tido um tratamento melhor na mesma cadeia do que Allen. Aliás, referiu que esta prisão federal tinha “rotineiramente assassinos condenados e outros acusados de crimes violentos” mas que nem esses acabavam “em confinamento solitário 24 horas por dia”, refere a NBC.
“Seja o que for pelo que tenha passado, peço desculpa”, disse o juiz dirigindo-se ao detido. Considerando que “estar nesta situação poderia levar uma pessoa à loucura”, disse que, dada a sua posição, era seu dever garantir que o detido era “tratado com a decência básica de um ser humano”.
Estas declarações não ficaram sem resposta da acusação. Jeanine Pirro criticou-o na rede social X, acusando-o de acreditar “que um arguido armado até aos dentes e que tenta assassinar o Presidente tem direito a um tratamento preferencial” face a “todos os outros arguidos.”
https://twitter.com/JudgeJeanine/status/2051399246776021500
Além disso, a argumentação da defesa de que o seu constituinte não tinha demonstrado impulsos suicidas foi também contestada por Tony Towns, consultor jurídico do Departamento de Prisões do Distrito de Colúmbia. Disse que um psiquiatra prisional tinha avaliado o réu, considerando que existia esse risco, pelo que colocá-lo em solitária foi adequado.
Texto editado por Dulce Neto