Os primeiros foram Soares dos Reis, Acácio Mesquita ou Carlos Nunes – orientados por Joseph Szabo, que viria mais tarde a ser o treinador dos Cinco Violinos do Sporting, e presididos por Eduardo Dumont Villares. Os últimos são, entre outros, Diogo Costa, Victor Froholdt ou Rodrigo Mora – orientados por Francesco Farioli e presididos por André Villas-Boas. Muita coisa no FC Porto mudou ao longo dos 91 anos que separam o primeiro e o último Campeonato conquistado pelos dragões: o estádio, o símbolo, as figuras, até o contexto futebolístico dentro e fora do clube. Mas o tempo não parece ter levado a vontade de vencer. Os números mostram, aliás, que o tempo deu mais força. E essa força fez-se sentir na atual temporada que está prestes a fechar, mas que já encerrou, no que à decisão do título mais cobiçado a nível interno diz respeito.
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O que Farioli conseguiu este ano, Joseph Szabo, como jogador-treinador, fê-lo em 1934/1935. Na altura, o técnico nascido em Gönyü, no noroeste da atual Hungria, contou com a ajuda dos totalistas Soares dos Reis, Álvaro Pereira, Carlos Pereira e João Nova. Os 15 golos de Carlos Nunes e os 11 golos de Pinga contribuíram para resolver a favor dos azuis e brancos a primeira edição da história da Primeira Liga: 22 pontos para o FC Porto, à frente do Sporting, com apenas 20, e do Benfica, só com 19.
O FC Porto conseguiu ser a melhor das oito equipas em provas, com dez vitórias, dois empates e duas derrotas. Como o FC Porto atual, não foi o melhor ataque, mas isso não impediu a equipa de ser campeã. O que pode ajudar a explicar a conquista, é algo em que ambas as equipas lideraram nas suas corridas à conquista do Campeonato: tiveram ambas as melhores defesas. Foi pela via defensiva que Farioli conseguiu por algumas vezes sair com os três pontos de alguns jogos não saíram de feição aos dragões, por um ou outro motivo. Szabo também não precisou de ter o melhor ataque, uma vez que a sua defesa foi a menos batida da primeira edição do Campeonato: 19 golos sofridos. Separados por mais de nove décadas, ambos tiveram o ataque para vencer jogos mas contaram para defesa para conquistar o título.
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Os húngaros, os jejuns e os intermináveis empates pontuais
Três anos depois, o FC Porto somou o segundo título de campeão nacional. Havia caras familiares desde a última conquista dos dragões. À cabeça, Pinga, Carlos Nunes e Soares dos Reis. Mas havia algumas mudanças. O treinador também vinha da Hungria e mais tarde viria a naturalizar-se português. Mas já não era Szabo. Era Mihaly Siska, o húngaro-tripeirizado que só tinha “um prazer na vida: levantar-se ao meio-dia e deitar-se às três horas da madrugada”, relembrou o MaisFutebol em 2021, citando a revista Stadium. Em 1938/39, Siska tornou-se no treinador mais jovem de sempre a ser campeão nacional: tinha 33 anos e 109 dias. E ainda revalidou a conquista no ano seguinte. Nem Ruben Amorim, com 36 anos, três meses e 15 dias, nem o atual presidente do FC Porto, André Villas-Boas, com 33 anos e 161 dias, conseguiram bater um recorde que desde essa época nunca mais trocou de detentor.
Foi preciso esperar década e meia para que o FC Porto encontrasse o quarto título, então com Cesário Bonito na presidência. Tinha passado muito tempo desde a última conquista do Campeonato e, da tribuna presidencial ao relvado, a conquista ficava marcada por muitas caras novas. Foi no instinto goleador de Jaburú e na consistência do totalista Virgílio que o FC Porto conseguiu sagrar-se campeão nacional pela quarta vez na sua história e conseguiu travar o ímpeto dos rivais de Lisboa, que há muito tinham ultrapassado os dragões. Agora numa prova com mais equipas (14), o FC Porto acabou o Campeonato num empate pontual a 43 com o Benfica. Valeu o confronto direto aos comandados de Dorival Yustrich para bater o Benfica de José Águas e Mário Coluna.
O quinto Campeonato do FC Porto chegaria com novo empate pontual e com empate no confronto direto. Era, mais uma vez, um húngaro no comando técnico dos azuis e brancos: Béla Guttmann. Foi por um golo que FC Porto se sagrou campeão na temporada 1958/1959, que ficou conhecido como o Campeonato do Calabote (e que foi recordado por… Farioli). A diferença de golos do FC Porto foi de mais 59, enquanto a do Benfica, que venceu por 7-1 na última jornada, foi de mais 58. António Barbosa foi dos que mais jogou e António Teixeira dos que mais marcou numa época que antecederia o maior jejum de títulos de campeão.
O FC Porto voltaria a ser campeão apenas 19 anos depois, com Américo de Sá na presidência dos dragões. Foi José Maria Pedroto, no comando técnico, a travar a tendência das quase duas décadas anteriores. Não houve duas sem três: uma vez mais, um empate pontual verificava-se no topo da tabela – 51 pontos para FC Porto e Benfica. O confronto direto foi inconsequente para separá-los. Eficazes foram os 81 golos que o FC Porto marcou, com Fernando Gomes a ajudar com 25. A diferença de golos dos dragões bateu a dos encarnados por 15. Nessa época, a de 1977/1978, os azuis e brancos já contavam com um chefe do departamento de futebol que viria a fazer história na Invicta: chamava-se Jorge Nuno Pinto da Costa.
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Antes de Pinto da Costa ser eleito presidente do FC Porto, os dragões ainda conseguiram revalidar o título. Tornavam-se bicampeões 39 anos depois. O último a conseguir o feito tinha sido Siska. Fernando Gomes foi, uma vez mais, uma das figuras da equipa, ao apontar 27 golos nessa edição do Campeonato. Dessa vez, em 1978/1979, não houve necessidade de recorrer à calculadora: o FC Porto conseguiu 50 pontos, enquanto o Benfica, que acabou em segundo lugar, terminou a época com 49.
A chegada de Pinto da Costa à presidência e os campeões em “modo automático”
O dragões só voltaram a sagrar-se campeões no época 1984/1985, com Fernando Gomes a apontar uns notáveis 39 golos na Liga e a arrebatar a Bota de Ouro da UEFA. O presidente do clube já era Pinto da Costa, que estava prestes a operar uma grande recuperação. Quando entrou para a presidência, o FC Porto tinha no seu palmarés sete Campeonatos. Quando saiu, eram 30. Sob a alçada da administração liderada pelo presidente mais titulado do mundo, o FC Porto conseguiu sagrar-se campeão por 23 vezes.
Em 16 épocas, até à viragem do século, os azuis e brancos conseguiram conquistar a principal competição por 11 ocasiões. Foram seis os nomes em que Pinto da Costa depositou a sua confiança até à época 1998/1999: Artur Jorge, Tomislav Ivic, Carlos Alberto Silva, Bobby Robson, António Oliveira e Fernando Santos. Dava a sensação que, qualquer que fosse o treinador, os dragões teriam sempre sucesso.
Foi uma era em que os dragões não só conseguiram vencer internamente, com a conquista de um inédito pentacampeonato na história do futebol nacional, como também chegaram às primeiras conquistas no plano internacional, com destaque para a conquista da Liga dos Campeões de 1987. A caminhada, com Pinto da Costa na presidência, até ao ano 2000, começou com Fernando Gomes e acabou com Mário Jardel. Começou com Zé Beto e acabou com Vítor Baía. Começou com Paulo Futre e acabou com Jorge Costa. O FC Porto contava com importantes figuras que entravam e saíam do clube. O processo começava e acabava em Pinto da Costa, que ia ficando. Muitas foram as figuras que materializaram a recuperação do FC Porto: a título de exemplo, houve Domingos Paciência, o eterno capitão João Pinto, Rui Barros ou Paulinho Santos.
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A toada de conquistas ia continuar com a viragem do século. Em 2003 e 2004, Mourinho conquistou os 19.º e 20.º Campeonatos dos dragões, além de uma Taça UEFA e de uma Liga dos Campeões, respetivamente. Benni McCarthy foi o grande goleador dos dragões na Liga na época 2003/04. Foram 20 golos do sul-africano e 15 assistências de Deco. Além de Jorge Costa, também Costinha, Ricardo Carvalho e Baía foram algumas das principais caras daquele FC Porto campeão europeu e bicampeão nacional.
O 21.º Campeonato chegava pelas mãos de Co Adriaanse na época 2005/2006. Na época seguinte, Jesualdo Ferreira prosseguiu o trabalho do técnico neerlandês e “montou” o tetracampeonato para o FC Porto, depois de conseguir vencer três Ligas consecutivas. Era um FC Porto diferente de Mourinho. A equipa não sobreviveu à sangria do sucesso que teve em 2003/04 e muitos nomes de peso saíram. Entre as épocas 2005/06 e 2008/09, jogadores como Pepe, Quaresma, Lisandro López e Lucho González chegaram ao Dragão para ocupar os lugares vagos deixados por Costinha, Deco, Maniche, Ricardo Carvalho ou Paulo Ferreira. Mais tarde, vieram Bruno Alves, Tarik ou Pepe. Depois, afirmaram-se Raúl Meireles ou Helton.
André Villas-Boas: do banco à tribuna presidencial
O ritmo foi interrompido pelo Benfica de Jorge Jesus em 2010 mas rapidamente foi retomado. André Villas-Boas esteve apenas uma temporada nos dragões como treinador. À semelhança de Mourinho, Ricardo Carvalho, Paulo Ferreira e Bosingwa, também o Chelsea o tirou do Dragão. Mas, antes de chegar a Stamford Bridge, houve tempo para vencer um Campeonato, uma Liga Europa, uma Taça de Portugal e uma Supertaça. Era o FC Porto de James Rodriguez, Falcao, Hulk, Guarín e João Moutinho. À semelhança do plantel de Mourinho, alguns jogadores de peso também saíram, como Falcao e Guarín. Isso não impediu o FC Porto de Vítor Pereira de continuar a ganhar. As chegadas de Danilo e Alex Sandro contribuíram para a conquista do Campeonato da época 2011/12. Falcao foi e Kléber poderá ter sido um erro de casting, na sua sucessão. Algo não correu bem ao avançado brasileiro, mas o FC Porto mesmo assim foi campeão. Nessa época chegou ainda Kelvin, que marcou o golo que decidiu a Liga do ano seguinte, embalado por muitos golos marcados por Jackson Martinez.
Vítor Pereira, depois dessa época, saiu do FC Porto. Com ele, também foram os títulos e as vitórias. Só com Sérgio Conceição os dragões voltariam a vencer um Campeonato. Na época de 2017/18, o ex-jogador dos dragões contou com a ajuda de Marega, Tiquinho, Brahimi ou Alex Telles para quebrar a espera dos portistas na conquista de uma Liga. Sérgio Conceição repetiu o feito em 2019/2020 com Pepe, Vitinha, Fábio Vieira e Otávio. Mais tarde, em 2021/22, com o seu filho Francisco Conceição, Evanilson, Taremi e Luis Díaz. Foi o último título de campeão de Pinto da Costa, cujos Campeonatos conquistados são uma minoria, face a tudo o que ganhou no futebol azul e branco, desde que entrou para a presidência.
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Terá sido por isso que André Villas-Boas não esqueceu o antecessor e outrora líder. No último dia 2 de maio, depois de confirmado o título, o presidente do FC Porto fez questão de dedicar a conquista deste Campeonato a Jorge Nuno Pinto da Costa. As figuras são outras, mais ou menos carismáticas que as anteriores, as o troféu é o mesmo que os outros 30 plantéis conquistaram. Entre os jogadores que mais vezes ganharam o título estão Vítor Baía, João Pinto e Jorge Costa. Sérgio Conceição, Jesualdo Ferreira e Artur Jorge são os treinadores que mais vezes se sagraram campeões nacionais pelo FC Porto.